• O Diário
     Capoeira que é bom não cai
    19 de setembro de 1964

    M Gildo Alfinete: «A primeira viagem do grupo com a minha participação foi em 61 [provávelmente em 64 como mostramos abaixo - velhosmestres.com], quando viajamos para Belo Horizonte a convite da Universidade Católica, fazendo parte da comitiva: Mestre Pastinha, eu (Gildo Alfinete), Roberto Satanás, João Grande, Albertino da Hora e Toinho.»

    M Zoião, 1999

    Imagens

    • Prof. de Educação Física de BH,
      M Pastinha,
      Gildo Alfinete,
      Roberto Satanás,
      Toinho,
      João Grande,
      Moreno (Albertino da Hora)
      BH, 1964

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      Na foto bateria:
      Toinho,
      M Pastinha,
      João Grande,
      Moreno (Albertino da Hora),
      Jogando:
      Gildo Alfinete e Roberto Satanás
      BH, 1964

    • Bateria:
      Toinho,
      M Pastinha,
      Roberto Satanás,
      Gildo Alfinete
      Jogando:
      Moreno (Albertino da Hora) e João Grande
      BH, 1964

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    O Diário, BH, 1964

    Texto

    • página 1

      -

      Capoeira que é bom não cai.

      Capoeira que é bom não cai. Mas, se um dia êle cai: cai bem. Quem diz muito que vai: não vai. Assim como não vai: não vem. Quem de dentro de si não sai: vai morrer sem amar ninguém. O dinheiro de quem não dá é o trabalho de quem não tem.

      Capoeira já mandou dizer que já chegou. Chegou para lutar. Berimbau já confirmou: vai ter briga de amor. Tristeza camará.

      REGINA BEKER

      Fotos antonio hernandez

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      página 4

      TRISTEZA CAMARÁ

      A capoeira existe por ai nestes brasis, atração coreográfica de festas domingueiras do povo humilde e crioulo, enfeitando as feiras com seus movimentos e seus sambas coloridos. E como no futebol, o pé mestiçado e agilimo, ganha asas mitológicas para derrubar os valentes cabeçudos.

      Arte e bom humor, negro e popular, se juntam para divertir os olhos turistas, tem os toques propícios do berimbau de muito ritmo para a formação da roda do brinquedo dos filhos do povo. Os torcedores de olhos brancos bolando nas caras negras cantam com gengivas vermelhas a glória dos meninos lutadores. E policiam a roda de capoeiragem para impedir intromissões de abelhudos e o enfraquecimento do ginastas com suas copias estimuntantes.

      A coisa só termina quando o mais fraco apela para a retirada estratégica, ou a exaustão e o suor pegam os capoeiras de jeito, para mostrar que não haverá vencidos nem vencedores. E a música, que se fazia ora agitada e violenta, ora lenta e cadenciada – acompanhando o movimento dos capoeiras, decresce e morre no arranhado macio dos caxixis. Exceto, quando é briga de amor.

      Várias modalidades de capoeiras são praticadas no Brasil, principalmente na Bahia, onde o sangue negro se misturou mais nas gentes para fazê-los amar com intensidade as coisas puras do povo anônimo. São Bento Grande, São Bento Pequeno, Mandinga Lisa e Benguela – jôgo com emprêgo de arma branca – são tipos de capoeira igualmente nobres e responsáveis. E existem escolas muito especializadas como a Academia do Corta Braço, no bairro da Liberdade e o Centro de Capoeira de Angola, na ladeira do Pelourinho. Lá é que o mestre Pastinha, décano dos capoeiras da Bahia, inicia meninotes nos segrêdos da ginga e do bamboleio.

      Há nomes que são sempre lembrados. Samuel Querido de Deus, Besouro, Onça Prêta são citados constantemente pelos mestres atuais da capoeira de Salvador. Manteiga, Inspetor, Chico Zabelê e Mané Urubu, que era de espalhar soldados no arrasta-pé, antes de confinar-se no bairro do capoeirismo baiano.

