• A Tarde
     CAPOEIRA FAZ SEU ANIVERSÁRIO RECORDANDO O SEU PASSADO
    24 de fevereiro, 1969



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    • No meio M Pastinha, ao fundo M Waldomiro(?) e M João Pequeno
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    A Tarde, 1969

    O texto

    • página 1

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      Capoeira faz seu aniversário recordando o seu passado
      A Tarde
      24 de fevereiro de 1969

      Completa amanhã, 28 anos de fundação a Academia de Capoeira Angola da Bahia, do Mestre Pastinha. Festejando o aniversário, os alunos de Pastinha estão organizando uma comemoração, a partir das 19 horas, na sede da Academia, no largo do Pelourinho. Para esta festa estão sendo convidados todos os capoeristas da Bahia, especialmente os residentes no "Bigode", em Gingibirra [?], e os intelectuais e artistas Jorge Amado, Caribé, Mário Cravo e Wilson Lins (presidente da Academia).

      Aos 79 anos de idade, dos quais 68 dedicados à arte da capoeira de Angola, Mestre Vicente Joaquim [?] Ferreira Pastinha se encontra cego, sem poder trabalhar vivendo de uma pensão que lhe foi concedida pelo Prefeito do Salvador, de noventa e dois cruzeiros novos e cinqüenta centavos mensais, e de uma pequena taxa que cobra de seus alunos, nos três primeiros meses de treinamento.

      O COMEÇO

      No fim de linha da Liberdade, mais precisamente no Gingibirra, muitos capoeiristas se reuniam aos domingos para jogar a capoeira de Angola, não se importando êles com o estilo da luta ou mesmo da exibição. Faziam parte de uma "academia". Foi então que um seu aluno convidou Mestre Pastinha para assistir a uma dessas demonstrações. Êle relutou a princípio, porém acabou aceitando o convite. Era presidente daquela "academia" um guarda civil de nome Amorzinho. Integravam tal "academia" os mestres Antônio, Maré, Daniel, Livino Diogo, Alemão, Bulgário, Barbosa, Américo Ciência, Domingos Magalhães, Eulâmpio, Butique e outros.

      Mestre Pastinha foi convidado e aceitou dirigir os destinos da "academia" da Liberdade, e a 23 de fevereiro de 1941 fundou o Centro Esportivo de Capoeira Angola. Mas devido à incompreensão de alguns e a falta de confiança de outros no esporte (à época proibido pela polícia), transferiu a sua sede para outros lugares, como o Centro Operário, para o Fôrno na Cidade de Palha (atualmente Cidade Nova), Bigode, Brotas e finalmente Pelourinho, onde está funcionando até hoje.

      UMA ARTE

      A capoeira angola é apresentada por Mestre Pastinha como sendo uma arte, um esporte sadio, em que o amor à técnica é imprescindível, a fim de que ela não seja deturpada e empregada para fins de arruaça. Para isso procurou sempre confiar a presidência de sua academia a desportistas integros, como os Srs. Atalídio Caldeira e Wilson Lins, sendo que êste continua até hoje.

      Aprendeu mestre Pastinha a jogar capoeira aos 10 anos de idade com um prêto africano legítimo, de nome Tio Benedito, que contava mais de 60 anos de idade e morava na Rua das Laranjeiras, n. 26. Quatro meses [anos? - em 1902] depois, ingressava na Marinha de Guerra, onde ensinou a arte aos seus colegas. Na Marinha, Pastinha foi músico e aluno do famoso Anacleto Vidal da Cunha. Êle também é pintor profissional.

      JÁ FOI BRIGÃO

      Nos tempos de jovem, em que a mocidade frequentava o famoso Campo da Pólvora, Vicente Pastinha "fechou o tempo" muitas vêzes, pondo por terra vários policias de uma só vez. Sempre perseguido,

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      História viva

      [legenda da foto:] Mestre Pastinha ladeado por dois alunos (foto) conta ao repórter passagens de sua vida e também episódios da história da capoeira. Revelou que época houve em que também as mulheres praticavam êsse esporte, mesmo com os complicados vestidos usados então. Pastinha, aos 79 anos continua ensinando.

      mas nunca prêso pela Polícia, em dia êle resolveu apresentar-se ao Secretário de Segurança Pública, então Dr. Álvaro Cova, a fim de esclarecer certas lendas a seu respeito e conseguir permissão para trabalhar numa casa de diversões, como porteiro. Nessa época, era seu protetor o Cabo Cosme de Farias, hoje o velhinho Major Cosme de Farias, que servia no 9o Regimento, ao Largo da Palma.

      MULHERES CAPOEIRISTAS

      Por volta dos anos de 1902 a 1911, a Bahia assistiu a um espetáculo impar de coreografia ou seja uma exibição de verdadeiras mestras em capoeira Angola, tão ágeis e hábeis quanto os homens. Foi uma época dura para os "Don Juans" e para a polícia, aquela. Ficaram famosas Maria Homem, Palmeirona, Júlia Fogareira, Maria Pernambucana e tantas outras, que aprenderam a arte não só com Mestre Pastinha mas também com outros mestres da época.

      Perguntamos ao Mestre Pastinha se essas mulheres vestiam roupas especiais iguais aos homens, e êle sorrindo disse: - "Meu filho, naquela época os vestidos arrastavam no chão. As mulheres rasgavam suas saias nos lados. Uniam a parte de trás com a frente, prendendo-as com uma prezilha na cintura, formando uma espécie de calção. Era o bastante para jogar a capoeira com qualquer elemento do sexo masculino".

      Pretende, êste ano, o Mestre Pastinha voltar a ensinar a arte da capoeira às mulheres.

      INTERNACIONAL

      Além de várias apresentações por todo o Brasil, Mestre Pastinha já se apresentou em Dakar, no Senegal, Africa, a convita do Itamarati, graças a uma recomendação especial do Centro de Estudos Afro-Oriental da Bahia..

      No seu encontro com o repórter, compôs versos que agradeceu ao jornalista a atenção que lhe dispensara, agradecendo também a tôdas as pessoas que o ajudaram, ao tempo em que fêz um apêlo ao Governador do Estado no sentido de ajudá-lo a exemplo do que faz o Prefeito.


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