• Eunice Catunda
     CAPOEIRA NO TERREIRO DE MESTRE WALDEMAR
    Fundamentos - Revista de Cultura Moderna
    nº 30, pp. 16–18
    novembro de 1952

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    • Ano V * N. 30 * 1952

      Capoeira na Baia. Eunice Catunda

    • Capoeira no terreiro de Mestre Waldemar

      Eunice Catunda........16

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    Capoeira no terreiro de Mestre Waldemar

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      CAPOEIRA NO TERREIRO DE MESTRE WALDEMAR
      Eunice Catunda

      Todo artista que não acredita no fato de que só o povo é o eterno creador, que só dele nos pode vir a fôrça e a verdadeira possibilidade de expressão artística, deveria assistir a uma capoeira baiana. Ali a fôrça criadora se evidencia, vigorosa, livre dos preconceitos mesquinhos do academismo, tendo como lei primordial e soberana a própria vida que se expressa em gestos, em música, em poesia. Ali se exprime a vida magnífica e bela, em nada prejudicada pela capacidade limitada dos instrumentos musicais primitivos, aos quais se adapta sem ser por eles diminuída.

      O senso de realização coletiva, própria essência da arte, se revela no tríplice aspecto da capoeira, que é uma fusão de três artes: Música, Poesia e Coreografia.

      A dança da capoeira, na Bahia, é o que jamais deixou de ser a verdadeira arte: não um divertimento, mas uma necessidade. Aliás, é esse um dos fatores a que se deve a fôrça mil vezes mais viva da arte popular quando a comparamos à música erudita: esse caráter funcional, esse aspecto de necessidade imperiosa que tem toda arte que o povo cultua. Ao passo que a música erudita soa cada vez mais falsa, se revela sempre mais um simples gozo de sibaritas, sem função, desnecessária.

      Na Bahia, a arte da capoeira é atividade domingueira, tão normal e querida quanto o nosso grande esporte nacional, o futebol. E quem a exerce é, na maioria, o povo trabalhador: operários da construção civil, carregadores do mercado, gente de profissão definida, que passa a semana inteira no duro "batente", lutando para garantir o pão de cada dia, para si e para sua família. A capoeira baiana não é como a do Rio, arte cultivada quasi que exclusivamente pelo lúmpen-proletariado, arte perseguida pela polícia de costumes como perigosa, causadora de crimes e de bebedeiras. Na Bahia ela é cultivada pelo povo sadio; é arte de gente combativa, sem nada de mórbido ou nocivo.

      O ritual, a tradição a que obedecem os participantes da capoeira, são muito rígidos. O mestre é o conhecedor da tradição. Daí ser ele, também a autoridade máxima. Supervisiona o conjunto todo, determinando a música, o andamento, tirando os cantos ou indicando a pessoa que o faça. É também ele que determina o tempo de duração de cada dança, de relógio em punho. Os concorrentes novatos dançam entre si. Mas quando algum bailarino se destaca, o Mestre dança com ele, apontando-o, por meio dessa distinção à atenção dos veteranos, novatos e assistência. Essa autoridade do Mestre é uma das coisas mais admiráveis e comoventes que tenho visto. O respeito a ele demonstrado pela coletividade, o carinho com que o cercam, fariam inveja a muito regente de música erudita. Prova isto que o espírito de disciplina é mais vivo no povo rude e inculto da nossa terra, quando este se organiza, que entre as camadas superiores, já mais habituadas à organização conseqüente da própria instrução e do exercício de atividades culturais e que, por isso mesmo, teriam maior obrigação de compreender a necessidade e a importância da disciplina na coletividade. Acontece porém que o Mestre nunca abusa de seus direitos. Não se atribui poderes ditatoriais. Sabe que sua autoridade emana da própria coletividade e comporta-se como parte integrante desta. Belo exemplo de modéstia observei também no terreiro baiano mas que já observara, anos atrás, no litoral de São Paulo numa colônia de pescadores distante 3 quilômetros da vila de Ubatuba, por ocasião de uma "dança de S. Gonçalo" que ali se realizava. Nesta, a mestra era uma velhinha de setenta anos, severa e incansável. Mas a "dança de S. Gonçalo" ficará para outro artigo.

