• Jornal Ex-13
     O MAGO PASTINHA
    agosto 1975

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    O Mago Pastinha, 1975

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      O MAGO PASTINHA

      Cego, Aos 86 Anos, o Mestre Nos Dá Tudo o Que Tem: Sua História. Depoimento a Gustavo Falcón * Fotos: Agliberto Correia (BEL)

      Pastinha não fala nossa linguagem nem sequer pensa como nós. Ele tem sua filosofia.

      Achei que não devia relacionar essa transformação em que está mergulhada a Bahia, transformação econômica-ecológica-sociológica acentuada por nosso subdesenvolvimento, com a figura do Mestre. O que pensei fazer como repórter, aluno de um discípulo do Mestre como pessoa humana, foi recolher os fragmentos de um depoimento que seria difícil de conseguir. Mas tinha certeza de poder chegar lá. E como um "entendido" da capoeira, como pessoa e como jornalista, fiquei encantado com o que o Mestre falou.

      Bom, irmão, a capoeira do Pastinha, que está cego, encurvado pelo tempo, é mais a capoeira mental hoje, do que a antiga, de agilidade total do corpo e da mente. A história dos últimos 86 anos que viveu, passa por sua ótica, muito pessoal, documental, diria. Talvez a gente esteja querendo contar a história de um tempo que já se perdeu na poeira. Mas Pastinha não me deve explicações, você entende? Ele está falando de todo um tempo, de tudo que passa, que se passa, em sua frente. O que passou também.

      Há alguns anos os repórteres baianos costumam aporrinhar Pastinha. Coisas como: "E a promessa da Prefeitura em lhe dar uma pensão de três salários-mínimos? Não se cumpriu?"... Mestre Pastinha ainda sem pensão, notícia, compaixão dos leitores, grana pro patrão dono do jornal! Barra muito pior para um mulato que introduziu uma luta muito pouco bem vista na sociedade branca baiana, vivendo sua solidão de velho na miséria, miséria mesmo, sem frescura minhas: péssima morada, comida idem, sem direito ao mínimo de reforma do conjunto arquitetônico do famoso Pelourinho exigiram como trunfo a Academia do Mestre, antigo ponto turístico. Roubaram-lhe os instrumentos, tudo.

      Na falta de prato melhor, o drama do Mestre Pastinha passou à imprensa, como notícia mais corriqueira, assunto predileto de todos os jornalistas "inspirados" e opositores de "um progresso desumano". Algumas matérias desses jornalistas colocaram o Mestre em oposição ao Prefeito, ao Governador, etc, etc. Porque o Mestre fala mesmo. Prometeu, tem que dar. Ele ainda conserva toda a formação moral do baiano de alguns anos, tradicionalista, rígido nos compromissos. Quer dizer, tudo mudou e ele ficou aí, por assim dizer.

      Resultado: as autoridades que prometiam, se vingaram amarrando as pensões prometidas, não devolvendo a Academia do Mestre, enfim reagindo como era dé se esperar.

      Como critério, coloquei em minha cuca o seguinte: vou conversar humanamente com o Mestre e disso vai sair alguma coisa. Acho que saiu, irmão. Não sei se exatamente para o Ex. Só magia. Um presente pra vocês. Béu, meu irmão, ogan de candomblé, achou muito bonito o presente, com sua modéstia e autoridade. Foi o suficiente.

      Logo depois da revolução de 30, graças ao Chefe de Polícia do Interventor Juracy Magalhães Júnior, cessou a perseguição aos terreiros de candomblé na Bania. Nosso sistema é um absurdo! O Chefe de Polícia, simpatizante do candomblé, aconselhou os pais-de-santo a registrar os terreiros como centros recreativos, alguma coisa assim. O registro no Diário Oficial foi suficiente para acabar a perseguição policial aos cultos dos negros, a essa altura entupidos de brancos, mulatos, amarelos e vermelhos.

