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     PASTINHA: BOM OU MAU CAPOEIRISTA?
    11 de abril, 1976

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    Mestre Pastinha, 1976

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      „PASTINHA: BOM OU MAU CAPOEIRISTA?“
      11 de abril 1976
      O Globo

      Seus alunos não têm a menor dúvida quando falam do mestre:

      - Ele é o melhor capoeirista do Brasil. Depois que Bimba morreu, só restou ele daquela geração de "angoleiros" de briga: Bigode de Seda, Bugalho, Américo Ciência, Bezouro, Tibiriçá, Amorzinho, Três Pedaços, Doze Homens, Inimigos Sem Tripa, Zé do U, Sete Mortes, Chico Me Dá, Júlia Fogareira e Maria Homem.

      O etnólogo Waldeloir Rego, 44 anos, autor de "Capoeira Angola" - considerado um dos estudos mais sérios sobre a capoeira no Brasil - tem convicções igualmente firmes, quando, irónico, afirma:

      - Ele é um capoeirista igual a qualquer outro, com uma diferença: é um verdadeiro principe da capoeira. Ganhou a única pensão paga pelo Governo a um capoeirista, três salários mínimos por mês.

      Quando ele estava em forma tinha muitos alunos e era muito respeitado na capoeira. Jorge Amado, em "Bahia de Todos os Santos", escreveu:

      "É um mulato pequeno, de assombrosa agilidade, de resistência incomum. Quando ele começa a "brincar", a impressão dos assistentes é que aquele pobre velho, de carapinha branca, cairá em dois minutos, derrubado pelo jovem adversário ou bem pela falta de fôlego. Mas, ah! ledo e cego engano! nada disso se passa. Os adversários sucedem-se, um jovem, mais outro jovem, discípulos ou colegas de Pastinha, ele vence a todos e jamais se cansa, jamais perde o fôlego, nem mesmo quando dança o samba de Angola."

      A contradição nas posições revela o homem: Vicente Ferreira Pastinha, 87 anos, ex-funcionário civil da Marinha de Guerra, ex-pintor de paredes, ex-bicheiro, ex-desordeiro, ex-leão-de-chácara de casas de jogo, ex-vendedor ambulante e ex-capoeirista mais famoso da Bahia. Ele é o último capoeirista de Angola do Brasil, conhecido em todo o País. Não tem sucessores nem alunos: há três anos perdeu sua famosa academia, o Centro Esportivo de Angola, em conseqüência das obras do Pelourinho. Cego, sem forças e com poucos amigos, sobrevive perseguindo o sonho de ganhar uma nova academia, de voltar a ensinar e "recuperar meu prestígio", num quarto abafado, sujo e infestado de ratos e pulgas, num casarão colonial do largo do Pelourinho.

      Até mesmo os turistas que o procuram o mestre Pastinha não esconde o seu sonho. Mas não fala de sua miséria:

      - Eu nasci predestinado a uma missão: lutar capoeira. Venci centenas de adversários, formei mais de 10 mil alunos. Pela minha academia passou do coronel ao operário, do soldado ao político, do escritor ao servente, do médico ao menino doente que precisava de exercícios para desenvolver as juntas. E eu ainda estou aqui pela vontade de Deus. Ele, sei, não vai me deixar viver assim para sempre. Ainda posso lutar.

      VICENTE FERREIRA PASTINHA, ou simplesmente Pastinha, como é chamado nas rodas de capoeira, nasceu a 5 de abril de 1889, em Salvador. Não é nem nunca foi o melhor capoeirista da Bahia: apenas sua idade bastante avançada e o seu extremo devotamento à capoeira fizeram com que até pouco tempo atrás ainda praticasse o jogo, mas sem algo de extraordinário. Jogava como um outro bom capoeirista qualquer, só que na sua idade isso significava algo fora do comum. Foi por isso que ficou conhecido, famoso mesmo, principalmente depois do advento da instituição oficial do turismo na Bahia" (Do livro "Capoeira Angola").

      O pessoal do Pelourinho - onde toda a gente sabe indicar o quarto do prédio número 14 em que mora o mestre, bem ao lado de um hotel de luxo e próximo ao prédio transformado num luxuoso restaurante de categoria internacional - não esconde suas preocupações:

      - O mestre foi vítima do destino. Vai morrer pobre, doente, mas famoso.

      Os turistas, que não se conformam de ver Pastinha "assim tão abandonado", recorrem à lenda que o seu nome criou para melhor entenderem o que sentem ou imaginam sentir.

      - Ouço dizer que ele é o maior capoeirista do Brasil, em todos os tempos - diz um turista.

