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     A MORTE DE M PASTINHA
    14 de novembro, 1981

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    Mestre Pastinha, 1981

    Os textos

    • Jornal do Brasil

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      Falecimentos. Estados

      Vicente Ferreira Pastinha, 92, de derrame cerebral, no Abrigo Dom Pedro II, em Salvador, onde estava internado há vários meses, Mestre Pastinha, "o guardião da capoeira de Angola", segundo o escritor Jorge Amado, era o mais famoso capoeirista da Bahia. A capoeira de Angola é a mais genuína dança-luta dos negros escravos trazidos da África para o Brasil e preservada no tempo por intermédio de Pastinha e outros mestres da luta. "Um esteio da genuína dança dos escravos", assim o definiu o artista plástico Carybé.

      Durante anos, o Mestre Pastinha, manteve uma academia de capoeira de Angola no largo do conjunto arquitetónico do Pelourinho, de onde saíram formados vários capoeiristas e mestres na arte-luta. Com as obras de recuperação do casario colonial do Pelourinho, foi retirado às pressas do prédio, perdendo sua academia e objetos que cobrava insistentemente da Fundação do Pelourinho: 14 bancos de madeira, berimbaus, atabaques, agogôs, reco-recos, quadros a óleo por ele pintados, livros de registro da academia, correspondéncias do exterior, bandeiras e móveis de jacarandá.

      Pobre e sem recursos para alugar outra sala para instalar a escola de capoeira, Pastinha foi colocado pela fundação cultural em um dos quartos do casarão da casa 14 da ladeira do Pelourinho. Por insistência de amigos, jornalistas e políticos, a Prefeitura de Salvador instituiu mensalmente uma pensão de três salários mínimos. Enquanto isso, no prédio em que morava e mantinha sua academia, surgia um luxuoso restaurante do Senac.

      Mestre Pastinha estava cego há 18 anos e à medida que permanecia ocioso, sem a atividade que dedicou a vida, desde os oito anos - ele aprendeu capoeira de Angola com um negro liberto, chamado Benedito, depois foi marinheiro, pedreiro, marceneiro, mas, sobretudo, capoeirista - foi vítima por um derrame cerebral no ano passado. Esteve internado no Hospital dos Servidores Municipais e, devido à falta de recursos para manter o seu tratamento médico, sua companheira, Maria Romelia Costa Oliveira (Dona Nice), o internou no Abrigo de Velhos Dom Pedro II. Dona Nice, segundo Jorge Amado, o protegeu durante a vida e, com a cegueira, impediu que ele fosse explorado. "Pastinha tem sido vítima de muitos vigaristas e vive como um bicho", desabafou o escritor em 1978, criticando os pesquisadores da cultura negra que absorviam informações de Mestre Pastinha e nada lhe retribuía e lamentando as condições de vida do guardião da capoeira de Angola.

      Numa de suas últimas entrevistas, Mestre Pastinha falou da capoeira de Angola: "O segredo da capoeira morre comigo e com muitos outros mestres. O que há hoje é muita acrobacía e pouca capoeira. Capoeira é amorosa, não é perversa. Capoeira não é minha, é dos africanos. É mandinga de escravo africano no Brasil. Um costume como qualquer outro, um hábito cortês que criamos dentro de nós. Uma coisa vagabunda".

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      O Estado de São Paulo

      Morre o Mestre Pastinha

      [foto: Mestre Pastinha criou o gênero Angola na capoeira]

      Abandonado em um abrigo de velhos, depois de anos de miséria ocupando um cubículo em um dos becos da Ladeira do Pelourinho, morreu ontem, em Salvador, aos 93 [92] anos, o Mestre Pastinha, criador da capoeira Angola e uma das figuras mais populares na cultura afro e folclore da Bahia.

      Vicente Ferreira Pastinha era considerado uma das pessoas mais importantes na formação cultural dos baianos de Salvador. Com sua arte foi um dos maiores incentivadores e divulgadores do folclore, cultura e hábitos locais, tornando-se um dos personagens mais conhecidos da Bahia. Isto, no entanto, não o protegeu dos infortúnios no final da vida.

      Na década de 70, o Mestre Pastinha, que formou gerações e gerações de capoeiristas baianos nos segredos da capoeira de Angola, foi despejado do prédio que por muitos anos serviu-lhe como academia, na Ladeira do Pelourinho, por causa das obras de reforma do conjunto arquitetônico. Nos últimos anos, já quase cego, era sustentado pela mulher, vendedora de acarajé nas ruas de Salvador Antiga. Em 1979 passou meses em um leito de indigente do Hospital do Servidor Municipal, recuperando-se de um segundo enfarte. Nessa época, depois de a imprensa local denunciar o abandono a que estava relegado um dos símbolos da terra, parlamentares na Assembléia Legislativa solicitaram ao governo uma moradia e uma pensão vitalícia para o velho capoeirista.

      Mestre Pastinha, que ultimamente vivia no Abrigo D. Pedro II, na Cidade Baixa, não resistiu a um novo ataque cardíaco na madrugada de ontem. Foi sepultado no final da tarde no Cemitério do Campo Santo. A Prefeitura de Salvador pagou o enterro.