      Isso aconteceu há mais de 35 anos. Cessou a opressão religiosa e surgiu a absorção do sistema. Tão violenta, que se existirem hoje 2 terreiros respeitáveis na Bahia, é muito! 35 anos foram suficientes para arrancar toda a força moral de uma religião oprimida antes. Os pais-de-santo nascido depois da perseguição montaram agências no Rio, encheram os bolsos de dólar, assumiram a civilização branca no que ela tem de pior: pelo lado do dinheiro.

      O processo de desmoralização do candomblé foi a resposta que o sistema como um todo (religião oficial + preconceitos racistas + interesses empresariais do turismo, etc), encontrou para impor sua cultura, que alguns chamam de "cultura brasileira", como se isso existisse.

      Não muito longe da década de 30, um marujo baiano, brigão, "arruaceiro", mulato, filho de espanhol dono de armazém com preta velha, sapateira, aconselhado por Wilson Lins (escritor e político) e talvez também por Jorge Amado, registrou sua academia de capoeira como um desses centros esportivos permitidos por lei. Foi o suficiente para a política [polícia] deixar de perseguir, pelo menos ostensivamente, os capoeiristas.

      Registro na mão, Mestre Pastinha, o marujo de que falei, passou a lecionar capoeira no Pelourinho. Milhares de pessoas passaram por sua academia no Largo do Pelourinho, onde hoje funciona o Hotel Senac, de luxo. Turistas incontáveis, de todo tipo. E seus alunos, discípulos, perpetuadores da dança que aí já se tornou menos violenta, cheia de cânticos na roda, animada por berimbaus.

      A capoeira, agora, não possuía mais qualquer relação original com a clareira do mato onde os negros se refugiavam para lutar, para fugir da escravidão e praticar a luta. Apareceram outros mestres e estilizações. Pastinha ficou, contudo, fiel à angola, capoeira tida como autêntica. Na academia não se ensinava tudo. E a malícia da luta ficou guardada para as brigas de rua, geralmente com policiais, em festas de largo. Tudo foi conquistado no pau, com luta, até a própria academia do Mestre Pastinha.

      1975: o velho Mestre cego, com sua academia tomada pelos homens do turismo, do sistema, instrumentos perdidos, alunos dispersos e o orgulho atravessado na garganta, mas que não o impede de falar, discorrer como quem conta história para crianças, ferido e magoado por um mundo onde "tudo é comércio".

      Com Pastinha um depoimento não pode ser de mentiras.

      Depois de uma tarde inteira de conversa, primeiro desconfiada, depois transformada num papo amigável, sem pauta, sem previsões, louco, eu tive a oportunidade de conhecer a quinta mulher da vida do Mestre Pastinha. A primeira coisa que ela fez foi me deitar um olhar curioso dizendo: "Tá gravando? Ah, isso não! Isso custa dinheiro. O senhor está se aproveitando da cegueira do velho..."

      Eu lhe expliquei que tinha autorização do Mestre (achei estranho ela o chamar de "velho" pejorativamente, acentuando sua cegueira); que havia dito a ele quem era; que lhe expliquei que tipo de jornal era o Ex. Tenso, o Mestre Pastinha confirmou tudo que disse. Não desliguei o gravador. A mulher olhando firme para mim voltou a falar de dinheiro. Falou da miséria de Pastinha, das dores de cabeça que os repórteres têm lhe arranjado falando contra o governador, etc. Expliquei que não tinha dinheiro e que nao costumo "subornar" minhas fontes para não ocorrer o mesmo comigo.

      Disse meu nome, tentei acalmá-la, mas nada. Finalmente, pediu para ouvira fita a fim de censurar o que Pastinha havia dito. Há pouco o Mestre havia contado como lhe tomaram a academia. Havia dito que não perdoaram nem os bancos, instrumentos, berimbaus, atabaques, pandeiros e tudo o mais. A promessa da volta ao local, ponto das caravanas turísticas até uns 3 anos atrás, foi esquecida.

