• Jornal do Brasil, RJ
     CAPOEIRA, UMA ARTE SEM AUXÍLIO
    30 de junho, 1967

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    Mestre Pastinha, 1967

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      Capoeira, uma arte sem auxílio
      Jornal do Brasil, Rio de Janeiro
      30 de junho de 1967

      Florisvaldo Mattos

      Salvador – Na tarde chuvosa de junho, um ancião de 77 anos, baixo, calvo e cego, penetra na ante-sala do gabinete do Governador do Estado, tateando o caminho, com a mão direita segurando o cabo de um guarda-chuva que lhe serve de bengala.

      - Vim aqui para falar com o Doutor Luís Viana. Eu o vi, quando êle era ainda menino – disse o velho ao Chefe da Casa Civil, que lhe indicara uma poltrona, onde sentou gulado por uma mulher que o acompanhava, em silêncio.

      Anônimo, com o chapéu de fêltro sôbre os joelhos, na sala cheia de gente formal, Mestre Pastinha, o famoso rei da capoeira de Angola, começou a esperar a hora de ser atendido.

      VELHA ESTIMA

      - Eu venho ao Palácio, primeiro, por estima ao Dr. Luís Viana Filho. Tenho grande satisfação de vê-lo agora Governador. Eu vi êle, quando o pai dêle era Governador da Bahia. Eu trabalhava para o pai dêle – explica Vicente Ferreira Pastinha ao repórter, que o identificara.

      - Trabalhava de que, Pastinha?

      - De pintor. Naquele tempo, eu era pintor de paredes.

      Com os olhos muito abertos, danda a impressão de que enxergava, Mestre Pastinha queria saber com quem falava.

      - Sou apenas um repórter, que o conhece muito de nome e de vê-lo jogar capoeira.

      - Ah, hoje já não faço mais isso. Fiquei cego. Mas ainda ensino muita coisa aos meninos de minha academia. São poucos os que agora vão lá.

      QUER UM AUXÍLIO

      Mestre Pastinha, a par da estima pelo Governador Luís Viana Filho, tinha outro motivo que o levava a Palácio. Ajeita-se na poltrona acolchoada e se aproxima do repórter como quem vai dizer um segrêdo.

      - Vim pedir um auxílio, também. Não tenho grandes pretensões, apenas algo que me ajude a criar filhos órfãos. Hoje, na velhice, preciso de qualquer coisa para o arrimo da família, qualquer coisa que esteja ao alcance do Governador.

      - Sabe que tenho uma academia de capoeira no Pelourinho. Pelourinho, n.° 19. Quero só melhorar um pouco a academia. Não se trata de coisa grande, pois lá tudo é tradicional. Quero só melhorar o ambiente para que sirva de atração ao turismo. Tenho três filhas e seis netos para sustentar – segredou Mestre Pastinha.

      APOIO PÚBLICO

      O desejo de Mestre Pastinha, nesses dias escuros de homem velho e cego é ver sua academia apoiada pelas autoridades, como uma expressão da cultura regional.

      - Quero só que declarem minha academia de capoeira de Angola um bem de utilidade pública, recebendo subvenção do Estado para que não desapareça. Na Bahia tudo o que é de folclore está acabando. A renda da academia não dá para eu viver. Levo semanas e até meses sem ter um aluno nôvo, ensino só para os que sempre estão lá dando treinos. Antes eu jogava capoeira com êles, mas hoje, cego, digo apenas o que devem fazer.

      A voz de Pastinha traduz uma emoção de tristeza, quanto mais êle penetra no assunto de sua vida.

      - Hoje, vivo sem qualquer ajuda oficial. Não sei o que seria de mim, se não fôssem Jorge Amado e Wilson Lins (deputado e escritor baiano). Êles é que sustentam a academia com auxílios freqüentes. Há pouco tempo, houve uma campanha liderada pelo Diretor do Touring Club para que o Estado ajudasse minha academia. Não sei por que, mas Lomanto negou-se a dar o auxílio – disse êle.

      SE DEUS AJUDAR

      Mostrando ainda na face um resto do temperamento irrequieto que fêz dêle o rei da capoeira de Angola e seu principal renovador de estilo, Mestre Pastinha fala agora de seu estado físico.

      - Se Deus me ajudar que a vista volte, ainda estarei em exercício, jogando capoeira e ensinando ainda mais aos meninos que aparecem lá na academia. Basta Deus me ajudar um bocadinho que voltarei – confiou o famoso capoeirista.

      - Sabe, quero ainda trabalhar pela capoeira de Angola, mas hoje estou velho e desampa

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      rado. Recordo os tempos de Vasconcelos Maia (escritor baiano) na Superintendência de Turismo e fico triste. Naquele tempo, não só êle, mas muita gente me ajudava. E o resultado disso está aí: a capoeira é hoje o esporte da vida. Tudo isso se deve ao meu trabalho. Hoje sofro perseguição só por inveja, porque ensino a capoeira a meus meninos com mais vitalidade e arte para que ela seja mais esporte do que luta.

      Agora, entusiasmado com o interêsse de alguém pela conversa, naquela sala grande em que êle nada vê, Mestre Pastinha reivindica maior incentivo para a capoeira de Angola.

      - Quero que se faça alguma coisa para ver qual a capoeira que está mais apurada. Temos que mostrar qual a que tem mais seqüências, a que tem mais arte. Os prêtos nos ensinaram, mas a capoeira está hoje mais aperfeiçoada dentro do folclore.

      O MENINO LUÍS

      O velho mestre da capoeira de Angola parece convencido de que o Governador o ajudará. Diz que vai apelar para o sentimento dêle. Tira do bôlso um cartão onde está escrito: „Academia Capoeira Angola – Mestre Pastinha – Pelourinho, 19 – Salvador, Bahia, Brasil – Exibições: 3.a, 5.a e 6.a a partir das 19 horas, aos domingos às 15 horas. Aceitamos alunos e contratos para exibições.“

      - Você conhece o Governador?

      - A última vez que vi êle foi quando o pai dêle deixou o Govêrno. Eu estava entre as pessoas que o levavam em companhia (Pastinha não soube fixar a data). Eu acompanhava o pessoal do Palácio que me arranjava trabalhos de pintura. Foi a última vez que vi êle, quando era ainda menino. Agora, velho ansioso para ver êle de nôvo. Embora não tenha mais visão, eu quero ouvir a sua voz – frisou com ternura Mestre Pastinha, rei da capoeira de Angola, sem ligar para as pessoas circunspectas que enchiam a sala de espera do Palácio Rio Branco.

      Só à noitinha Mestre Pastinha falou com o Governador Luís Viana Filho, que o atendeu e prometeu estudar um meio de ajudar a famosa academia de capoeira.

      Foto: Cego Pastinha

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