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     ESTA BRIGA DEVE SER VISTA
    16 de novembro, 1969

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      16 de novembro de 1969

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      16 de novembro de 1969

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    • Embora tenha seu ponto forte na Bahia, a capoeira de Angola é praticada em quase todo o território nacional, e foi incorporada ao folclore brasileiro. Aqui no Estado de São Paulo, as melhores demonstrações podem ser assistidas no município de Embu, em suas festas tradicionais, com capoeiristas comandados por Solano Trindade.
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    Diário Popular, 1969

    O texto

    • página 3

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      Esta briga deve ser vista
      Diário Popular
      16 de novembro de 1969

      Mas, a Capoeira Angola é, antes de tudo, uma luta violenta e extremamente maliciosa.

      De repente cessa o "jôgo" e na "arena" entra um velho que, até agora, passara desapercebido. É muito velho, tem 80 anos e pelo seu olhar fixo percebe-se que é cego. Aí se apresenta. É mestre Pastinha. Conta a estória da capoeira, que se mistura com a estória de sua vida. Iniciou a prática da capoeira aos dez anos de idade com mestre Benedito, um prêto, natural de Angola. Narra, então, experiências de seu tempo de jovem, quando capoeirista era sinónimo de arruaceiro e vagabundo. Quando o capoeirista era perseguido pela cavalaria. Quando as mulheres eram mais valentes.

      PROIBIÇÃO

      Conta êle que, por causa de capoeiristas desordeiros, que enfrentavam os policiais em violentas lutas, o "jôgo de capoeira" tinha de ser realizado às escondidas, com um companheiro de sentinela.

      Quando surgiam os policiais, que nessa época andavam a cavalo partulhando a cidade, o vigia saia correndo, dava o "toque de cavalaria" em seu berimbau e logo os companheiros se esgueiravam. A polícia sabia. Por isso os instrumentos do conjunto rítmico da capoeira tinham de ser dissimulados.

      Pastinha passa a falar sôbre os grandes capoeiristas que conheceu. E cita o caso, muito falado, da famosa mulher da qual até o delegado tinha mêdo. Chamavam-na Maria Homem. Não havia polícia que a prendesse.

      Conta as desventuras de um "cabo forasteiro" que se meteu a valente com Maria Homem. Êle tinha então um "birosca" no Largo do Pelourinho, no qual ela gostava de ir "tomar uns tragos". Ela tanto bebeu que lá ficou. Foi quando surgiu o tal cabo com dois policiais. Êste vendo-a alí caída, mandou prendê-la. Os policiais que a conheciam muito bem não acataram a ordem. O cabo metido a valente resolveu êle próprio prender Maria Homem. Foi, então, que êle sem saber como voou uns seis metros e seus companheiros "deram no pé". O infortunado cabo não se conformou. Voltou com reforço. E foi então que tôda ladeira do Pelourinho viu soldado "avoando".

      Pastinha lamenta que em sua academia, como em tôda Salvador, não existam mais mulheres capoeiristas. - É pena - diz êle - que não haja mais mulheres de tal estofo, pois a mulher deve também compartilhar da defesa de seu lar.

    • +

      página 5

      Sua narrativa conserva ainda nos tempos atuais saboroso vigor. Com entusiasmo e alegria fala do prestígio alcançado pela capoeira diante do nosso povo. Empolgando, desafia os visitantes:

      - Lutadores de boxe, de judô, luta livre, karatê, apresentaem-se. Eu os desafio a enfrentar a Capoeira Angola. Eu sou mestre Pastinha, não "morri", ainda sou capoeirista. Minha capoeira é Capoeira Angola, capoeira legítima. Não é "misturada", capoeiristas de outras capoeiras, eu os desafio.

      Velho e cego, não sente o pêso dos anos, sua valentia não conhece idade. A perda da visão não lhe quebra a coragem, pois como disse Jorge Amado: "em Pastinha sente-se a invencível fôrça do povo da Bahia, sobrevivendo e construinho apesar da penúria infinita, da miséria e do abandono".

      Pastinha com lealdade e abnegação vem mantendo o ensino da Capoeira de Angola tal como a recebeu. Não premitiu que em sua academia ela fôsse deformada com a introdução de práticas próprias de outros métodos de lutas. Por isso é muito ridicularizado por outras academias, que no desejo de angariar fama, não se pejam em dizer que sua capoeira morreu. Que Pastinha não é mais capoeirista. Esquecem-se que êle foi uma espécie de predestinado, que fêz da capoeira uma modalidade esportiva, permitinho-lhes, atualmente, usar dela como seu ganha-pão.

      [..] contra a adversidade. O seu melhor pagamento, aquilo que o recompensou pela lealdade e abnegação que dedicou ao ensino da Capoeira Angola, foi o prestígio que as autoridades deram a sua capoeira, considerando-a uma das mais autênticas manifestações do folclore nacional.

      Grande é a dívida a êsse mestre capoeirista que tão ferrenhamente vem defendendo essa luta em sua pureza original.

      A CAPOEIRA

      Pastinha e sua capoeira não morreram. Todos os dias, no Largo do Pelourinho, ouve-se ainda capoeiristas cantar:

      Professor de capoeira
      Nesta velha capital
      Não se iluda minha gente
      Mestre Pastinha é sem igual

      Êle representa no coração de Salvador não apenas um mestre consagrado de uma modalidade de luta, por muitos considerada superior ao judô e luta livre mas uma crônica viva do velho Brasil.


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