      Tive que voltar o gravador. Passei a fita a pedido do Mestre. Num trecho onde uma autoridade era citada, a mulher virou fera, censurou, gritou, e conseguiu provocar Pastinha. Se ele não estivesse cego, eu senti, teria tomado a maior surra da minha vida. Ficou furioso, levantou cambaleando e seu dedo indicador roçou o meu rosto. Disse que não queria ver aquilo publicado. Falou do mal contra o mal, e eu lhe prometi que não faria sensacionalismo com, afinal, um fato tão explorado pela imprensa baiana.

      Ele confiou em mim. Eu lhe dei a fita de presente, disse-lhe que estava interessado em seu depoimento e não em notícia sensacionalistá. Ele foi solidário. Sua mulher nem sequer soube que existia uma primeira fita, muito mais interessante, longe dos interesses da barriga e do comércio. Com a palavra, Mestre Pastinha:

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      A capoeira tem muitas coisas. Primeira parte: a capoeira tem -seu dicionário, segunda parte, tem seu dicionário, terceira parte, tem seu dicionário e quarta parte, tem seu dicionário. Quer dizer que a capoeira... Vocês não sabem, a capoeira tem muita coisa. Eu vou contando isso a você, quando eles vão escrever, escreve aquilo como quem diz: eu ja sabia! Isso é meu, sou eu que tô dizendo. Falar a verdade na vista de quem sabe pensar, quem tenhà pensamento, saber mais ou menos que uma coisa se combina com uma outra, diz é isto mesmo, está certo. Não deixa vestígio, tá bom?

      O que é capoeira? É folclore? Então? Vamos dizer que a capoeira tem o seu lendário, tem sua formação, a capoeira é justo que se diga.

      Não vá dizer que a capoeira é o que ela não é, nem vá contar o que não viu ninguém falar, então não vá contar aquilo que não pode contar. Não é todo mundo que vá abrir a boca e dizer "eu conheço a capoeira, a capoeira é isso". Nem todos mentais, nem todos sujeitos pode abrir a boca pra contar o que é a capoeira não, porque ela destaca-se. Aquele que aprendeu sabe, ela mesmo defende o sujeito por conta própria, tá bom?

      Dizer: eu sei jogar, eu aprendi jogar porque ela é do mental, tenho em mim mesmo, eu posso fazer isso e acontecer... A capoeira dá, nega e tira. Dá, nega e tira. O capoeirista taqui, alegre. Na hora que o sujeito vem falar com ele toma um sopapo sem saber como.

      Eu vou lhe dizer a você positivamente: tem. Você perguntou uma parte. Eu vou lhe dizer a parte que você perguntou. Ê o seguinte: se tem ali um capoeirista brigando, pode ser com outro capoeirista ou não. Tá bom? Pode ser também um aprendiz, pode ser um professor, né? Ninguém sabe. Sabe que ele é capoeirista.

      Então você pergunta: ele tem capacidade de se manifestar na vida do camarada ou o outro camarada é mais perfeito que ele, mais lutador do que ele, ele pode se salvar? Quem pode se salvar aí? Tem quem salve ele de unha do outro? Porque o outro pode não ser capoeirista mas é um bom lutador. Ele, sabe, é menos experiente na luta. Ele pode ser salvo? Pode. Tá bom? Eu respondi pode. Ele pode ser salvo. Se tiver com os orixás... Com os anjos da guarda dele, né? Que esteja com o protetor dele, então defendese. Aí é que se diz,é onde se diz: a capoeira é parcela do candomblé. Capoeira é parcela do candomblé. Agora o que é parcela do candomblé? Tem tanto nome pra significar...

      "Todos Podem Aprender. De General a Doutor."

