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     O TRISTE ANIVERSÁRIO DE PASTINHA
    24 de abril 1978

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    M Pastinha, 1978

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      O triste aniversário de Pastinha
      24 de abril 1978
      Movimento

      Bené Simões

      Cego, parcialmente surdo e muito doente, Pastinha, um dos maiores mestres da capoeira, completou 89 anos na miséria e sem dinheiro nem para comprar remédios

      "Capoeira eu aprendi
      veio do meu mundo bem distante
      o povo gosta dela e eu não esqueci
      é bom exemplo dos brasileiros para outro horizonte
      A capoeira rasga o veio dos algozes
      na convicção da fé contra a escravidão
      doce voz, teus filhos foram heróis
      a capoeira ama da abolição

      (canto de capoeira de Pastinha)

      No Terreiro de Jesus, no centro de Salvador, o toque do berimbau e a agilidade dos homens que dançam e lutam atraem uma multidão de passantes e turistas às rodas de capoeira. Enquanto isso, a poucos metros do Terreiro de Jesus, na rua Alfredo de Brito 14, Pelourinho, longe da glória efémera dos capoeiristas, pobre, esquecido e solicitário está um dos principais responsáveis pela sobrevivência e ascensão da capoeira: o mestre Vicente Ferreira "Pastinha".

      Embora alguns pretendam reduzir a capoeira - hoje livremente praticada nas praças, academias e ginásios - a condição de simples manifestação folclórica, na verdade a dança-luta nasceu das necessidades dos negros africanos trazidos como escravos para o Brasil: a luta contra a repressão do senhor de engenho; a falta de armas; a manutenção de um espírito comunitário e a ligação com as raízes. Na Bahia, apesar das divergências de estilo, Pastinha e Bimba - outro mestre famoso - foram os principais responsáveis pelos novo "status" da capoeira, antes considerada uma coisa de "negros e marginais". Pastinha, principalmente, sempre fez questão de conservar a pureza da capoeira original, de Angola; enquanto Bimba introduziu várias modificações e incorporou elementos de lutas orientais, criando a "capoeira regional".

      Glória e miséria

      O número 14 da rua Alfredo de Brito, no Pelourinho (considerado o mais importante conjunto arquitetónico do periodo colonial), é um dos velhos sobrados decadentes da area, cujos quartos são alugados a pessoas de diferentes origens e uma coisa em comum: marginalidade e miséria. "E aqui que mora o Mestre Pastinha?" A resposta demora a vir: "É ali, olhe ele lá". O corredor escuro e comprido não permite ver direito. Outra pergunta e a mesma resposta, já impaciente. A princípio não dá pra ver nada onde a mão aponta, apenas um velho encolhido, deitado num pequeno banco de madeira. "É esse aí mesmo".

      "Mestre Pastinha?" O velho levanta tateando lentamente até sentar-se no banco. "Mestre Pastinha? O senhor é o Mestre Pastinha?" "Sim" A resposta vem fraca, sem força. Depois das explicações, o Mestre, muito polidamente, diz que não pode dar entrevistas, que não quer reportagem. E explica:

      Já veio muita gente aqui, titulado de repórter, fazer reportagem pra jornal. Depois sai uma porção de coisas que eu não disse que termina me prejudicando. Eu digo uma coisinha (faz um gesto com a mão) e sai um montão de coisas.

      Amargurado, cego há 14 anos, com perda parcial da audição, o Mestre Pastinha vive hoje de uma pequena pensão concedida pela Prefeitura de Salvador e de ajuda de alguns amigos. Mas essa ajuda, mesmo de amigos famosos e bem sucedidos - artistas plásticos, escritores, políticos, entre eles Jorge Amado, não chega para dar ao velho mestre melhores condições de vida. Pelo menos mais dignas de quem deu tanto de si, como todos são unánimes em reconhecer.

      É por tudo isso, meu filho, que não posso dar entrevista. Mas você vai ai embaixo, no número 18, e procura minha mulher, Maria Romero [Romélia]. Depois que fiquei cego é ela que cuida dessas coisas e se ela conversar com você e disser que pode, eu dou a entrevista.