      História de capoeira nem sempre é alegre, mas a história do Chico Zabelê é que é mais triste. Rápido nos botes como a jararaca êle se fez mais temido do que a cobra perigosa. Fazia mercado, vendendo peixe fresco, que êle mesmo pescava. Se havia sururu com fiscais da Prefeitura e soldados da polícia, era hora do Zabelê dar pernadas para defender os compadres mais fracos. Quando via que a coisa estava preta demais, Chico não se fazia de herói: dava no pé e corria a bom correr. Não sem antes derrubar os mais bravos de funcinbeira no chão.

      Certa manhã, os homens da lei baiana arquitetaram plano sórdido. E quando a briga ferveu pularam magotes de valentões em cima do Chico, enquanto mãoes criminosas cerravam os portões do mercado. A vaga caiu de cheio no Chico que foi dominado e amarrado solenemente pela soldadesca. Aí colocaram o Zabelê deitado, com as pernas apoiadas num tronco liso de peroba. E deram de marreta nos seus joelhos, quebrando-lhe as duas pernas combativas. Tristeza camará.

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      página 5

      BRIGA DE AMOR

      Os negros bantus trouxeram do Condo reservas de gingas, negaças e bamboleios. Tudo dentro do ritual complicadíssimo para agradar aos santos. E era parte importante a música do berimbau, do pandeir e do reco-reco.

      A liturgia crioula foi ganhando angoleses e atemorizando brancos feitores. Negros não podiam portar armas, mas não tinha êsse branco armado e de pé que ganhasse do negro deitado e descalço.

      Veio a invasão holandesa e os negrões andaram mais atrevidos nas Alagoas. E subiram a Serra da Barriga masi de 20.000 quilombolas de ambições republicanas. Criaram uma cidade fortificada, sob o comando de Zumbi. Havia naquelas bandas coqueiros e palmeiras, que deram nome à República dos Palmares.

      Mas os crioulos não viviam só de côcos. Faziam expedições guerreiras para o saque das fazendas da vizinhança. Libertavam os colegas do cativeiro e arrancavam as necessárias provisões de bôca. A capoeira já não era usada apenas como liturgia: virou arma dos guerrilheiros quilombolas.

      Vinte quatro expedições muito bem armadas tentaram destruir a República crioula. E nada. Os negros de pés descalços valiam mais que bacamartes modernos, espadas e cavaleiros. Foram precisos 7.000 portugas dos bravos e um Domingos Jorge Velho para acabar com o Palmares do negro Zumbi e seus capoeiras.

      Correu tempo grande de grandes adultérios. A mestiçgem e a mulataria memos dócil, mais arrogante e mais destra conservou a tradição capoeira para as lutas de rua. D. João chegou, viu a coisa como ia, e temeu pela própria corôa real, por causa dos capoeiras vingadores dos brancos desmandos dos capitães do mato. E baixou decreto proibindo a capoeira.

      As arruanças continuaram, com Pedro Primeiro, Pedro Segundo e recrudesceram com a República proclamada de Deodoro. E o Marechal achou jeito de aquinhoar capoeiras e vadios com prisões celulares de dois a seis meses, com a jurisprudência do Código Penal nôvo. Ser chefe de capoeira e pertencer a bando foi considerado agravante com punição codificada em dôbro.

      Foi quando os primeiros políticos sabidões passaram a usar capoeiras e bambas como cabos eleitorais. E formaram jagunçada experiente para garantias de seus distritos politiqueiros. Deodoro ficou fulo e mandou Sampaio Ferraz desterrar capoeiras politicos para Ilha de Fernando Noronha, como qualquer subversivo de hoje.

      Mas a subversão capoeira já estava enquistada no nobre sangue mulato. Foi a pouco e pouco racionalizada, sistematizada até ganhar fôros de ginástica nacionalista com o surgimento de escolas especializadas. E até «Guia da Capoeira», em letra de fôrma, saiu nas ruas da Bahia, em 1907.

      A capoeira foi virando o grande esporte crioulo da nacionalidade. Mas briga de amor é até hoje o único incentivo da capoeira.


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