      A capoeira é um dos professores particular! E a particularidade é normá. O senhor me destaca esse nome aí? Aí você vai tirando as conclusões...

      Eéééééééééé: como vem pesado... Olhe, quando passou essa formalidade de capoeirista aqui, a capoeira era proibida, tá vendo? A capoeira era proibida, os doutores que você citou que aprendiam capoeira, foram doutores que aprenderam a jogar capoeira naquela época atrasada que a capoeira era proibida.

      Mas os doutores, alguns deles, precisava aprender capoeira, gostava de capoeira, aprendia a jogar capoeira por debaixo do pano, ja compreendeu? Por debaixo do pano. A capoeira sempre, em toda a vida, a capoeira foi proibida. E como a gente podia aprender a jogar capoeira? Jogava aqui, jogava ali, coisa e tal, aprendia às escondidas, e aprendia na vista também do público, aprendia e aí pronto, a polícia vinha, desbaratava tudo.

      Quando ocorreu aqui a época de Floriano Peixoto (1892-96), ne? Então eles fizeram uma capotagem com os capoeiristas. A polícia rigorosamente reprimiu, tá bom? Foi andar, daqui ,pra ali, foi pra guerra do Paraguai, tá? Jogaram uns capoeirista lá, do lado da fronteira pra ser comido na bala. Tá bom? O plano deles...

      Os capoeiristas foram. Chegaram lá ficaram tomando conta da fronteira. O pau comeu, os capoeiristas vortaram e eles viram capoeirista manifestando de todo lado, contente e satisfeito. Recebeu aquela represália do capoeirista praticamente, deliciadamente, suave, com ânimo mas cada qual com seu desenho nos lábios, compreendeu?

      Aí foi indo, foi indo, foi indo, ficou encostando aí, mas capoeirista, toda vez que tinha festa no lugar capoeirista já estava: era capoeirista de fraque, casaca, cartola, chapéu de pelo, boa roupa, tá bom? Anel, relógio, a coisa formalizada mesmo, capoeirista decente mesmo, não era só capoeirista nojento não, viu? Era capoeirista decente. Então nessa ocasião ficou aquilo assim ó, sapateando, normá.

      "Ela é o Pai e a Mãe De Todas As Lutas No Brasil."

      Que é que se pode fazer com esses home? Vai desbaratar esses homens todo? Não precisava: a gente escurraça eles devagarzinho e tal, mas deixa eles por debaixo do pano, fecha os olhos a um e a outro porque (mudando a voz) tem branco também no meio, tá bom? Branco também tá no meio... Eles são governador, são os brancos, tão fazendo a represália contra os pretos, né? Mas tem branco também que gosta dos pretos, tá bom? Tem por qualquer interesse: ou por interesse do trabalho, ou por interesse da capoeira, né? Gosta dos capoeiristas. E outros também que protegiam capoeiristas, não é? Capoeirista brigava, quando chegava lá solta o rapaz aqui que é meu. Nera somente a patronagem não. Era pela camaradagem, pela amizade própria que saía da cadeia. Eu tô lhe dando isso assim, tô lhe dando num detalhe, diferente. Quer dizer que eu tô botando o negócio no jeito pra você entender.

      Antigamente se julgava que a capoeira é somente pra nós. Mas hoje a capoeira, eu, eu, Vicente Ferreira Pastinha, digo aqui, a você, dou esta gravação, pra você mostrar a eles o que é a capoeira: é parcela popular, é ao povo, por que é do povo? Porque todos nasceram com a capoeira no juízo. Todos ajuizados pela capoeira.

      A capoeira é pai e mãe de todas as lutas. Eu, Vicente Ferreira Pastinha que tá dizendo esta palavra. Eles queira aceitar por verdadeira ou não verdadeira, mas contanto que é pai e mãe de todas as lutas, tá bom?

