• Revista Quatro Rodas
     Quando venho de Luanda não venho só
    dezembro, 1963

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    • Mestre Pastinha reuniu os seus rapazes para uma exibição em regra.

    • O garôto e o seu florão

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    • Calendário das festas

    Revista Quatro Rodas, dezembro 1963

    Texto

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      Tudo começou quando chegaram os escravos, sudaneses principalmente – baussas e nagôs – que na sua terra eram lideres. E numa noite baiana rugio o atabaque do primeiro candomblé, enquanto por perto um negrp rebelde derrubava o sinhozinho com meneios de corpo, rabos-de-arraia e uma cabeçada magistral – a capoeira nascia. Passou o tempo e no laboratôrio primitivo, candomblé e capoeira uniram-se na experiência acre e misteriosa do samba.

      Saravá, meu pai Oxossi! Hoje é segunda feira, dia de Exu e Omolu. Yansã não vai baixar em caboclo encantado, saravá!

      Quem não viu o candomblé, não conhece a Bahia. No terreiro as iaôs dançam, possuidas pelo orixás. Corre, mais ligeira do que os pés, a „jurema“ forte e terrivel, que fecha o corpo – e corre e „aluá“, para aplacar o fogo dos atabaques e do agogô, ferindo os ouvidos como arapongas. Candomblé, na Bahia, é isso: é o lugar em que se celebra a cerimônia, e a própria cerimônia. Continente e conteúdo. E não fale por lá em macumba: candomblé é o nome.

      A história é comprida. Nos tempos em que Bahia e Pernambuco brigavam para ver quem produzia mais cana, o tal fogo já ardia. Os senhores de engenho, a principio, fechavam os olhos: até que era bom que os mandamentos de Cristo, falando em igualdade entre os homens, não alcançassem a senzala. Mas a Igreja insistia, os escravos haviam de ser convertidos, e a situação mudou, o candomblé passou a ser perseguido. O resultado foi que santos brancos apareceram no terreiro dos negros.

      Dois motivos: primeiro, orixá de branco era terno e piedoso, em geral o oposto do sinhozinho que o adorava na capela anexa à casa-grande; segundo, orixá de branco tinho o poder de proteger o candomblé. As autoridades – sem perceber que o negro adorava no Senhor do Bonfim, Oxalá, pai de todos os santos; em São Jorge, Oxossi, deus da caça; em Santo Antônio, Ogum, em São Bartolomeu, Oxunmarê, assim por diante – não se atreviam a investir contra os seus santos. Edson Carneiro, que é autoridade no assunto, escreveu: „A assimilação com o catolicismo continua a verificar-se até hoje, e até em maior escala: tendo começado como subterfúgio para escapar à perseguição policial, torna-se cada vez mais uma segunda natureza. Assim podemos encontrar altares católicos em todos os candomblés; todos os orixás têm correspondente entre os santos da Igreja; a Cruz, a Hostia, O cálice, os episódios da Arca, do nascimento e do batismo de Cristo são relembrados nos canticos, especialmente nos canticos em português“.

      Os candomblés baianos são de muitos tipos e vários ritos. Porém muito mais numerosos os das nações ioruba – nagô em destaque. Mas sofreram muitas influências, a começar pela católica, como se disse, passando pela kardecista – pela relativa semelhança de culto – e incluindo até mesmo a amerindia, que se revela no terreiro caboclo. Terreiros há às centenas, ao que parece – setecentos, dizem – alguns famosos, outros quase clandestinos; alguns para turista ver, e o turista não precisa ser inglês, outros puros, como o Engenho Velho, ou no Gantois, ou no fim da linha das Brotas.

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      o templo é um barracão

      Barracão de madeira, mal iluminado. Piso de tijolos nús. Bandeirinhas de papel de seda nas vigas do teto. Igual a terreiro. Bancos apinhados de gente. As vêzes, mulheres de um lado, homens de outro. Três atabaques num canto, perto das cortinas de estampado. Enfileirados, como canos de orgão. Rum, o atabaque maior, lê o menor, rumpi no meio. Um agogô e uma cabaça de cuia. Orquestra completa, comanda o alabê. Sujeito importante está aí. Em geral, pessoa influente. Homem público, às vêzes, ou artista. Êle é o ogã. Protege o candomblé. Funciona como conselheiro. Em alguns candomblés, é primeiro ministro de um cabinete de doze membros, os obás. Jorge Amado é obá. Mais importante do que ogã e obá, só mesmo a mãe-de-santo, ou babalorixá. Há também pais-de-santo, mas a predominância feminina é absoluta. Candomblé é de mariarcado.

      Agora há silêncio no terreiro. Alguém coça as pernas irritadas pela madeira áspera dos bancos. Por enquanto não acontece nada. Aqui. Mas num quarto afastado a cerimonia secreta, a mãe-de-santo e axogum, o sacrificador, decepam cabeça de galo, pombo e bode. O sangue gordo e quente escorre sôbre as pedras dos orixás. Rolam cabeças de animais. Olhos mortos como bolhas turvas. Penas mortas. Peles mortas. Penas mansas de pombos, penas raivosas de galos, peles fofas de bodes. Empapadas de sangue. Não há músculo, não há vôo, não há vento que as faça vibrar.

