• O Globo, Rio de Janeiro
     AO MESTRE PASTINHA, COM CARINHO – CAPOEIRISTAS DE SÃO PAULO HOMENAGEIAM O PROFESSOR
    6 de abril, 1971

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    Mestre Pastinha, 1971

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      AO MESTRE PASTINHA, COM CARINHO – CAPOEIRISTAS DE SÃO PAULO HOMENAGEIAM O PROFESSOR
      O Globo, Rio de Janeiro
      06/04/1971

      Cego, com mais de 80 anos de idade, quase na miséria, êle é um dos tesouros de nossa cultura popular: é Mestre Pastinha, o maior capoeirista da Bahia, que dia 20 será homenageado em São Paulo. Lá, Vicente Ferreira Pastinha será recebido com honra de nova Federação de Academias de Capoeira.

      Foto: Mestre Pastinha em sua casa de taipa. Velhice e cegueira não o derrotaram.

      No dia 5 de abril de 1889, o espanhol Pastiña, morador na Rua do Tijolo, Salvador, alegrava-se: sua mulher tivera um filho a quem êle deu o nome de Vicente Ferreira Pastinha, aportuguesando o patronimico para evitar problemas na hora do registro.

      Menino „levado do diabo“, como diziam a mãe e os vizinhos, Vicentinho começou cedo a tomar consciência dos conflitos humanos e a pensar – à sua maneira – nos paradoxos da fôrça e da fraqueza: Honorato, menino bem maior, não perdia a ocasião de aplicar-lhe uma surra cada vez que êle ia ao armazém fazer compras. Até que um dia, Pastinha se propôs à missão que seria a da sua vida: demonstrar – as palavras são suas – que „fraco é quem anda armado e quer bater nos outros“.

      A paga da injustiça

      Era a vez do mestre, no caso o africano Benedito, que, vendo a injustiça de que era vítima o menino, perguntou se queria aprender capoeira. Pastinha quis, e passou a freqüentar a casa do velho. Até que Benedito, um dia, lhe disse: „Hoje você vai ao armazém, e não tenha mêdo.“ Foi uma beleza. Honorato apanhou o que merecia.

      À noite, o pai do menino grande bate à porta do espanhol Pastiña para fazer a queixa de praxe. Mas êle não perdeu a compostura, e limitou-se a aconselhar ao outro que pusesse também o filho a aprender capoeira. O queixoso não acreditou, e foi preciso organizar uma demonstração, na qual Vicentinho liquidou Honorato logo de saída, com um rabo-de-arraia antológico. Resultado: os dois „velhos“ ficaram amigos, e os dois meninos nunca mais brigaram.

      Em 1902, o futuro Mestre Pastinha entrou para a Escola de Aprendizes de Marinheiros, onde ficou até 1910 e aprendeu o ofício de pintor. Em 1911 conseguiu realizar seu sonho: abriu uma academia de capoeira, no Pelourinho. E até hoje está lá a academia, no mesmo endereço – Pelourinho, 19 [M Pastinha na verdade abriu sua academia lá só em 1955 – velhosmestres.com].

      Hoje, Pastinha não luta mais. Está pobre, velho, sofreu há quatro anos um enfarte, ficou cego. Mas o espírito leve e paradoxal da capoeira tem outras vias que não a meramente física, para expressar-se. Não é coisa – apenas – de braços e pernas, mas uma certa qualidade que adere ao homem e lhe transforma a vida.

      É sobretudo uma forma de ver da vida, que a cegueira dos olhos não destrói, e que se expressa também em aforismos fulgurantes como um golpe ágil. Por exemplo: „Arma de homem são as pernas e braços que Deus lhe deu. Sobretudo as pernas, que também servem para correr“; ou ainda: „O importante é não estar onde o adversário bate.“

      Filosofia que de vulgar só tem a maneira de manifestar-se verbalmente, e que foi sempre a de Pastinha, ou melhor, foi sempre o próprio Pastinha. Por ela se explica como um homem que teve vida tão irregular (quatro mulheres, porque „sempre precisou de alguém que olhasse pelas suas roupas“) seja ao mesmo tempo tão caseiro, tão afetuoso, com os muitos filhos e inúmeros netos, a quem procura transmitir algo de sua arte.

      É que para Pastinha, como para Mestre Bimba e os outros grandes capoeiristas, o valor da vida não se contém em instituções ou formas rígidas de relação, não reside no teórico e abstrato, mas sim na eterna novidade do momento em que o corpo se move em meio às coisas. Pastinha não saberia fazer essa frase; faz mais – vive-a, e procura, velho e cego como está, ensinar os outros a vivê-la.

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      De onde vem a capoeira, ninguém sabe com certeza. Para alguns, como Cámara Cascudo, essa forma de luta teria sido introduzida no Brasil pelos escravos de Angola; outros supoém que veio de além-mar uma espécie de dança, só aqui, adaptada para fins marciais. O que não se pode negar é que a capoeira seja coisa genuinamente brasileira, o único esporte de fato brasileiro.

      A estrutura social do Brasil-colónia, rígidamente dividida em escravos e homens livres, foi sem dúvida um fator na formação da técnica da capoeira, caracterizada pela esquiva continua, pela recusa o corpo-a-corpo: contra o opressor armado, o mais urgente era evitar o golpe, abaixando-se e gingando, antes de reagir.

      Desde o início do século XIX, encontram-se referências à capoeira, sobretudo em seus centros de irradiação – Salvador, Rio de Janeiro e Recife. Já nessa época havia penetrado nas classes superiores – havia até frades capoeiristas –, e se tornado instrumento de ação de marginais. As maltas de capoeiristas, sobretudo no Rio, eram um perigo público.

      Silvio Romero qualifica de „cancro“, na segunda metade do século passado, essa arte, informando que seus praticantes „usam navalhas como armas e sabem um jôgo de pulos, pontapés e cabeçadas todo original“. Tal espécie de capoeira criminosa, caracterizada de [..] era praticamente extinta pelo chefe de Polícia, Sampaio Ferraz, que, durante o ano de 1890, moveu-lhe guerra seus quartel, prendendo capoeiristas ricos e pobres, brancos e prêtos, criminosos ou não.

      Na Bahia, a capoeira consertou caráter muito mais esportivo, ou ritual, sem perder por isso sua eficiência como luta. Só lá se encontra a união da música com o jôgo corporal, uma das originalidades mais acentuadas da capoeira, entre as artes marciais dos vários povos. Só lá se conservaram ou desenvolveram os elementos que fazem da capoeira um excelente método – ainda em potencial – de educação física, no sentido mais geral da expressão.

      Mas a capoeira baiana, apesar do esfôrço de alguns, que procuram com dificuldade devolvê-la ao Rio e difundi-la por todo o Brasil, está em perigo. É que o apoio oficial de que desfruta é quase nulo, e a própria atitude da juventude esportivo do judô, do karatê ou que outra arte importada esteja em moda.

      Tal situação é grave, pois uma coisa como a capoeira não se ressuscita, se vem a morrer: ela reside na mente e no corpo de mestres, como Pastinha e Bimba, não em qualquer teoria transmissivel por palavras ou mesmo de cinema. [..]

      Foto: Pastinha ensina ao menino – talvez um de seus netos – a sua espantosa agilidade.

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