      No Brasil, qual foi a primeira luta que entrou no Brasil? No Brasil já tinha luta, já se lutava, tá ouvindo? No Brasil já se lutava. Agora quem? Se não tinha ninguém para lutar no Brasil. O povo? Os índios? Os índios lutava, eles tinham seu sistema de luta.

      Não é? A primeira luta que veio ao Brasil veio de lá da África. Os africanos não trouxeram capoeira praqui não. Eles vieram de corpo e alma praqui. Pra defender, pra trabalhar, ganhar seu dinheiro e mandar Pesquisar a mulher na África, trazer a mulher.

      Ou lá ficava, lá se ia. Tá bom? Agora, eu não vou dizer tudo, a graça da capoeira, que eu não quero superar, eu não quero superar. Senão eu ainda dizia e você ainda ficava com mais detalhes, suprema é a capoeira porque tem. Mas se eles mesmo tão agravando com a usura: jogar capoeira com 2 meses querer ser mestre, querer ser professor, tá bom?

      Olhe: eu comecei a jogar, com 8 anos aprendi capoeira, com 8 anos.

      Vamos dizer com 8 anos, com 9 anos eu passei a ser capoerista. Aprendi com um mestre, Benedito, baiano não, africano. Com ele ia daqui prali (morava nessa época na Rua da Laranjeira). Bom, então eu fui pra Marinha, em 1902. Lá fiquei coisa e tal e em 1910 eu saltei e pedi baixa, tá bom? Levei 8 anos na Marinha. Em 1910 peguei Raimundo Aberrei. Foi o primeiro aluno que eu peguei aí quando eu dei baixa. Raimundo, Zeca, João Fortunato, João Moleque, tudo isso, Virício. Fiz um bocado deles. Eu ensinava a eles na rua de Santa Isabel.

      "Eu, Pastinha, Enfiei a Capoeira Na Sociedade."

      Os aluno todo era trabalhador, operários. Bom. Botei aí. Daí pra daí fui indo, fui indo, peguei a lecionar aqui, tinha uma, duas, 3, 4 repúblicas de estudantes, aqui no largo do Cruzeiro. Homens que vinham pra Salvador se formar pela faculdade da Bahia, tá bom? Estudante de médico, todas corporação. Minha academia já era no cruzeiro do São Francisco, na rua, no meio do Terreiro. Isso em 1910, 12, 13, tá bom? Depois passei a ser funcionário da Santa Casa de Misericórdia. Fiquei trabalhando, fiquei quieto com a capoeira.

      Depois, em 1941, passei a tomar conta de uma capoeira na Liberdade (bairro proletário de Salvador), tá bom? Assunte bem: em 1941 me chamaram na Liberdade pra tomar conta dessa capoeira. Então disse lá a eles,

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      CAPOEIRA É CANDOMBLÉ

      veja bem, que eu não queria, mas em todo caso vocês me ajeitaram e tal, vou ficar aqui com vocês. Desse dia em diante ficou sendo Centro Esportivo de Capoeira Angola e não mais um grupelo de capoeiristas. Bem, eu procurei dizendo a eles que eu ia botar a capoeira dentro da sociedade. Eu vou botar a capoeira dentro da sociedade.

      Não tinha capoeirista nenhum aqui que manifestasse. Eu, Pastinha, botei a capoeira dentro da sociedade. Falei com o senhor Wilson Lins, tá bom? Chamei ele, ele apoiou, e me acompanhou até hoje. Jorge Amado também até hoje me acompanha. Tá vendo o senhor? Você fique olhando meu respeito, minha consideração, e as implicações de parte a parte. Toma lá dê cá. Wilson e Jorge não podiam deixar de aprender capoeira. Os filhos deles também aprenderam. Você compreendeu bem?

      Agora você veja hoje pra eu tá aqui e chegar gente querendo que eu largue a capoeira... Um camarada aqui, há alguns anos, tornou a me repetir esta palavra: "Seo Pastinha, eu quero lhe dar uma coisa mas o senhor não quer afastar-se da capoeira" ...

