• Correio do Povo
     AS ARTES DO VELHO PASTINHA
    5 de maio 1963

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    M Pastinha, 1963

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      AS ARTES DO VELHO PASTINHA
      Ribalta das RUAS
      Antônio Carlos Ribeiro

      Correio do Povo.
      Porto Alegre, 5 de maio de 1963

      Parece que estou falando a só falar em gigantes e pigmeus. O herói até hoje, por exemplo, é um velhinho baiano de um metro e meio de altura, pernas curvas, carapinha branca, alguns dentes a menos, e que anda sempre impecávelmente vestido de linho branco. Um velhinho dêsses para os quais a gente cede o lugar no bonde. E no entanto eu vos afirmo que êste tímido septuagenário é uma parada difícil para qualquer lutador de vale-tudo. O bom homem, em caso de necessidade, não respeita nem faca, nem porrete, porque se transforma numa ágil enguia, e enguia que tem um calcanhar treinado para fazer dormir o brutamontes mais agressivo. Os conhecedores do belo e perigoso jogo da capoeira já terão percebido que eu estou a falar na figura invulgar de Mestre Vicente F. Pastinha, que sabe dissimular como ninguém a sua fortaleza física e, mais ainda, os seus 74 anos bem vividos, animado certamente pela pimenta-brava do vatapá e do acarajé.

      Estou para dizer que Pastinha é um garoto de cabelos brancos. A alma, pelo menos, é limpa e pura como a de uma criança, e os músculos impressentidos são realmente os de um jovem bem treinado. Ao som do berimbau primitivo e dissonante, que o professor Carlos Galvão Krebs nos ensina que é o precursor de todos os instrumentos de corda, Mestre Pastinha se transfigura, torna-se incorpóreo e irreal, mas aí daqueles que não conhecem todos os segredos da capoeira. A nuvem tem pernas e braços empedernidos, que num ápice derrubam o contendor e, se o quisessem poderiam até partir a cabeça dura de um burrico. Mestre Pastinha explica, com indisfaçável orgulho: „Ninguém suspeita a fôrça de um calcanhar!“

      Pastinha iniciou-se na capoeira ainda menino, e desde então vive para êsse jogo, que mais que um esporte é um ritual religioso com marca africana. Enquanto os capoeiristas se digladiam, com as mãos apoiadas no chão e as pernas rodando num estranho ballet, o berimbau vai modulando o ritmo e os companheiros em semi-círculo acentuam o compasso com as mãos e fazem ressurgir as velhas vozes da origem distante. Um belo espetáculo, com fôrça, graça e leveza, que não descubro no judô e no catch – perdoem os seus cultores – mas inegávelmente com a mesma senão com superior eficiência. E, no entanto, êste emocionante e coreográfico torneio andou por muito tempo fora da lei. Não sei onde li que o Marechal Floriano o combateu com a polícia, e hoje penso que a discriminação contra os capoeiristas quem sabe se não teria um fundozinho racial.

      Pastinha foi um dos heróis dessa resistência. Conservou-se fiel à capoeira, fêz centenas de „mestres“, ensinou firme por mais de meio século, e – oh milagre de organização física e de pertináncia mental! – continua no casarão do Pelourinho, no 19, à frente da Academia Capoeira Angola, que hoje figura com realce no roteiro turístico da velha Cidade do Salvador. A capoeira está finalmente reabilitada, com o apoio constante dos folcloristas nacionais, cada vez mais ativos na difusão ciência do „Saber do Povo“, como agora se faz nas sessões do I Festival do Folclore Brasileiro no Rio Grande do Sul.

      Aos folcloristas, contudo, aponto uma campanha corretiva. Buscando as origens do jogo da capoeira, encontrei no Pequeno Dicionário Brasileiro da Lingua Portuguésa uma definição que me parece passível de retificação. Ali está: CAPOEIRA – Jogo atlético em que o indivíduo, munido de navalha ou faca, e com meneios rápidos e característicos, pratica atos criminosos. Ora, isto é uma contrafacção do jogo. Isto podia se pensar nos tempos de Floriano. Mas se o próprio Papa manda revisar o texto de algumas orações, para dêles sanear as expressões pejorativas a outras confissões religiosas e a determinados povos, não vamos permitir que os nossos dicionários confundam o transcendente com o secundário. Está na hora de mudar: CAPOEIRA – Jogo atlético bem brasileiro, torneio de agilidade, que exige reflexos fulminantes e oferece belos efeitos coreográficos. E no finzinho uma breve referência aos maiores cultores da modalidade. Com o calcanhar de Mestre Pastinha puxando terra da frente…


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