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      O Globo

      Morre aos 93 [92] anos o 'rei da capoeira': Mestre Pastinha

      SALVADOR (O GLOBO) - Aos 93 [92] anos de idade, completamente cego e na miséria, morreu ontem, no Abrigo Dom Pedro II, Vicente Ferreira Pastinha, o legendário "Mestre Pastinha", considerado por muitos o melhor capoeirista do Brasil.

      Pastinha morreu no mesmo dia em que o escritor Jorge Amado, que lhe deu celebridade tornando-o personagem de vários de seus livros, inaugurava a exposição bibliográfica comemorativa dos seus 50 anos de literatura.

      O próprio escritor, porém, apesar de ser uma das poucas pessoas que ajudavam Pastinha mandando-lhe dinheiro regularmente, só soube de sua morte depois do enterro. O capoeirista morreu de uma parada cardíaca às 9h e foi enterrado às 17hs, com presença apenas de parentes, do secretário de Saúde do município, Edson Barbosa, do representante do prefeiro, Nilton Morais, e de alguns capoeiristas.

      Há vários anos Pastinha estava doente, com "problemas da velhice", como diziam os médicos, o que era agravado pelo estado de miséria em que vivia: morava num cubículo escuro e úmido da Rua Alfredo Brito, no Pelourinho; dormia num colchão estendido no cimento; estava sub-nutrido e sem remédios. Já não andava, não falava e não ouvia nem via.

      CONCENADO À MORTE

      Em novembro de 79, ele foi levado para o Hospital do Servidor Municipal em péssimo estado e, depois de apresentar alguma melhora, pediu para ficar morando ali, "se não fosse incomodar". Os médicos evitaram lhe [..], dizendo que isso equivaleria a uma condenação à morte. Como não surgisse, porém, uma alternativa de moradia, acabou voltando, dois meses depois, ao seu quarto no Pelourinho, de onde foi transferido em fevereiro deste ano para o Abrido Dom Pedro II.

      Os problemas económicas e de saúde de Mestre Pastinha começaram a se agraver em 1973 1971, quando teve de entregar à Fundação do Patrimônio Artístico e Cultural do Estado, para restauração, o prédio número 51 [19] da Rua Gregório de Matos, no Pelourinho, onde mantinha a sua academia de capoeira: o Centro Esportivo de Angola.

      Ao final das obras, a fundação transferiu o prédio ao Senac, e Pastinha recebeu uma indenização, da qual passou a viver, além dos três salários mínimos que recebia da Prefeitura. O mestre alegava que a fundação tinha "dado fim" a todos os seus pertences deixados na academia, e sempre que falava nisso ele chorava. Algum tempo depois, a fundação deu-lhe uma sala de 43 metros quadrados para instalar a sua academia, mas o capoeirista nunca conseguiu lucro com isso.

      Pastinha, o mais importante mestre na Capoeira de Angola, morre sem deixar sucessores. Sua capoeira, aprendida de negros africanos nas ruas da Bahia, era considerada uma arte, pois se prendia mais a malícia e a leveza, diferindo da Capoeira "Regional" praticada hoje, que é mais violenta.

      PREDESTINADO

      "Eu nasci predestinado a uma missão: lutar capoeira. Venci centenas de adversários, formei mais de 10 mil alunos. Pela minha academia passou do coronel ao operário, do soldado ao político, do escritor ao servente, do médico ao menino doente que precisava de exercícios para desenvolver as juntas. E eu ainda estou aqui pela vontade de Deus. Ele, eu sei, não vai me deixar viver assim para sempre. Ainda posso lutar".

      Assim sonhava em 1976 Vicente Ferreira Pastinha, o "Mestre Pastinha" - recebendo turistas em seu quarto sujo e abafado em um casarão colonial do Largo do Pelourinho. Assim sonhou durante muito tempo, cego há 18 anos e sem academia há 13 anos.

      "Trata-se de um grande mestre de nossa cultura popular e deveria ser amparado pelos poderes públicos e pela população, para que possa viver com dignidade", dizia dele Jorge Amado, definindo-o como "guardião de um inestimável valor, que é a capoeira de Angola".

      Pouco antes de perder também a fala, o próprio Pastinha dizia:

      "O segredo da capoeira morre comigo e com muitos outros. Também continua viva alguma [..]. É dos africanos. Dos africanos ficou alguma coisa para mim. Herdei alguma coisa. Sou herdeiro da arte dos africanos. Mas capoeira é brasileira, é patrimônio nacional".

      Para o artista plástico Caribé, ele era "o elemento conservador e esteio da genuína dança dos escravos". Seus alunos diziam: "Ele é o maior capoeirista do Brasil. Depois que Bimba morreu, só restou ele daquela geração de angoleiros de briga: Bigode de Seda, Bugalho, Américo Ciência, Besour, Tibiriçá, Amorzinho, Três Pedaços..."

      Mas os adeptos da Capoeira Regional divergem. O etnólogo Waldeloir Rego, por exemplo, autor do livro "Capoeira de Angola", afirmava: "Ele é um capoeirista como qualquer outro e jamais pode ser comparado com Besouro, por exemplo".


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