      "Bote Na Marinha. Tá Ouvindo? Bota Na Marinha."

      O senhor disse uma coisa aí que me comoveu: o senhor disse aí que aprendeu, que estudou, não foi? O senhor sabe que eu fiz um trabalho bonito? Trabalho bonito não! Quer dizer, bonito para mim, na escola.

      Tinha um professor que conhecia meu tio né? Então meu tio andava se queixando e coisa tal que o menino era um menino desordeiro, não queria nada, não presta atenção, não quis aprender, coisa e tal, não tem jeito a dar nesse menino. A resposta que ele dava ao meu tio: bote na Marinha. Tá ouvindo? Bote na Marinha. Então eu tava aí assuntando a resposta dele. Bote na Marinha, eu ficava olhando assim pra ele e ficava dando risada. Quando ele saía dali eu não me incomodava não.

      Então eu fui indo, fui indo, chegou uma época, 1902, então tomei um instinto e fui pra Marinha, sentar praça, me empregar como indigente. Tá bom?

      Cheguei lá, perguntei ao sentinela: ô meu amigo, eu queria falar aqui com um camarada aí. Com quem eu me entendo aqui? Ele disse: qué que o senhor quer? Quer sentar praça? Eu disse é. Aí ele chamou o cabo da guarda, o cabo veio. Chegou, disse, é esse rapaz quer sentar praça. O cabo da guarda mandou eu entrar, aí me levou na presença do oficial do dia, né? Ele me levou à presença do comandante coisa tal, chegando lá o comandante disse que eu não servia, né? Porque eu era pequeno demais. Ele disse: você precisa comer mais uns 4 sacos de farinha pra você entrar aqui. A carabina é maior do que voce!

      "Eu Conheci Cordão De Ouro. Ele Morreu Assim:"

      Eu aí fiquei assim, triste né? Aí eu disse a ele: eu não tenho onde ficar. Ele disse: aonde que o senhor vivia? Eu digo, eu tava empregado, ele ficou assim, ficou, disse: deixa ele dormir aí. Ele vai se criando aí. O nome do oficial era tenente Olivo. Aí fiquei lá. Me botaram pra ser cabo dos fáxineiros. Depois veio inspeção de sáude coisa tal. Consegui entrar na escola. Veio uma ordem: Vicente Ferreira Pastinha, número 110, eu disse opa! Fui receber fardamento. Eu e mais 16 meninos.

      Aí o professor que mandava pra Marinha antes, amigo de meu tio, era o dito professor da escola agora, na Marinha. Eu vi ele na minha frente e eu disse: aii! Ele disse quem não sabe ler um passo à frente. Ele olhou pra mim, olhou pros outros que não passou e disse passe: eu aí passei. Ele disse leia. Eu disse, sei não. Ele disse leia, leia, leia. Ele pegou um maço de papel, né, escreveu ABC, disse tome, vá sentar.

      Olha: deixa eu logo dizer. Todos os capoeiristas não gosta do mar, já compreendeu? Gosta do mar aquele que já está no mar é que vê o balanço do mar, aí acostuma-se com o balanço do mar, gosta e acha que aquele ali também é um dos grandes professores. Eu viajava muito de escalé. Fazia exercício, instrução, não é?

      Eu conheci Besouro (Cordão de Ouro). A arte da pessoa do Besouro, Besouro foi soldado do exército, ta ouvindo? Andou por aí coisa e tal fazendo as proezas dele. Se empregou, foi para Maracangalha. Ficou e depois se empregou na roça. Na fazenda de um nome chamado Sovera. Ele ficou trabalhando lá. Então lá sempre brigava com a polícia e ele não gostava da polícia, a polícia não gostava dele também.

