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     PASTINHA 90 anos, cego, mas ainda um mestre da capoeira 
    2 de maio de 1979

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    M Pastinha


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      Raymundo Mazzei
      Fotos de Raimundo Silva

      SALVADOR (O GLOBO) - Aos que pedem que defina capoeira, ele responde concisa e rapidamente como num golpe certeiro: "Capoeira é malícia, é mandinga de nego, é manha". Uma outra coisa, contudo, Vicente Ferreira Pastinha, ou, como toda a Bahia o conhece e chama, com respeito e afeto, Mestre Pastinha, poderia acrescentar ao seu acervo de definições da luta: Capoeira é a arte de renascer. Pois não pode ser encarado de outra forma o que aconteceu há poucos dias em Salvador: o legendário Mestre Pastinha, 90 anos de idade, cego dos dois olhos, conseguiu reabrir sua academia de capoeira, durante décadas a mais famosa da Bahia. Com isto, ele conseguiu vencer a primeira etapa de uma luta que vem sendo travada há oito anos [então desde 1971], quando, com o início da obras de restauração do conjunto arquitetônico do Pelourinho, perdeu o velho sótão onde funcionava sua academia.

      A partir desta época, já cego, Pastinha passou a viver do auxílio de uns poucos amigos e do trabalho diário de sua mulher, dona Alice [Maria Alice Romélia de Oliveira Costa], que, vendendo acarajés, passou a ser responsável pelo sustento da casa.

      Assim, foi vencida a primeira etapa. Mas isto não significa que a luta esteja terminada. Os jornais que antigamente enchiam páginas com as proezas do velho mestre e mesmo com o relato de exibições internacionais - "Pastinha já foi a África", sim senhor, "foi mostrar capoeira do Brasil" - fizeram pequenos registros da reabertura da academia.

      Pastinha credita esta pequena divulgação ao pequeno número de alunos que até o momento procurou o velho casarão do Pelourinho, para ouvir os ensinamentos do "mestre dos mestres" da capoeira. Sim, principalmente ouvir, porque mestre Pastinha, apesar de sua supreendente agilidade para um corpo de 90 anos de idade, só raramente ginga no velho taboado da academia.

      Os ensinamentos práticos são dados por seus discípulos - João Pequeno, João Grande e Ângelo [Romano] - que executam com rigor os golpes aprendidos com o mestre. Sentado no velho banco, ele comanda tudo e é capaz de perceber a mínima falha de um lutador só pelo som da sua queda no taboado.

      Sua capoeira, hoje - ele diz com riso manso - é principalmente a "capoeira da cabeça":

      Cabisbaixo e de olhos fechados, enquanto ouve sua mulher, dona Alice, falar sobre a nova academia de capoeira, mestre Pastinha dá a impressão inicial de que dorme sentado ou que, nos seus 90 anos, e sem enxergar, já não participa dos acontecimentos do mundo exterior.

      Acontece, porém, que a primeira impressão é enganadora. Tipo miúdo, caboclo, quase sem dentes, corpo gasto "pelas extravagâncias da vida", como ele mesmo diz, ainda assim mestre Pastinha gesticula e fala com firmeza, quando lhe perguntam a respeito do passado: "Muitos sofrimentos, mas, para compensar, também muitas alegrias."

      E o vigor que, para surpresa do interlocutor, revela ao falar, ainda se transmite às pernas, para maior espanto. Às terças, quintas e domingos, das quatro horas da tarde em diante, Pastinha percorre os cem metros que separam seu pequeno cômodo de moradia, na Rua Alfredo Brito, do casarão onde fica a nova academia, na Rua Gregório Matos, para, junto com os "formados" João Pequeno, João Grande e Ângelo, dar instruções aos novos discípulos. Não é sempre, mas mestre Pastinha diz ainda conseguir "gingar a dança-catimba" trazida por seus ancestrais africanos.

      Pastinha parecia fadado a morrer sem tornar a ter sua academia de capoeira angola reaberta.

      Mas alguém se interessou por isso e eu voltei - diz o mestre.

      A nova academia, aberta há poucos dias, fica na Rua Gregório de Matos 51, num casarão azul recém-restaurado pela Fundação do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia, cujo primeiro andar foi cedido por três anos ao capoeirista, com a condição de que ali funcionasse a academia.

      - Em todo coquetel que eu encontrava o diretor do Patrimônio eu falava, ficava pedindo a ele - conta Dona Alice - pra arranjar um lugar para a academia. É claro, a gente tem que pedir a quem pode mais, não é? Ele não prometia nada, mas dizia que quando tivesse alguma coisa comunicava. Este ano ele me chamou.

      Nomes ligados à vida cultural da Bahia também foram procurados por Pastinha e Dona Alice, que nunca perderam as esperanças de ver a academia reaberta, Jorge Amado e seu filho João Jorge, Mário Cravo, Carybé e Carlos Bastos foram alguns dos "padrinhos" da idéia.

