• Diário de Pernambuco, Recife
     A CAPOEIRA DO PASSADO QUE A BAHIA MANTÉM COMO TRADIÇÃO - MESTRE PASTINHA, CEGO E NA MISÉRIA, ABANDONARÁ A CAPOEIRA JÁ DESILUDIDO
    3 de março 1968

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      Foto: Mestre Pastinha tocando Birimbau, instrumento indispensável no pequeno conjunto musical que acompanha os lutadores de capoeira durante o jôgo

    M Pastinha, 1968

    O texto

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      A capoeira do passado que a Bahia mantém como tradição – Mestre Pastinha, cego e na miséria, abandonará a capoeira já desiludido
      Diário de Pernambuco, Recife
      3 de março de 1968

      Samir Abou Hana

      Quem chega a Salvador tem uma infinidade de guias a lhe indicar as atrações da boa terra. Um dêles, - talvez o melhor – o de Odorico Tavares, „Bahia Imagens da Terra e do Povo“, no capítulo sôbre a capoeira, diz o seguinte:

      „Se o visitante quer assistir ao jôgo de capoeira, há, hoje, mais de um barracão onde pode ir. O de Juvenal, no Chame-Chame, o de Pastinha, no Pelourinho…“

      E quem quiser chegar na casa de mestre Pastinha, oriente-se pelo livro de Odorico:

      „Vindo do Terreiro, ou da Baixa dos Sapateiros, ou do Taboão, o deslumbramento é o mesmo: está o visitante, face a face, com o mais belo conjunto arquitetônico brasileiro. Eis a massa imensa e harmoniosa de edifícios do séculos 18 e 19, marcada pelas tôrres das igrejas. É o Pelourinho, como um lago onde confluem as águas das mais variadas fontes de humanidade baiana“.

      A Academia de Capoeira Angola é do mestre Pastinha. Com seus 71 anos de idade, luta capoeira desde garoto, aos 10 anos. Aprendeu a arte a fim de defender-se de um menino da mesma idade, com quem brigava diáriamente, e perdia. Um dia, na rua das Laranjeiras, Tonico [M Pastinha sempre fala que era Honorato – velhosmestres.com] lhe aplicou verdadeira surra. Foi quando o velho capoeirista baiano, Benedito, chamou Pastinha e lhe deu os primeiros ensinamentos. Desde então Pastinha não perdeu mais para ninguém, tornando-se o mais famoso malandro da Bahia. Brigava com todos. Criou fama e tornou-se uma legenda.

      Nêsse espaço de tempo, ao aprender capoeira e tornar-se dono da Academia Angola, Pastinha foi incorporado na Marinha onde ensinou a lutar e aprendeu a jogar esgrimas. Ao sair, voltou a fazer „azar“ nas ruas, sendo perseguido pela polícia. Lutou, ganhou, perdeu, quis abandonar a malandragem até que um dia, um antigo aluno seu, o Aberé, frequentava uma roda de capoeira, em Liberdade, e os mestres perguntaram quem fôra seu mestre. Êle confessou. Pediram-lhe, então, para levá-lo à Liberdade. Diante das demonstrações a que assistiram, entregaram a Pastinha o comando da capoeira, o que foi aceito.

      Reintegrado na malandragem, como êle mesmo diz, fundou a Academia Angola, que ainda hoje funciona num segundo andar de um sobrado no Pelourinho.

      OUTRA HISTÓRIA: A VIA-CRUCIS

      O repórter Guido Guerra, do „Diário de Notícias“, da Bahia, informa que Pastinha está cego. Já não pode mais lutar. Está desiludido. [..]. Pobre. Moribundo. Quer até fechar a Academia.

      Foi um dia qualquer de fevereiro, madrugada ainda. Súbito nublaram-se-lhe os olhos, uma tontura, um desmaio, perdera o sentido das coisas. Embora sem roubar-lhe a vida, naquela madrugada baiana um derrame cerebral conseguiu dominar o negro velho. Desde aquêle dia êle deixou de ver a luz do dia, não podendo mais lutar.