      O terreiro de Mestre Waldemar localiza-se no célebre bairro proletário da Liberdade. Bairro de grande densidade de população, sem pretensões, esquecido da Prefeitura que se preocupa em embelezar e cuidar só daqueles trechos da Cidade do Salvador que se encontram à vista do turista. Quanto ao bairro da Liberdade, não é para "gringo" ver. Como todo bairro operário, não tem calçamento, é cheio de valas onde, em tempo de chuva, as águas apodrecem envoltas em nuvens de mosquitos; seus incontáveis casebres mal se têm de pé, e se o fazem é por pura teimosia. Abundam as vendolas onde se compra desde a jabá até a caninha. É um bairro repleto de vida e de movimento, corajoso e revoltado. Nesse domingo de sol, os caminhos da Liberdade, onde Alina Paim conheceu a fome e a miséria da infância baiana abandonada, de quem ela se aproximou e que muito contribuiu para levá-la a colocar a sua arte a serviço do povo, estavam até bonitos. As cores vivas da Bahia continuavam nos vestidos domingueiros das jovens do povo. A claridade risonha do dia se refletia nos rostos mais repousados dos trabalhadores e nos alvos sorrisos dos pretinhos moleques de cara lavada pelo banho semanal, tão dificil pela precariedade das instalações sanitárias, praticamente inexistentes…

      Quando chegamos ao terreiro a capoeira já começara. Dois dançarinos coleavam rentes ao chão, enquanto dois birimbáus e três pandeiros acompanhavam com estranhos ritmos e sons aquela dança magnífica e arrebatadora, de gente combativa e forte. Os dançarinos do momento eram um carregador do mercado de Água de Meninos e um operário da Construção Civil. O operário estava todo de branco, sapatos brilhando, camisa alvejando. Era um dos melhores dançarinos. É costume da fina-flôr dos capoeiristas o dançar assim, "de ponto em branco" como se costuma dizer, para demonstrar sua perícia. Chegam ao cúmulo da dançar de chapéu e os bailarinos hábeis se gabam de sair da dança sem uma só mancha de terra na roupa, limpos e bem arrumados como se ainda não houvessem entrado em função.

      A roda de espectadores, gente do bairro, gente amiga da qual os únicos estranhos éramos Maria Rosa Oliver e eu, em breve estava eletrizada pela dança. Só tomávamos conhecimento do tempo nos breves intervalos entre uma dança e a seguinte; e assim mesmo para achar que demorava muito a continuação…

      A dança de capoeira é a representação simbólica de antigas lutas autênticas. Na Capoeira de Angola, os dançarinos volteiam quase rentes ao chão, realizando paradas de braço, em posição horizontal, girando, escorregando como enguias e escapulindo por sob o corpo do adversário. Os golpes são constatados por mesuras e pelas exclamações dos assistentes. Aliás, não fóra a precisão daqueles movimentos, muitos dos golpes seriam mortais. Esse é o caso das célebres cabeçadas assestadas contra o peito e cujo impulso é sustado só no derradeiríssimo momento, quando a cabeça

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      de um dos bailarinos já aflorou o corpo do outro. A violência latente nunca se desencadeia e esse extraordinário domínio de paixões mantêm a assistência numa incrível tensão de nervos, empolgando a todos numa espécie de hipnotismo coletivo quase indescritível. Só aqueles que assistiram a uma demonstração de Capoeira de Angola poderão compreender a monstruosa fôrça e contrôle exigidos para que se realize cada um daqueles movimentos, sem que se dê lugar a qualquer agressão, sem que se perca a elegância e a graça felina de cada gesto, absolutamente medido, calculado por uma espécie de instinto, já que os elementos atuantes se acham inteiramente entregues àquela arte aparentemente tão impulsiva e espontânea.