      Em março deste ano, finalmente, a Fundação do Patrimônio, através de seu diretor, Mário Mendonça de Oliveira, assinou contrato com Mestre Pastinha, dando-lhe o direito de utilizar a sala da frente do velho casarão, uma área de 43 metros quadrados, com banheiros, no primeiro andar.

      Talvez pela pouca divulgação da reabertura da academia, até hoje não apareceram alunos na academia, isto é, alunos que se interessassem em pagar - para ajudar na sobrevivência de Pastinha - pelo curso que, em dois anos, forma o capoeirista.

      As aulas de terças, quintas e domingos só têm a freqüência de alunos gratuitos, mais uma exigência da Fundação, que beneficia rapazes matriculados em suas escolas profissionalizantes. A instrução é variada: os alunos aprendem, além da capoeira angola, a tocar instrumentos como berimbau, pandeiro, reco-reco, agogô e atabaque, que fazem parte da modalidade.

      Na academia, Mestre Pastinha e seus discípulos que hoje ensinam já recusaram vários candidatos ao curso, por acharem que são "marginais e querem saber os golpes para praticar violências":

      - Aqui comigo não tem isso, não - diz o mestre. Pra matar, fazer violência, não ensinamos.

      No entanto, é o mestre quem diz, "capoeira é para qualquer um, homem, mulher ou criança". Ele mesmo começou a aprender a arte com seis anos de idade:

      - Todo mundo é capoeirista de nascimento. Eu estou conversando agora com um capoeirista para outros capoeiristas ouvirem, e justificando a minha verdade.

      Mestre Pastinha define sem rodeios o que é capoeira, e destrói as teses dos que distinguem a capoeira angola da chamada "capoeira regional":

      A capoeira é toda uma só. Pegaram a capoeira que veio de Angola, trazida pelos escravos, e botaram uns golpes de "catch", uma luta americana. Mas capoeira é mandinga de negro mesmo. De Angola.

      Nascido livre, um ano depois de assinada a Lei Áurea, o menino Pastinha nem sequer imaginava que seu nome se tornaria legenda e que haveria pessoas interessadas, 90 anos depois, em publicar sua biografia - A história de uma vida cheia de altos e baixos como a própria cidade do Salvador, onde nasceu, na rua Laranjeiras, no dia 5 de abril. Dona Alice conta que já foram recusadas as propostas de três pessoas interessadas em escrever sobre a vida de Mestre Pastinha. Não se lembra os nomes, mas um veio de São Paulo, outro do Rio, "e o terceiro era italiano".

      Mas Mestre Pastinha finca o pé: não abre mão de que sua biografia seja escrita por Jorge Amado:

      - Eu faço questão que ele escreva. Já falei com ele sobre isso e ele me respondeu que está aguardando oportunidade, que está muito ocupado com outros escritos. Eu espero.

      Alguma coisa, porém, sua boa memória libera para antecipar o relato de Jorge. Capoeira, ele diz que aprendeu por necessidade.

      - Aprendi por rivalidade. Nos meus seis anos, na rua da Laranjeira, tinha um menino que sempre batia em mim. Era maior e mais velho. Um dia, eu estava sentado na janela de minha casa e um negro, Tio Benedito, me chamou: Meu "fio", você não pode brigar com esse menino, ele é mais malandro que você. No tempo que você ia empinar arraia, você venha no meu "cazuá" que eu lhe ensino a malícia.

      Pouco tempo depois, Tio Benedito o dava como "pronto". A partir dai, o menino Pastinha se tornaria imbatível, nas ruelas tortuosas, como um justiceiro e defensor de quem, como ele, não tinha defesa "contra os malfeitores". Com suas andanças, veio a fama e, com ela, as contradições: para uns, ele era como um deus, o salvador, para outros, "uma fera indomável", um problema para as autoridades policiais. Só houve uma pausa na agitação quando ele entrou na Marinha.

      Mas tudo recomeçava, logo após ter dado baixa. Continuava a lecionar capoeira e a "fazer justiça". Um dia, o "Diário de Notícias" abriu em manchete: "- Malta de capadócios faz arruaças chefiada por ex-marinheiro".

      Mesmo sendo comércio, para Pastinha, a capoeira nunca trouxe uma vida tranqüila, financeiramente. Publicações já saíram "aos montes" a seu respeito, e uma gravador já produziu um disco com o som de sua capoeira. A edição, plano que Dona Alice pretende levar avante logo que puder, "quando tiver dinheiro para pagar a passagem de ônibus para o Rio".

      Legenda da foto 1: Pastinha, mestre dos mestres: "Capoeira é malícia"

      Legenda da foto 2: Com um neto; o alheamento ao mundo exterior é apenas aparente


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