• República Esporte
     Mestre Pastinha perde para Bruce Lee
    2 de janeiro de 1980

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    • PASTINHA "Ninguém quer nada de mim, a não ser conversa"
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    M Pastinha, 1980


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      Mestre Pastinha perde para Bruce Lee
      República Esporte, 2 de janeiro de 1980

      A única luta marcial brasileira perde terreno para o caratê e outras novidades importadas

      PAOLO MARCONI, de Salvador

      Aos 91 anos, cego por causa de glaucoma e catarata, internado de favor no Hospital dos Servidores Públicos da Prefeitura de Salvador desde 12 de novembro, ele é a própria imagem da capoeira no Brasil. Ele é Vicente Ferreira Pastinha, o capoeirista baiano mais badalado por uma literatura que, nos últimos anos, passou a vender a imagem de uma Bahia mágica, cheia de mistérios a serem descobertos por avidos turistas.

      Por detrás do drama pessoal de mestre Pastinha - que vem desde 1973, quando sua academia foi despejada, pelo governo, do Largo do Pelourinho para ceder lugar ao Restaurante do Senac - os capoeiristas baianos estão empenhados numa surda luta contra as chamadas artes marciais orientais, como o kung-fu, taekwon-du, judô, caratê, aikido e kendo. Se esta luta fosse travada num tablado, talvez a capoeira ainda tivesse chances de ganhar. Mas, como o palco é a Confederação Brasileira de Pugilismo, a capoeira - a única genuinamente nacional - vem sendo constantemente derrotada e continua sem perspectivas de ganhar o mesmo destaque que as lutas importadas.

      Durante a escravatura ela conseguiu sobreviver. Também sobreviveu a encarniçada perseguição policial do inicio da República, quando os capoeiristas eram identificados como marginais e desordeiros.

      Contraditoriamente, começou a perder terreno quando passou a ser aceita pela sociedade branca: foi sendo, então, descaracterizada pelos interesses turisticos, que passaram a predominar na Bahia nos últimos 10 anos. E, finalmente, conheceu a total decadência graças ao descaso do Conselho Nacional de Desportos, que até hoje não a regulamentou, apesar de tê-la reconhecido como esporte.

      Conversar hoje com Pastinha, um negro muito decantado nos livros de Jorge Amado, onde é descrito como sendo "ágil como um gato", é extremamente penoso; não tanto por causa de sua cegueira, ou pela pobreza extrema em que vive, mas pelo que fala. "Apanhei como um cachorro nos meus 91 anos de vida", diz ele, "apanhei muito para jogar capoeira e hoje, o que me resta?". Ainda em função do exploração que o turismo fez em torno do seu nome, como repositório da verdadeira capoeira angola, ele era constantemente procurado por turistas e estudiosos da cultura negra no escuro e soturno quarto em que vivia no Pelourinho. Não está a par do que acontece hoje com a capoeira. Para ele, sua situação pessoal é mais dramática: embora esteja recebendo uma pensão mensal de Cr$ 5 mil da Prefeitura de Salvador, este é, na verdade, um "favor" que lhe fazem. Magoado, se queixa: "Hoje ninguém quer mais nada de mim, a não ser conversa".

      Pastinha não é nem o primeiro nem o último mestre de capoeira a estar nesta situação de abandono. Outro capoeirista famoso, mestre Bimba (criador da capoeira regional, tendo acrescentado golpes de outras lutas à tradicional capoeira angola trazida pelos escravos), morreu em 1974, em Goiânia, para onde foi atrás de melhores oportunidades. Morreu pobre, num quarto de três metros por quarto. Mestre Totonho Maré morreu pobre como Pastinha.

      Mas a situação de Bimba, Pastinha ou do falecido Totonho Maré é mais o efeito do que causa do lastimável estado a que chegou a capoeira. Carlos Senna, 48 anos, mestre de capoeira e ex-aluno de Bimba, joga desde 1949, e há mais de dez anos vem escrevendo aos presidentes da República e ministros da Educação e Cultura, pedindo-lhes que façam algo pela única arte marcial brasileira. O máximo que conseguiu foi que o CND a reconhecesse como esporte, subordinando-a à Confederação Brasileira de Pugilismo.

      Está pior, segundo ele, porque antes só cuidavam da capoeira ou pessoas com pouca cultura ou então "uns poucos que tinham alguma cultura mas que não queriam tirar nenhuma vantagem, nem financeira nem de status". Infelizmente, diz ele inflamado, "o governo ainda não afastou os pelegos esportivos, homens que estão nesse metiê há mais de vinte anos e que só querem tirar vantagem pessoal do esporte, como é o caso do coronel Saguas, presidente da Confederação de Pugilismo, que mora em São Paulo e dirige a entidade no Rio de Janeiro".

      Esses "pelegos", como explica Senna, só dão ajuda ás lutas marciais orientais. Como exemplo, ele lembra que quando há um campeonato de caratê, as delegações recebem onze passagens de avião. Já para a capoeira, o número baixa para a metade, e mesmo assim se viaja de ônibus. Carlos Senna, dono da Senavox, academia que fica no centro de Salvador e que este ano completa 25 anos de funcionamento, é pessimista quanto ao futuro da capoeira; chegando ao extremo de afirmar que se a situação não mudar ela desaparecerá em três anos. Ironicamente, um andar acima de sua academia está instalada outra de aikido que funciona com todas as turmas lotadas. Enquanto isso, sua academia de capoeira só tem trinta alunos, que pagam 400 cruzeiros por quatro horas semanais.

      Ao lado disso ele enfrenta outra dificuldade: a técnica de luta que os paulistas e cariocas, principalmente, querem incorporar aos regulamentos dos campeonatos. "Já cansei de dizer que capoeira é luta, é derrubar o adversário. Por deficiência técnica eles não querem aceitar o que a gente propõe como ponto básico do regulamento: perde quem for derrubado. É só ouvir a música - 'capoeira que é bom não cai'. Mas não, o que eles estão querendo é que a qualidade do capoeirista seja aferida como nas escolas de samba."

      Esta tendência a transformar a capoeira mais numa dança do que em luta começou a se delinear no inicio desta década, com as levas de turistas que a Bahia passou a receber. Autor do livro Capoeira Angola, um Ensaio Sócio-Etnográfico, Waldeloir Rego tem uma tese sobre o assunto: "Salvador quis tornar-se a Meca do turismo. Com os visitantes aportaram as empresas de turismo e com elas os famigerados grupos e conjuntos folclóricos. Nessa simbiose se resolveu o problema do turista, das agências e dos donos dos conjuntos folclóricos que queriam ganhar dinheiro fácil". E a capoeira? "Pois é, só não se resolveu o problema da cultura, que foi sendo dilacerada, e dentro dela a capoeira, que está sendo devorada pela sociedade de consumo". Capoeira, lembra ele, nostálgico, acontecia espontaneamente nas ruas, com sabor de brincadeira. Hoje, quem quiser assistir á capoeira tem duas opções: ir ao um teatro ou restaurante tipico ou então se dispor a atravessar a cidade e ir até bairros populares da periferia não trilhados por agentes de turismo e onde a febre das artes marciais orientais ainda não chegou.


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