• Revista Placar
     SARAVÁ, MESTRE PASTINHA!
    28 de dezembro 1979

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    Revista Placar, 28 de dezembro 1979

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      SARAVÁ, MESTRE PASTINHA!

      o triste fim do rei da capoeira

      Mestre Pastinha é o introdutor da capoeira de Angola no Brasil. Já foi tão bom que acabou indo mostrar sua arte na Africa, berço da capoeira. Hoje ele está com 92 [90 - aqui e abaixo as correções por velhosmestres.com em colchetes] anos, cego e vive num quarto úmido do largo do Pelourinho, em Salvador, Bahia.

      Reportagem de Roque Mender / Fotos de H. Pereira

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      O colchão exalando mau-cheiro está atirado no chão. É a sua cama. No pequeno quarto, há ainda um guarda-roupa com as portas soltas, uma cadeira e um engradado de cerveja onde ele coloca o radinho de pilha.

      O velho se levanta com dificuldade e fala:

      «Sou um homem zangado, meu filho. Apanhei, apanhei como um cachorro e hoje nada me resta, a não ser a lembrança daqueles que sabem o que represento para a Bahia.»

      Dançando, o escravo evitava as chicotadas

      Esse senhor de 92 [90] anos foi o responsável pela introdução da capoeira de Angola na Bahia, a verdadeira, aquela que os escravos usavam como defesa contra as chicotadas dos seus senhores. É Vicente Ferreira Pastinha, o Mestre Pastinha – quase lenda. Mas vive, com a mulher, a filha e três netos menores, em duas peças úmidas, empoeiradas, teto e reboco caindo aqui e ali, teias de aranha por toda parte.

      Quem entra nessas duas peças, no casarão número 14 da rua Alfredo Brito, no Largo do Pelourinho, em Salvador, ouve histórias que mostram Mestre Pastinha como um gênio, da capoeira e da vida. Ele percorreu as principais cidades do Brasil, escreveu um livro, gravou um disco, foi mostrar sua arte até no berço da capoeira, a África. Mas sua mulher, Maria Romélia, precisa vender acarajés, para comprar comida para a família e pagar o aluguel.

      Até Jorge Amado foi aprender com ele

      É um orgulho da Bahia, uma atração turística. Por suas mãos passaram milhares de alunos. Até Jorge Amado e Caribé foram aprender com ele. Mas hoje Mestre Pastinha recebe 200 cruzeiros mensais de pensão. Sua única distração neste quarto mal-cheiroso é o radinho de pilha. Mestre Pastinha está cego.

      «Sou um homem zangado, meu filho. Digo isso a todos que aqui vêm me ver.»

      Cabelos brancos, raros sorrisos se desenhando em seus lábios, ele amarga os últimos dias de sua vida.

      Enquanto ele teve forças, foi uma vida de risos e aventuras.

      Pastinha já escreveu um livro e gravou um disco de capoeira. [NB! Na foto não tem M Pastinha, mas uma roda de M Gato Preto]

      Teve choros só até os oito anos: muito franzino, o negrinho Pastinha vivia apanhando dos outros moleques da rua do Tijolo, em Salvador.

      Mas, certo dia de 1894 [1899], um negro africano, Benedito, se penalizou ao presenciar uma dessas surras, chamou-o para dentro de sua casa e começou a lhe ensinar os segredos da capoeira. A luta era proibida – a polícia definia-a como coisa de malandro. Benedito lhe dava aulas às escondidas. Três anos depois, não havia moleque que se metesse com Pastinha.

      «A capoeira de Angola» é Mestre Pastinha quem explica, orgulhoso «parece uma dança graciosa, onde o lutador mostra toda sua malícia, ginga e flexibilidade. É jogada à base de pernadas, com poucos golpes de mão.»

      Rapazote, ele vivia solto pela cidade, tendo a capoeira como principal travessura. Dái que seu pai, um espanhol severo, decidiu alistá-lo na Marinha. E lá

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      foi Pastinha ser marujo. Quando saiu, aos 21 anos, tentou aprender outras lutas – como esgrima –, mas acabou tocando trompa numa orquestra. Tentou vender anúncios de jornais e acabou alfaiate. Até que um seu irmão, ao abrir uma casa de jogo, descobriu uma atividade de que Pastinha gostava – além, é claro, de dar pernadas. E Pastinha foi ser gerente da casa.

      Foi homenageado em música de Caetano. Hoje está cego e abandonado.

      «Quando fui tirar a licença, o delegado me reconheceu. Era o mesmo que corria atrás de mim pelas ruas. Me desejou felicidades na função.»

      A verdade, porém, é que ele jamais abandonaria a capoeira. Nas horas de folga, continuava treinar com Benedito. E, em 1935 [pelo que sabemos não ensinou entre 1922 e 1941], já conhecido como Mestre Pastinha, abriu sua primeira academia, na Rua do Bigode, perto do Pelourinho. Em 1941, passou para o número 19 [a mudança, na verdade, só ocorreu em 1955]. Ali, durante 32 anos [16 anos, 1955 - 1971], ensinou a gingar o corpo para evitar o golpe do adversário, a aplicar a bananeira, a meia-lua ou a simples rasteira.

      Mas, como o que vai também vem, o mestre começou a receber golpes. O primeiro: em 1966, com glaucoma e catarata, perdeu uma vista. A partir daí, foi perdendo o vigor para ensinar. Em 1973 [1971], outra rasteira: foi despejado.

      Maria Romélia amassa feijão para o acarajé e chora ao ouvir o marido contar esses lances. Pára e denuncia:

      «A Fundação Cultural do Estado da Bahia nos cedeu uma sala, para que o meu velho pudesse dar aulas. Mas não deu resultado, porque a Fundação obrigava ele a dar aulas de graça.»

      Capoeira é mandinga, é manha, é malícia

      Já completamente cego, Mestre Pastinha lamenta não poder fazer nada em sua nova academia, na rua Guedes de Brito [rua Gregório de Matos], dirigida por sua mulher e pelo aluno mais velho, Ângelo Romano.

      Maria Romélia conta que está tentando fazer uma segunda edição do livro de Mestre Pastinha sobre capoeira e relançar um disco do marido, que vendeu muito e não lhes rendeu nada.

      «Por tudo isso, eu não consigo entender como podem deixar um homem como ele assim, abandonado, sem nem uma casa para morar decentemente.»

      Fui inocente, não me deixaram nada

      Apesar de tudo, anualmente milhares de turistas sobem a ladeira do Pelourinho e invadem o casarão para conhecer uma das glórias da Bahia, o maior capoeirista que o Brasil teve.

      Mestre Pastinha ouve o barulho da máquina do fotógrafo e, vaidoso, veste um roupão que o acompanha há 80 anos. Nesse roupão, que foi exposto até na África, há cenas de capoeira desenhadas pelo própro Pastinha. Orgulhoso, ele conta sua arte:

      «Capoeira é mandinga, é manha, é malícia, meu filho. E não é pra qualquer um. Com essa história de turismo, liberaram as academias pra contratar mestres, e isso é ruim. Como é que o sujeito pode ensinar se não tem nome nem diploma?»

      Cala. Fica longo tempo assim. Depois desabafa:

      «Sou um homem zangado, meu filho. Não sou contra aqueles que se aproveitaram da minha inocência. Mas é que não deixaram nada para mim.»


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