• O Estado de São Paulo
     Na Bahia, a capoeira tem seu rei
    16 de novembro, 1969

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      16 de novembro de 1969

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    • Pastinha conta como, quando a polícia chegava, o berimbau se transformava numa arma temível

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    • Aqui Pastinha estabeleceu seu reinado

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    O texto

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      Na Bahia, a capoeira tem seu rei
      O Estado de S. Paulo
      16 de novembro de 1969

      Luiz Roberto de Sousa Queiróz

      É noite em Salvador; nas velhas ladeiras do Pelourinho o povo já foi dormir, mas há ainda o som. Os berimbaus tocam num sobrado, o pandeiro também, um velhinho baixo bate o atabaque dando o ritmo. Luz, só a lamparina de querosene delineando as sombras que jogam rápido a capoeira, que com seus golpes faz vibrar o chão de tábuas largas. Para o velho, só há essa vibração, o som. Pastinha, „mestre de capoeira Angola, da cordialidade baiana, ser de alta civilização, homem do povo com tôda sua picardia“, como o chamou Jorge Amado, está tocando o atabaque, que não enxerga.

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      Os olhos fixam a frente sem ver, para êle só há o vibrar do chão. Pastinha, „o primeiro em sua arte, senhor da agilidade e da coragem, da lealdade e da convivência fraternal“, está cego, mas ensinando capoeira ainda, num salão onde a luz só voltará com o pagamento, onde, brevemente, chegará a ordem de despêjo. É noite no Pelourinho, mas para os olhos baços de catarata, para o maior mestre da capoeira, para „um dos seus ilustres, um de seus obás“, há muito tempo que já é noite.

      No salão que Pastinha não vê, seus alunos jogam. É mestre João Cobra Mansa, o nome indica a especialidade, joga a capoeira de baixo, sempre enroscado no chão. Com êle luta o contra-mestre João Gavião, que joga no ar, as pernas girando alto, depresa, em busca da brecha na guarda para a „chapa-de-frente“, para o rabo-de-arraia. Pastinha deixa o atabaque, é hora de fumar o charuto, hora de contar os casos de há tanto tempo, dos 80 anos que já viveu.

      Os velhos mestres

      „Mestres tive muitos, os velhos africanos que me ensinaram, vim do meio deles, sei que capoeira é da África mas evoluiu por demais no Brasil, hoje aqui é melhor. Êles eram de Angola, a luta é de lá, e eram gente muito boa. De noite, corpo cansando de lutar, a gente sentava como agora, os mestres contavam, agora quem conta sou eu. Tinham tanta tristeza, foram contratados pelos portugueses para trabalhar no Brasil, com pagamento, diziam que só a bordo sabiam que não eram contratos, que tinham sido enganados, que viraram escravos. A gente aprendia com êles, sentia o ódio que tinham dos portugueses, tinha pena quando um mestre dos bons falava de família que não veria mais, da África, das saudades de lá“.

      O despejo

      Do despêjo, não sei não, estou alheio a isso. Minha parte no salão, só uso à noite, é NCr$ ... 30.00; os outros atrasaram, eu paguei, mas agora êles não querem mais receber, não cobram eu não pago, mas entendo que não podem pôr a gente na rua. Luz é que é problema, cortaram faz 3 mêses, os que alugam comigo não têm dinheiro para pagar, a Companhia não liga de nôvo, é pena. Até que com luz de energia, verdadeira, não lamparina, dava para eu ver a sombra dos capoeiristas, eu como vulto, jogando. Com luz de lamparina não vejo nada. É pena, mas vontade de Deus. É, pobre vive de teimoso. A Prefeitura me dá pensão, um salário mínimo, ajuda sempre, foi Jorge Amado quem conseguiu.

      As crianças

      Filhos, só tenho 3 do meu sangue, mas crio 15, sou dessa natureza, filho órfão e abandonado é comigo, se o govêrno desse para criar, criava todas as crianças do mundo, pena é que não posso mais ver elas, também 80 anos não é pouco e tive vida vivida, agora está no fim.

      Mas vamos falar da capoeira. Hoje, ela está se desfazendo, tem capoeira demais, regional, estilizada, a verdadeira, no meu entender, é só a Angola. O turismo foi o mal, todo mundo quer ver capoeira, apareceu tanto mestre que não sabe de nada, não é mestre, é triste ver isso.

      A briga mortal

      No comêço é que foi bom. Capoeira era luta mesmo, era briga mortal. Por isso é que não pode ser esporte. Cada golpe mata, uma „chapa-de-frente“ no peito para o coração, não é como judô, uma chave de braço, pode ser, apertada aos poucos. Para o capoeirista brigar tem que dar o golpe com fôrça, mortal. Por isso que agora se faz o jôgo da capoeira, à distancia maior que o normal, mas lenta, para não acertar, para não matar ninguém.

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      Senzala e quilombo, os berços da luta

      Para Pastinha, a capoeira deve muito ao índio. Os africanos vieram com a capoeira desenvolvida de Angola, mas havia também um pouco do Congo, de Moçambique. Pastinha vai contando: „É, para ver a história, tem que entrar no lendário. Dizem que o gingado era de lá, o jôgo de corpo, mas era defesa pequena, só aqui é que acharam por bem de fixar tudo da luta, dar as sequências“. Do índio, no quilombo dos Palmares, no contato com êle nas fazendas de cana, a capoeira ganhou novos golpes, principalmente as defesas, como a negativa, a queda para trás, a defesa com as mãos.

      Deixou de ser luta de apenas ataque, ganhou as defesas, até a música mudou.

      Berimbau

      „Na Africa berimbau era um arco em forma de S, com fio de fibra, sem caixa de ressonância. Aqui, adotou o arco do índio, a corda de arame, a caixa de ressonância feita de cabaça, virou Berimbau de Barriga, ganhou o caxixi que é chocalho, virou arma também.