      A polícia nunca gostou de capoeirista, tá bom? E fez as proezas dele coisa e tal. Eu nunca saí com ele. Nunca fiz farra junto. Ele morreu assim: um camarada farseou ele aí, coisa de trabalho, do patrão, o camarada matou ele com uma faca de ticum, um estilete de madeira. Morreu um pouco novo.

      Na época de Besouro teve outros capoeiristas bom na Bahia: Doze Home e tantos outros. Hoje bom na capoeira na Bahia tem João Grande, João Pequeno e outros rapazes (os 2 são discípulos de Pastinha). Por que meus melhores alunos são pretos? Porque o clima dá pra eles. A capoeira é deles, fui titulada pra eles...

      Eu sou filho único, eu sou filho único. Meu pai era dono de um armazém ali na rua do Tijolo. Seu nome era José Siñor Pastinha, descendente de espanhol. Minha mãe era santamarense, seu nome era Raimunda [?]. Agora eu fui filho único da parte do espanhola da parte de pai, da parte de minha mãe eu fui o segundo filho. Minha mãe trabalhava em casa em serviço de sapateiro.

      Agora deixe eu explicar a você. Eu conto assim uma coisa mas dá vontade da gente contar mais uma coisa pra encher porque é obrigado a encher. Assim, fica uma barbudia, a gente passa como mentiroso. Olhe: em 1910, quando eu dei baixa, eu fui trabalhar, no meu primeiro emprego, que eu achei foi na imprensa, no Diário da Bahia (há muito que não existe esse jornal). Fui trabalhar ali de ganhador. Sabe pra quê? Levar gazeta para o correio, assinatura. Ganhava 1.600 réis. Já compreendeu? Dali eu saí, fui me empregar lá no correio, lá no comércio, de carregador também. Aí eu ia trabalhar por conta própria minha, tá vendo? Eu era solteiro e não me casei não, viu?

      Depois fiz de tudo: empalhador, pedreiro, todos os biscates.

      "O Senhor Não Acha Que Isso Tudo é Comércio?"

      Eu vou dizer uma coisa ao senhor: isso vocês fazem pra quê? O senhor não acha que isso tudo é comércio, não? Que não seja o senhor que não faça pra comércio, não vise dinheiro, o senhor não venda jornais. Mas outros vendem fotografia, vendem tudo. Pra eles tudo é comércio mesmo, tem que ser comércio. Ainda que alguns não queiram fazer comércio mas ele tem que fazer comércio disso. E nós que não temos nada pra comércio, temos somente a história, um caso que aconteceu com a gente, esse caso nosso é historiado.

      Então se faz uma propaganda, entra em praça, quando entra em praça a coisa vira comércio, esse comércio se estende, e esse comércio é que está hoje prevalecendo em todos os lugares. Eu estou lhe dizendo a você porque eu estou um pouquinho magoado, deixe eu dizer ao senhor. Tem tido aqui centenas e milhares de pessoas que vem aqui, compreendeu o senhor? Vem aqui é gente. Aqui não é minha residência, não. Minha academia tomaram e a minha residência não é aqui. Eu estou aqui pra atender aos senhores. Tomei este quarto aqui, achei e me apoiei, compreendeu? Quando eles (os jornalistas) publicam essas coisas de mim, eles pensam que está fazendo mal ao senhor só? Está fazendo mal pra eles também.

      Fazem mal para eles mesmo, fazendo mal a mim, falando mal do prefeito, falando mal do governador, publicando o nome do governador dizendo que ele não presta. Não adianta isso. Não adianta nada. Eles tão fazendo aquilo pra publicação, pra notícia. Por que que se faz aquilo pensando que o outro vai se agravar com o que tá se falando? Já acabou-se o tempo... Já houve tempo que o governo se preocupava com o publico falando. Hoje o governo nem dá trela a isso, não dá, não quer saber. Se faz uma propaganda, pra ele lá é propaganda, ele tá cuidando do trabalho dele, do serviço dele, não tá prestando atenção.


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