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     MESTRE GATO: UM BERIMBAU DE OURO
    13 de outubro, 1970

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    M Gato Preto, 1970


    O texto

    • página 1

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      MESTRE GATO:
      UM BERIMBAU DE OURO

      Colaboração de Cristina CARDOSO
      Fotos de Jośe CAVALCANTI

      Uma coisa ninguém pode negar ou menosprezar: seu título de melhor berimbau do mundo que o Festival de Arte Negra de Dacar lhe deu. Mas acontece que Mestre Gato não é apenas tocador de berimbau. É exímio capoeirista e quem quiser vá lhe dizer que não. Para êle capoeira é a Angola, com seus 180 golpes muitos dos quais de efeito arrasador. Esta não está em crise. «Ao contrário, está até se internacionalizando. Que crise, coisa alguma, dona»

      Mestre Gato além de capoeira é o melhor tocador de berimbau do mundo. No duro. Primeiro prêmio no Festival de Arte Negra realizado em Dacar, concorrendo com doze países. E, o que é mais importante, primeiro lugar como tocador de berimbau no Festival de Folclore promovido em setembro em Salvador, quando concorreu com os cobras de nossa terra, que modéstia à parte, são bem melhores que os africanos. Aliás nem o berimbau nem a capoeira existem na Africa. É nosso mesmo, como é nosso o Mestre Gato.

      - Na Africa não existe nem capoeira nem berimbau. Aliás, nunca existiu, diz Mestre Gato. O que houve em 1200 foi uma espécie de berimbau tocado de bôca, com verga de cipó caboclo, caixa de ressonância feita de lata. Invés de arame tinha um cipó de imbé e até em lugar do tradicional dobrão de cobre se usava uma faca de sete tostões. Era um berimbau diferente, muito diferente do nosso que é nosso mesmo porque foi aqui na Bahia, na mistura do negro africano com o branco senhor nas lutas pelo amor da mulata.

      GRINGOS NA CAPOEIRA

      Mestre Gato Preto é seu apelido inteiro, recebido por causa de sua agilidade nos saltos quando era criança e pela côr de sua pele. José Gabriel Góes é seu nome de batismo, mas Mestre Gato é o como é conhecido nas rodas de capoeira onde é um dos grandes e nas rodas de berimbau onde é o maior. Começou a jogar capoeira com oito anos, há trinta e dois anos, e até hoje não pensa em largar a Angola, para êle a única e verdadeira capoeira.

      - Capoeira não está em crise, não senhora. Pelo contrário, agora está se elevando, se espalhando da Bahia para o mundo. Olhe, dona, tenho alunos até nos Estados Unidos. Oito americanos, três dos quais brancos, mesmo. Imagine só: até os gringos louros de olhos azuis estão sendo os bons na luta dos velhos crioulos.

      CAPOEIRA MATOU CURIÓ

      E Mestre Gato continua: «A Angola é a grande capoeira, a verdadeira e não me digam que tem poucos golpes. Tem ao todo 180 golpes e quem dizer que tente me desmentir. E êles podem matar, dona, são muitos perigosos. A Bahia tôda se lembra de Curió, que morreu por causa de uma cabeçada que quiz dar numa mulher por quem se apaixonou e tinha ciúmes. Errou o golpe, e foi dessa prá melhor. Os golpes da Angola são soltos. Quem tem golpe ligado é a Regional que foi influenciada pela luta rumana, pela luta livre e outras lutas estrangeiras. Os únicos golpes ligados da Angola são os balões.»

      MORRER NA BAHIA

      No Centro Folclórico da Bahia, com seu berimbau de estimação a tiracolo, Mestre Gato fala do passado e do futuro da capoeira:

      A capoeira não vai morrer não, gente. Está mais viva do que nunca, e está se espalhando pelo mundo, ela, que antigamente só existia na Bahia.

      Eu tenho até aluno francês. Está se internacionalizando, mas é bom é que os grandes mestres não deixaram a Bahia, onde nasceram. Ficaram todos aqui: Cobrinha Verde, Manteiguinha, Leó, o falecido Popó, o grande Besouro já morto para mim o maior capoeira da Bahia, Pastinha, Caiçara todos êles não saem daqui. Vão viver até a morte na cidade da Bahia, como eu, que não deixo minha terra.

      DE PAI PRÁ FILHO

      - Aprendi capoeira com meu pai, que aprendeu com meu avô. É a legitima Angola que ensino agora a meu filho Gato II e aos meus alunos lá em minha „Academia Mestre Gato e seus alunos“, lá no Engenho Velho da Federação. Quem quizer ver a boa capoeira vá lá às segundas, quartas e sextas feiras das 19 às 22 horas e também aos domingos das 15 às 18 horas e verá o que é bom:

      E é bom mesmo. Mestre Gato é capoeira conhecido até por Vinícius de Morais e pelo Pasquim. Mestre Gato é capoeira lúcido, válido e inserido no contexto, que no toque do berimbau dismistifica todos falsos tocadores. Primeiro lugar como tocador de berimbau, em parada dura com Vermelho [de Pastinha, Maurício Lemos de Carvalho – velhosmestres.com] e Mestre Canjiquinha, desafia:

      Quem quiser vencer o próximo festival venha aprender a tocar berimbau comigo, lá na minha Academia. O prêmio é garantido.

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      GATO II

      E Mestre Gato compara a capoeira de hoje com a de antigamente:

      - Naquele tempo, era luta de moleque, de beberrão, e terminava em faca e morte. Hoje está tudo diferente. Quem estuda é rapaz fino e educado, que quer ficar ágil e ter bom físico. Rapazes que vão ser os futuros mestres como Didi Cabeludo, Mário Bom Cabrito que já ensina capoeira lá na Faísca, Mundinho Prêto, Paris, um francês que foi ensinar Angola aos paulistas, Toninho que também foi pra São Paulo e Gato II, meu filho e sucessor, que vai fazer com que a capoeira não saia nunca da família.

      Mas Mestre Gato não é apenas de capoeira e berimbau. Foi êle também quem trouxe o maculelê de Santo Amaro, sua terra, a terra dos grandes capoeiras… É êle quem desde 1961 se apresenta por todo Brasil: para Manchete, em show folclórico no RGS na Festa do Candango em Brasília, em apresentação especial para o Presidente João Goulart, na TV de Brasília, na Universidade de Brasília, até que fôsse seu o „Berimbau de Ouro“ como o melhor tocador de berimbau da Bahia de Todos os Santos.


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