• Jornal do Commercio (Manaus)
     Pastinha, com 75 anos de idade, Continua Sendo o «Mestre da Capoeira»
    5-7-1964

    Imagem


    • Leia abaixo!

    Jornal do Commercio, 1964


    O texto

    • página

      -

      Pastinha, com 75 anos de idade, Continua Sendo o «Mestre da Capoeira»
      TAPETE MÁGICO
      Jornal do Commercio (Manaus), 5-7-1964

      Salvador - com 75 anos de idade, e depois de ter mostrado a varias gerações o que é capoeira, o conhecido e já internacional "Mestre Pastinha" deixará a magistratura da autentica capoeira de Angola, fazendo porem questão de afirmar que não vai abandonar por completo a "ginga", para não perder a cadencia e a "velha forma".

      Vicente Ferreira Pastinha - esse o seu nome - é filho de espanhol e desde aos 10 anos de idade dedica-se à capoeira, estando no momento escrevendo um livro, onde, no seu linguajar humilde, relata fatos e curiosidades que anotou nestes seus sessenta e cinco anos de "pernadas," vividos, grande parte, em sua academia, na Ladeira do Pelourinho.

      Deixar, Nunca

      «Não vou abandonar a capoeira - disse Pastinha ao ser abordado pela reportagem - Penso apenas em afastar-me da direção da academia e realizar exibições, pois a vista está ficando curta e não dá mais para essas coisas».

      Foi Marujo

      Vicente Ferreira Pastinha é baiano, nascido a 3 [5!] de abril de 1889, nesta Capital [da Bahia]. É caçula e unico vivo dos três filhos do casal José-Eugenia Sinhó Pastinha, ele espanhol que se firmou na praça como comerciante e ela de Santo Amaro da Purificação.

      Pastinha guarda boas recordações do Liceu de Artes e Oficios, onde aprendeu as primeira letras, e dedicou-se à pintura, vindo mais tarde exercer a profissão, «pois capoeirista nunca foi profissão e naquela época quem a praticava era considerado malandro».

      Aos 12 anos, seu pai colocou-o na Escola de Aprendises Marinheiros, onde permaneceu até quase os 20 anos. Lembrou que, na escola, seu salário era de 75 mil réis, dos quais só recebia 30 pois o restante o governo descontava. Deste dinheiro, colocava 20 mil reis na Caixa Economica e, com o que sobrava, fazia as suas «farras» aos domingos.

      Ainda na Marinha, teve seu primeiro contato com a musica, aprendendo a tocar "trompa", tanto assim que chegou a integrar a bandinha da escola. E com orgulho que fala do seu mestre de musica, prof. Anacleto Vidal da Cunha, pai do conhecido medico clinico Eduardo Vidal da Cunha, recentemente falecido.

      Deixando a escola, foi ganhar a vida no oficio que aprendera no Liceu de Artes e Oficios. Foi ser pintor e, pintando aqui e ali, foi "se defendendo", conseguindo o numerario suficiente para o seu sustento. Daí passou a ser capoeirista.

      O Que é a Capoeira

      Curiosa a definição feita pelo mestre capoeirista sobre a dança:

      «A capoeira - disse - é como politica. Há quem quer sempre ser superior ao outro, para angariar confiança, surgindo dai os desentendimentos tomando o encontro ourto aspectos».

      O que é a capoeira? É dança ou luta? Perguntamos.

      «É de origem africana, sendo sua musica uma parcela do candomblé e do batuque. É dando na alegria, havendo aí necessidade da musica. E os instrumentos que a acompanha são: birimbau, pandeiro, caxixi, reco-reco, agogô, atabaque e viola. É luta, no ódio, sendo então desprezada a musica».

      Como Aprendeu

      Foi um velho africano, que residia proximo a sua residencia, na antiga rua das Laranjeiras, seu primeiro professor de capoeira, isto quando tinha apenas 10 anos de idade. Toda vez que tinha uma folga na escola, ou que descansava o pincel, corria para junto do negro mestre para conhecer novos golpes, novas gingas e outros ritmos.

      Sua historia de capoeirista começa aí. Depois, quando lhe sobrava algum tempo, procurava os companheiros de confiança («capoeira só se joga com gente amiga, diz ele») para divertir-se, sempre com o olho na Polícia, que os tinham na conta de malandros. Assim foi até 1941, quando fundou sua academia propria, em Brotas, reunindo um grupo de amigos interessados. De Brotas, Pastinha levou seu grupo para a Cidade Nova, depois para o Centro Operario no Maciel de Baixo. Porem o sucesso de Pastinha surgiu no Pelourinho, 19, para onde foi há 10 anos.

      A Ladeira do Pelourinho, por sua topografia, mostrando a Bahia de 400 anos atrás com o mesmo calçamento por onde passou D. João VI, já uma atração turistica. Lá, tambem, está a academia de Pastinha, cujo nome corre mundo afora. Quem vai aos domingos à academia encontra sempre turistas. São pessoas de outros Estados do Brasil, da Alemanha, da America do Norte, França, China, Asia e de outros paises, todas interessadas em conhecer os segredos - passa se canticos - da capoeira. De todos os quatro cantos do mundo chegam cartas, a maioria querendo saber se a capoeira é dança ou luta.

      O mestre Vicente Ferreira Pastinha demonstrou contentamento por ver a capoeira tomar novo impulso, saindo do meio da rua, deixando a lama para ir às altas rodas. Disse ser um prazer ver gente branca e de gravata a dar pernadas no ritmo de Angola. Ao despedir-se do reporter, afirmou com firmeza:

      «Capoeira é para homem, menino e mulher; só não aprende quem não quer!»


Flickr Fotos

    Atualizações do blog direto a seu inbox

    Back to Top