      Capoeirista usa uma foice pequena no bôlso. Na hora do „toque de Cavalaria“, que é sinal da Polícia chegando, dado pelo berimbau, o tocador desmonta o instrumento, usa o arco como cabo de lança e foice é colocada no ponta, mas isso tudo foi no antigamente, quando a Polícia quebrava qualquer berimbau que aparecesse na rua. Capoeirista era brigador, bagunceiro, de criar caso. Hoje não é mais assim, não“.

      Com „filosofia“

      „Faz muito tempo, foi em 1941. Capoeirista era perseguido, a luta era proibida, me chamaram para formar um grupo, para organizar tudo direito, moralizar a capoeira. Fui eu que criei o Centro Esportivo de Capoeira Angola, comecei a ensinar direito, como jôgo e como luta, mas com filosofia, capoeirista não deve procurar briga na rua, só se defender se preciso. Tinha muito que ensinar, eu mesmo comecei aos 10 anos, ainda vivo aprendendo“.

      „Registrei a capoeira, formei estatuto, batizei, botei presidente no Centro, que hoje é o presidente da Assembléia, organizei. Mas isso se foi bom, foi mau também, o turismo se interessou, capoeira hoje é falada demais, todo mundo quer entender e não entende nada. Agora me diga o senhor, a capoeira nasceu na Bahia, a matriz é daqui, como deixar que outros Estados a tomem, a organizem, e que aqui se perca? Está errado“.

      „Mas tem mestre muito bom, a gente podia, com ajuda, organizar uma Federação, um concurso, só seria mestre nôvo quem passasse num exame organizado. Tem Antonio de Maré, Levino Diogo, Noronha Daniel, Eulâmpio, Domingos de Magalhães, eu não, que não vejo mais, mas êsses mestres podiam fazer um bom trabalho“.

      „Hoje, só tenho um livrinho [..] e nos deixaram muito, mas que escrevi, os africanos se fo- [..] quando chegar a hora da gente ir embora, que foi que os velhos de hoje vão deixar? Nossos alunos serão surgindo para turista e que não são capoeira de verdade?“.

      A subida

      Pastinha pára um pouco, espera que alguém lhe leve o fôgo ao cigarro. Depois, continua: „Hoje, a capoeira mudou. Eu a tirei da lama, do meio da rua, quando o importante mesmo era não roçar o corpo no chão que sujava tudo. Hoje não encosta ainda, só mão e pé, mas não é preciso. A capoeira está nos salões, entrou na sociedade, subiu a escadaria. Tem tanta gente boa hoje, jogando, e tem serventia. Se alguém lhe agravar, se um capadócio entra pela porta de seu lar, o senhor, sua mulher, seu filho, todos podem lutar, defender sua integridade. Fui eu, Vicente Ferreira Pastinha, que consegui isso, com muita ajuda, mas fui eu. E a gente podia ter uma coisa bonita, bem organizada, que fôsse até exportada“.

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      Cego só dos olhos, Pastinha tem fé

      Faz 2 anos que Pastinha não enxerga. Sôbre o mal, fala também. De minha vista, só posso dizer que: „abaixo de Deus, os homens de boa vontade“. Se tivesse um homem, um médico que acreditasse na sua profissão de verdade, me operava, salvava uma vista que fôsse, a esquerda que é melhor, mas eu não tenho recurso: o nome do mundo de hoje é dinheiro. Sim, já procurei doutor, mas num tempo que mudam coração, êles olham dizem que não tem jeito, me mandam embora.

      Mas eu tenho fé, amanhã talvez venha alcançar minha visão, que dé para eu assinar meu nome, pegar o pão nosso de cada dia, sem que outros ponham-no na minha bôca. Pode ser que eu morra sem enxergar, mas terei fé. Quem acredita em Deus acredita em si. Veja que tive um ataque dos nervos, a perna parou mas confiei e hoje ando.

      Pastinha se levanta lentamente, é guiado por um filho para o meio do salão e joga sozinho a capoeira para mostrar que a perna está boa. Seus 55 quilos giram pelo meio da sala, os pés procuram um adversário que não existe.

      Mêdo do congresso

      Agora, houve um „Simpósio“ de Capoeira no Rio, promovido pela Federação Carioca de Pugilismo. Pastinha foi convidado, mas não quiz ir. Tera que gravar a voz para o Museu da Imagem e do Som, não gostou. Achou que os capoeiristas novos não iriam querer diálogo, não desejariam reunificar a capoeira, continuaria a divisão em „Angola“, „Regional“, „Estilizada“ e muitas outras. Com a cegueira, acreditou que ficaria por baixo.

      O jôgo

      Pastinha pára de conversar. O charuto está apagado. Um aluno o leva de nôvo até o lugar do atabaque, que êle abraça com as pernas. As mãos vão batendo o ritmo, devagar. Na sua festa, agachados, suados, dois alunos se benzem depois de tocar o chão. Ouvem a música em silêncio e depois as pernas sobem, a cabeça defendida entre os braços, único apoio, os corpos se atacam lentamente, depois mais rápido. Um capoeirista salta, planta bananeira, o outro cai na negativa, os berimbaus tocam mais rápido, o jôgo é violento.

      O toque do atabaque é de violência, do jogo mais rápido possível. O côro canta „uai / uai / quando êle bate / quero vê cai“ – Pastinha bate forte no atabaque, os olhos procuram ver e não conseguem. Só os pés, encostados no chão, sentem a vibração das tábuas, que indicam que há corpos lutando, caindo, saltando, que mostram ao grande mestre que na noite do Pelourinho a capoeira não terminou ainda.


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