      Outra caraterística que ressalta na capoeira baiana é o fato de ambos os dançarinos, ou o grupo completo, pois às vezes há vários de dois a dois, atuarem com a mesma intensidade. Não é como a capoeira carioca, na qual um dos comparsas se matém imóvel, em atitude de defesa, enquanto só o outro ataca, dançando em volta do inimigo, assestando-lhe golpe sobre golpe. Na capoeira de angola nenhum dos dois permanece parado. Pelo contrário, movimentam-se como fusos, como lançadeiras! E o espírito de alegria está sempre presente. Apesar da violência latente, não sobrevém a hostilidade. Há no meio daquilo tudo imensa fraternidade e júbilo. Verificam-se passes espirituosos de bailarinos brincalhões e sorridentes, a realizar difíceis e perigosíssimos passos e golpes. E entre os assistentes estouram sonoras risadas... Jamais vi, em danças de conjunto, nacionais ou estrangeiras, tão arrebatadora beleza, aliada a tal rapidez, precisão e fôrça reprimida, dominada por uma inteira disciplina e lucidez.

      Tivemos ocasião de admirar um menino de sete anos que dançou com o próprio Mestre Waldemar, de quem é aluno, e com aquele operário exímio de quem já falei. Não se pode imaginar quanto era comovente acompanhar a frágil figurinha infantil, hábil, compenetrada, a competir com o homem mais velho, em cujo rosto se iluminava um sorriso afetuoso, porém nada complacente. Concentrado, o menino aplicava cabeçadas e rasteiras, escapulindo matreira e agilmente das rasteiras e cabeçadas do mestre, cônscio de sua dignidade de futuro capoeirista, de futuro artista popular, imperturbável, sob os olhares e exclamações dos espectadores.

      Passamos agora ao outro aspecto, ao que se refere à música.

      Em primeiro lugar quero explicar o que é um berimbau. Sua aparência é a de um arco indígena. De ponta à ponta da vara, vergando-a, estende-se uma corda de metal, se não me engano de cobre, muito tensa. Quase no centro da vara, há uma cabaça ôca, voltada na direção contrária àquela em que se encontra a corda de metal. O executante toma este arco entre os dedos anular e o mínimo da mão esquerda, utilizando um suporte que se encontra na metade inferior do instrumento. Entre o polegar e o indicador da mesma mão segura uma moeda de cobre, um antigo patacão. O instrumento é ferido com uma varinha de metal, que ele segura na mão direita, juntamente com o caxixi ou caxiri, instrumento de percussão indispensável, que se assimilha a uma pequena sineta porém feita de palha trançada contendo grãos, cujo bocal é fechado por uma rodela de couro a ele costurada. O desenho do instrumento é muito belo. Os intrumentistas cuidam muito do berimbau que geralmente é pintado em cores vivas, esmaltado de vermelho, azul ferrete, alaranjado, amarelo ou verde. Quando a moeda aflora a corda, esta soa um tom acima do que o som que se faria ouvir se ela fosse ferida sem a interferência da moeda. A qualidade do som, seu timbre, também varia, segundo o executante afaste o instrumento do corpo ou aplique a parte ôca da cabaça contra o próprio estômago. Nesse último caso, o instrumento ressôa profundamente. São estes os recursos do instrumento. Pois bem; a este instrumento primitivo os instrumentistas conseguem atribuir uma qualidade definidamente musical, combinando-os dois a dois e assim ampliando para quatro o número de sons. Desta maneira alternam-se quartas aumentadas, segundas e unísonos, cria-se uma linha onde a tensão e distensão ficam bem evidentes, aumentando portanto o gráu de expressividade.

      Notas [Ex. I — a e b]

      Dos três pandeiros um servia de base. Feito de pele de cobra, maior, de som cavo, sublinhando os sons culminantes dos berimbáus acompanhantes, só se fazendo ouvir naqueles instantes, descontinuamente, ao passo que os dois outros pandeiros, mais leves e secos, se completavam, num ritmo mais agitado e rápido. Quanto aos caxixis, naturalmente subordinados ao gesto do executante do berimbau, se perdiam no complexo sonoro, fundindo-se os dois grupos, a — caxixis, berimbáus e grande pandeiro, contrapondo-se a b — dois pandeiros mais secos, numa superposição de três contra quatro, muito típica do ritmo nosso, brasileiro. Isso sem contar novo impulso ao ritmo quebrando-o com certas acentuações contrariando a simetria binária que vinha trazer a monotonia. Segue-se um exemplo pequeno, para dar idéia mais clara àqueles que podem ler os sinais musicais.