      Há poucos dias antes vencera o 1.° Festival Baiano de Capoeira, promovido pela DEFEBa, uma espécie de EMPETUR, aqui em Pernambuco.

      - Foi o Festival que me cegou – assevera – por isso devo ser amparado, porque muito trabalhei. Dediquei minha vida à capoeira, à Bahia. Por acaso nada mereço, na velhice, em retribuição aos serviços prestados?

      Pastinha está na miséria. Uma das maiores tradições baianas, ameaça fechar sua Academia, ponto de atração turística da boa terra.

      „Não marco dia nem hora – diz o prêto velho – mas pode anotar, vou deixar a capoeira por sentir-me fatigado e injustiçado, vítima da incompreensão do mundo“.

      Depois, com um ar de riso, vaidoso:

      „Tirei a capoeira da lama. Valorizei-a e civilizei-a. Com ela gastei minhas economias. Hoje, não obstante, os poderes públicos relegam a plano secundário os meus serviços reconhecidos em todo o Brasil, exceto na Bahia. A Bahia que me deu? Nada vêzes nada. É justo isso?“

      DECADÊNCIA DA ACADEMIA E APOGEU DA CAPOEIRA

      A Academia de Pastinha está em decadência. Seus alunos o ajudam, mas o auxílio não chega para nada. A capoeira, entretando, na Bahia, está no apogeu. O governador Luís Viana Filho recentemente visitou o famoso capoeirista e prometeu uma subvenção mensal ainda êste ano.

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      Na definição do prêto velho, Capoeira não é privilégio de ninguém. Quem quiser estudar poderá praticá-la com maestria. Por ela „o homem defende-se e defende até a pátria. Contudo, não deve usá-la contra ninguém, a menos para defender-se. Inclusive porque Capoeira não quer dizer pé na cara do adversário. É, antes, uma arte, como outro qualquer“.

      CAPOEIRA – COMO É E DE ONDE VEIO…

      O jôgo é velho. Desde os primórdios da civilização. Veio para o Brasil trazido pelos escravos de Angola que já vinham senhores de sua adestreza, fôrça física, agilidade, postas em prática nas revoltas, conflitos e incidentes contra os agentes feudais. Homens que lutavam esmagando o adversário, em segundos, matando em um ou dois saltos, numa reviravolta inesperada, encheram de pánico e terror as ruas do Recife, Salvador e do Rio de Janeiro.

      O mestre tem sempre um birimbau pronto para comandar as lutas. É instrumento indispensável. Com o auxílio do pandeiro, do reco-reco e do caxixi, é formada a orquestra. Iniciado o canto, os jogadores, em número de dois, de cócoras, começam a batalha. Golpes e contra-golpes. A agilidade é fator primordial. Quase que não se tocam. Tudo acontece com saltos, arrastadas de pernas, lances de nega-corpo e vai-mas-não-vai.

      Aruandê
      ê, ê
      Aruandê
      Camarado

      Golpes, negaças, rasteiras tudo vai desfilando aos olhos surprêsas do turista. No dizer de Odorico Tavares, „é um milagre em que a violência de um ataque resulte em outro ataque, em que ninguém se toca, ninguém se fere, ninguém se agride“.

      Os capoeiristas do passado encheram de aventuras gozadíssimas algumas páginas de memorialistas famosas. Gilberto Amado, por exemplo, fala do famigeiro Nascimento Grande, que viveu no Refice nas primeiras três décadas do século.

      Cantarolando o „apanha laranja no chão tico-tico“, Coelho Neto gostava de, às escondidas, praticar a capoeira. Raimundo Magalhães Júnior fala do assunto em seu livro „Deodoro, a espada contra o Império“. Já Coêlho Neto cita o Barão do Rio Branco como capoeirista nos seus tempos de estudante.

      A história da capoeira ainda terá de ser contada com minúcias. No passado, envolveu muita gente jovem que depois entrou para nossa história. Era simpatizada e praticada pelos rapazes mais finos da época. Pena que aqui em Pernambuco tivesse ela sumido após a perseguição policial. Na Bahia, no entanto, permaneceu como tradição, embora muitos aprendem a arte como se aprende, por aqui, o tal do jiujitsu e do Karatê.


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