      Nos jardins do Hotel do Senac, também no Pelourinho, dona Maria Romero vende acarajé, abará e outros quitutes da cozinha baiana. "Pois é, depois de 17 anos como encadernadora, sou baiana de acarajé para não morrer de fome". Ela repete as mesmas coisas do mestre e fala das mágoas com os jornais que "distorceram" as palavras de Pastinha. Por isso, seguindo o conselho de alguns amigos, é que ela não deixa Pastinha dar entrevista.

      Da Academia, só resta um banco

      A academia de capoeira do Mestre Pastinha teve seus dias de glória em épocas já remotas. Situada no Largo do Pelourinho, pela academia passaram várias gerações, mas hoje o prédio abriga o restaurante Sesc/-Senac e foi totalmente remodelado dentro de um plano de recuperação do conjunto arquitetónico da área. Pastinha foi despojado de tudo que havia criado; da academia só restou o pequeno banco de madeira em que passa as tardes deitado. Ao contrário de outros moradores dos prédios tombados pelo Instituto do Património Artístico e Histórico (IPAHN), Pastinha não recebeu nenhuma indenização ou outro local para continuar as atividades da academia, o que lhe daria para assegurar uma velhice mais tranquila.

      A quem creditar a injustiça praticada contra o velho Mestre? A muitos, certamente. Pastinha foi bastante usado pela indústria turística que dava seus primeiros passos, na Bahia, em 1966, ano em que ele foi ao primeiro Festival de Artes Negras, em Dakar, na África, como convidado do Ministério das Relações Exteriores. A fama do Pelourinho, o atrativo que ele representava para os turistas e o incremento da renda gerada por atividades turísticas deve a Pastinha uma importante contribuição - ele viajou por todo o Brasil, divulgando a Bahia como meca turística - e da qual ele não usufrui.

      Até hoje, porém, o mestre espera uma casa prometida pelo governo do Estado em reconhecimento ao seu trabalho. Dorival Caymi, que obviamente possui muito mais recursos que Pastinha, foi agraciado pelo governo com uma casa no Rio Vermelho. Ajudar Caymi certamente dá mais dividendos políticos que uma ajuda a Pastinha, cego e impossibilitado de atuar devido a velhice.

      O desabafo de Pastinha

      - Então, o que foi que ela disse? - pergunta Pastinha. "Ela explicou as mesmas coisas que o senhor, os enganos e explorações que sofreram". Como era previsível, poucos minutos depois chega dona Maria. Desconfiada, mas estimulada pela presença do velho amigo Noronha, que acaba de chegar. Pastinha começa a desabafar, bate com força no banco de madeira - o único bem que restou da academia - e diz emocionado: "Ah! Se esse banco pudesse falar". Sincero e sensível, Pastinha trai na voz a emoção e a impotência de não poder reagir e lutar, como antes. Sua sobrevivência depende de outras pessoas. Ele continua repetindo a frase, enquanto bate com força no banco: "Ah! Se esse banco pudesse falar". Dos olhos que já não enxergam, as lágrimas escorrem.

      Aos 89 anos de idade, completados no último dia 5, Pastinha conserva uma lucidez impressionante e reafirma sua autoridade para falar sobre a capoeira: "Eu não fui apenas um capoeirista não. Estudei e muito, posso falar muitas horas sobre isso, tudo, é muita coisa mesmo". De fato, em 1964 ele publicou um pequeno livro, intitulado "Capoeira de Angola", onde falava e especulava sobre as origens da capoeira, cantos, vestes. A experiência e a sabedoria do mestre foi muitas vezes usurpada por pessoas que utilizaram-se do pretexto de "entrevista" para colher idéias e depois veiculá-las como sendo originais, sem citar a fonte original. A fama, e o reconhecimento não interessam mais: Pastinha já foi filmado e objeto de reportagens em todo o mundo. Em 1976, a televisão italiana fez um extenso documentário sobre ele. O que interessa hoje a Pastinha é assegurar a sua sobrevivência.

      Pastinha está cansado, uma tosse constante interrompe a sua fala e o seu desabafo. É quando fica patente a situação de penúria do velho mestre. Revoltada, dona Maria Romero abre o pequeno quarto em que moram e pega uma lata de ameixas, que é o remédio para aliviar a tosse de Pastinha, e diz:

      Só que, infelizmente, nem sempre o dinheiro dá pra comprar as ameixas.


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