      Notas [ Ex. II ]

      Como elo entre a percussão e a dança, coroando esse complexo rítmico, completando-o, surge então uma melodia, ora seguindo o ritmo do grupo a, ora passando-se para o outro grupo, ou então, completamente liberta de barra de compasso, seguindo apenas as leis de movimento ditadas pela poesia do artista popular que a criava no momento. A voz masculina, pura e profunda, se elevava acima do pulsar do conjunto instrumental, suave e intensa, muitas vezes modal, para só dar lugar ao côro repetir verdadeiro canto recitativo,

      Notas [ Ex. 3 — e a b ]
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      Depois a voz continuava, fazendo floreios sobre a mesma base, sem nunca repetir, impossível quase de anotar com exatidão por meios não mecânicos.

      Notas [ Ex. 4 ]

      Os solistas se alternavam, dando à melodia a característica própria de seu temperamento humano. Umas eram mais vivas, mais espirituosas, enquanto outras eram sonhadoras, singelas. Mas, todos os textos, profundamente poéticos.

      Lembro-me bem de uma voz que se elevou para cantar a beleza dos saveiros de velas enfunada, louvando o mar generoso e o vento que os conduz. Descreveu o vento a acumular nuvens para depois dissolvê-las, em gotinhas de chuva, sobre a branca vela dos saveiros que embalou. Era a poesia popular que se fazia presente no esplendor tríplice da arte única que é a Capoeira de Angola. E a tudo isso, o côro continuava a responder pela boca de todos os assistentes e participantes: "Eh! Paraná, eh! Paraná, camará..." emquanto os dançarinos prosseguiam serpeando, voltejando, girando, desviando os corpos das cabeçadas, rindo alto, aos saltos, elásticos como gatos. E nós, prisioneiras da beleza dos textos cantados, que nos traziam lágrimas aos olhos, prisioneiras do povo que, mesmo sem querer se faz amar, naquele modesto terreiro do bairro da Liberdade e onde quer que se encontre.

      É isto o que tinha a contar sobre a mais grandiosa e violenta demonstração de arte popular a que já assisti e que maior impressão me causou. Dela recebi um pouco mais de ensinamentos, lá vi mais uma vez a força de expressão de nosso povo que se entrega à arte como faz uma criança, ingenuamente. Mas que é sempre simples, grandioso, generoso e pródigo de sua riqueza infinita.

      Muito desejei ver ali meus amigos: Santoro, Guerra Peixe, Camargo Guarnieri que já viu e ouviu muito mais do que nós, Eduardo de Guarnieri que bem haverá de compreender a mensagem, maravilhosa dos artistas do povo em ação.

      Escritores, pintores, escultores e poetas, é preciso procurar a Bahia! A Paz que lá me levou, a Paz desbravadora dos caminhos da cultura e da Esperança, deverá levar-nos a todos, muitas vezes por esse Brasil infindável, cheio de povo criador, de folclore ignorado ou esquecido, cheio de problemas sociais e de lutas das quais temos o dever de participar.

      Também desejei ver ali nossos inimigos. Muito europeu que anda por aí, olhando o Brasil do alto do seu nariz, criando confusão e pensando que folclore é só "Casinha Pequeninha" e curiosidade de salão para satisfazer o enfaro cosmopolita de "gringos", é só política de Boa Vizinhança. Muito artista que se aproveita do povo para subir e que depois passa a dar-lhe pontapés com as botas ferradas de sua genialidade...

      Se todos nós encontrássemos juntos naquele terreiro baiano, amigos e inimigos, nós os que cremos, nos comunicaríamos por meio de um simples sorriso ou de um olhar de orgulho. E aos outros esmagaríamos com nossa esperança no futuro com a fôrça do povo ao qual pertencemos e que se está libertando. Eles veriam que seu mundo morre, enquanto o nosso surge, cheio de esplendor das Capoeiras de Angola, das Danças de S. Gonçalo, dos Maracatus, Reizados, Festas do Divino e de mais, muito mais de tudo aquilo que faz de nós"le lendemain qui chante" de que falou um dia Paul Vaillant-Couturier.

      Ao longe, para além das fronteiras do mundo-que-já-se-acabou, poderíamos perceber a inveja impotente transparecer nos olhares dos piolhos cosmopolitas, apesar das lentes escuras dos "ray-ban" por trás das quais eles procuram um abrigo impossível, na cegueira dos que não querem ver...


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