      Um dos mais antigos companheiros do mestre Pastinha, Eliviano Diogo Sacramento, de 78 anos, não se contém:

      - Jamais se escreverá a história da capoeira no Brasil sem antes consultar Pastinha. Ele é a maior autoridade viva no assunto. Esse bando de rapazes que vivem por aí jogando capoeira não passa de um mundo de enganadores, que falsificam a capoeira: a capoeira de verdade é a Angola e quem sabe capoeira de Angola é Pastinha.

      Intelectuais que gostam dele falam com entuasiasmado de seu estilo: Jorge Amado no livro "Bahia de Todos os Santos" diz que Pastinha é "o melhor e o mais perfeito lutador de capoeira Angola da Bahia".

      - Jorge Amado, certa vez, disse que fui injusto com Pastinha em minha obra "Capoeira Angola", mas que podia fazer? Pastinha é realmente um capoeirista comum e jamais pode ser comparado com "Besouro", por exemplo. "Besouro", sim, foi um homem excepcional - afirma Waldeloir Rego.

      E vai mais adiante: diz que entre os alunos de Pastinha há capoeiristas melhores do que o mestre nos seus bons tempos. Um exemplo: seu "contramestre" (instrutor) João Grande.

      Os capoeiristas da luta regional - criada por Bimba, que morreu em Goiânia depois de deixar a Bahia "por falta de incentivos" - dizem que Pastinha "não é de nada", que "só sabe dançar". Os capoeiristas de Angola replicam: "Bimba é que foi um subversivo da arte, ele fez tudo para descaracterizá-la. O pessoal da regional só sabe falar, mas não é de nada".

      Maria Romélia, a mulher do mestre, não está preocupada com nada disso:

      - Vocês vêm aqui todos os dias filmar a miséria de Pastinha, escrever, tomar nota para reportagens, livros, mas ninguém se lembra de fazer uma lista, de tirar dinheiro e dar para ele refazer a academia. A televisão bem que poderia fazer um trabalho bom e ajudar o velho. De que adianta discutir se ele é ou não um grande capoeirista? O que importa é a contribuição que Pastinha deu à Bahia, a imagem que ele ajudou a criar. E só.

      Uma coisa é certa: indiferença é o único sentimento que o mestre Pastinha não desperta. E sempre foi, assim.

      - Eu sou como a aranha que tece sua teia para viver. Não tenho nada contra ninguém.

      E ri como se estivesse lembrando de alguma coisa engraçada. Nada disso, só quer falar contra a transformação da capoeira em esporte, o afastamento das suas raízes. E começa a falar do "jogo da zebra", uma festa que era organizada em Angola, há muitos séculos, em homenagem às virgens. Antes, elas eram "operadas" pelos sacerdotes para que ficassem iguais às mulheres casadas. Depois, escolhidas pelos vencedores de uma violenta luta - que seria a origem da capoeira - travada entre os homens, com muitos pontapés e cabeçadas.

      - Não sei se é verdade ou lenda. Mas posso garantir: os capoeiristas de hoje gostariam muito do "jogo da zebra", embora nem de longe se pareçam com os de antigamente. Ah! Bons tempos se foram...

      Pastinha não gosta de falar do passado. - Não porque me sinta triste, vendo minhas mãos trêmulas e as pernas um pouco fracas, que não são mais capazes de riscar o ar com agilidade suficiente para derrubar adversários. Mas pelo temor de que usem minhas memórias para publicação de algum livro e eu não ganhe coisa alguma.

      - Minhas memórias eu só daria de graça a dois ex-alunos e grandes amigos meus. Duas pessoas que eu amo: Jorge Amado e Wilson Lins, ninguém mais. Jorge Amado nunca deixou de me ajudar, nem nos tempos que eu era valentão. O pai dele sempre me deu uma ajuda. E Wilson Lins, quando foi deputado, também não me esqueceu. Até hoje me dá apoio.

      Foi Jorge Amado quem interferiu diretamente junto ao ex-prefeito Cleriston Andrade para que no ano passado Pastinha passasse a ganhar uma pensão oficial.

      O passado do mestre como capoeirista começou há 71 anos, quando na Rua das Laranjeiras aprendeu a lutar no "canzua" do mestre Benedito para enfentar um preto forte, de mãos grossas, que vivia a ameaça-lo.

      - Foi uma luta rapida. Ele barrou meu caminho e ainda me lembro que sua mãe ficou ironizado a minha coragem. Dei duas pernadas e um rabo-de-arraia. A luta acabou aí, o preto forte nunca mais quis brigar comigo. Até ficou meu amigo. Há também uma outra versão da luta: derrotado, o preto forte deixou de freqüentar o Pelourinho e nunca mais cruzou na frente do mestre.

      "Angola, capoeira mãe. Mandinga do escravo em ánsia de liberdade; seu princípio não tem metodo; seu fim é inconcebível ao mais sábio capoeirista" (inscrição da outrora famosa academia de Pastinha que ele guarda no quarto abalado e sujo onde vive, no Pelourinho).


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