      O sangue chama os orixás. E Exu? Também, e ai é que são elas. Exus Mojubá, Barabô, Juá Maromba, Chefe Cunha, Maioral, como quiseram. É preciso afastá-lo. Não é mau. Mal educado, isso que êle é. Pode causar estragos. Pode querer brincar numa hora que não é de brincadeiros. Exu é capaz de exageros. Se no porto um marinheiro larga um palavrão barraco, se uma preta gorda escorrega na Rampa, tenha certeza, é molecagem de Exu. Uma garrafa de dendê, outra de cachaça, uma tijela de farinha. Despeja-se o conteúdo na porta do terreiro. Barabô é também glutão. Com êsse despacho, não vai mais entrar.

      Rum, rumpi e lê estão calados. Mas de repente entram as iaôs, as filhas-de-santo. Num farfalhar de saias ricas. Num tilintar de colares. Os atabaques estouram. São pacientes, até certo ponto. Agora ninguém os segura mais. As iaôs dançam e cantam, três cantigas para cada orixá, convocando-os no terreiro. O povo se assanha e bate palmas, que estalam forte, marcando o ritmo. A babalorixá sacode campânulas agudas, como se fossem batutas. A cadência raspa a pele da cabeça, explode no agogô. É um ruído imponente e soturno que enche o espaço sem deixar frestas. As saias enchem-se de ritmo, carregam para o alto as iaôs. Tudo gira sôbre ondas de renda e seios arfantes. Rostos como piões. Braços negros como mastros de uma frota no furacão. Uma iaô revira os olhos, num relâmpago branco, leva as mãos às temporas, cambaleia saindo do ritmo. Treme em convulsões. Agora ela é o cavalo de um santo negro. Baixou um orixá, tomou as feições da sua filha. Mas é êle, o santo, que dança e canta. Um a um, os orixás vão descendo. O terreiro não é mais um pobre barracão enfeitado de bandeirinhas de papel de seda. Os deuses se encontram pisando descalços os tijolos da olaria de Itapagipe, com a dignidade de milênios curtidos no além. Como se pisassem em tapêtes – ou nuvens.

      iaô sonha com orunkó

      Esta é a primeira parte do ritual do candomblé. As iaôs tomadas vão sendo retiradas do terreiro, cada uma pela sua ekedê, que é uma espécie de madrinha, incumbida de protegê-la de acidentes e de vestí-la com os trajes que identificam o orixá que a iaô representa. A iaô é noviça, ou iniciada nos mistérios do candomblé. Sòmente depois de uma série de privações, de um severo aprendizado que chega a durar seis meses, fica preparada para receber o seu santo. Aos dezessete anos, mais ou menos, certas mocinhas começam a apresentar estranhos sintomas, que nada mais são do que fenômedos mediúnicos. Isso não escapa às mães de santo, que a chamam à sua presença e fazem o convite para que elas passem a servir os santos. Uma recusa é muito rara. Trancadas, isoladas de qualquer contato com o mundo exterior, as môças têm seu cabelo raspado e a cabeça banhada em sangue de animais e pintada de azul e branco. Tomam banho de magdrugada, num riacho, e depois, numa dependência inviolável do terreiro, aprendem os cantos e as danças e a língua nagô, e ouvem as preleções da mãe de santo é tão rigoroso que as iaôs perdem a razão, falam como criancinhas e têm acessos quando tirma dos tornozelos a pulseirinha de guisos (xacrô) que é sinal de sujeição ao candomblé.

      Mas chega o dia em que a provação tem fim. É o orunkô, festa famosa em que a iaô dá nome a seu orixá. Na manhã seguinte, lá estão as filhas-de-santo na igreja do Bonfim, ajoelhadas diante do altar. Finalmente consideradas feitas, santificadas, prontas para receber orixá a qualquer hora que soe um atabaque no terreiro.

      A côrte celestial do candomblé envolve um número considerável de santos, ou deuses, ou heróis místicos, todos êles liderados por Oxalá, que no sincretismo baiano se identifica com o Senhor do Bonfim, ou mais raramente, com Espírito Santo. Pais de todos os santos, quando desce no terreiro a iaô se cobre de branco. Em geral, se apresenta de duas maneiras: ou como Oxalufã, velho cansado e curvado, apoiado num bordão; ou Oxaguinha, moço alegre carregando nas mãos um pilão de metal. Atrás dêle

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      os grandes da sua côrte, do seu olimpo ingênuo e terrivel. Xangô, por exemplo, deus das tempestades, raios e trovões. Santo curioso e ambivalente (macho e femea), veste calças por baixo da saia. Exigente na comida, serve-se sòmente de carneiro, galo, cágado e omalá, um caruru especial.

      Sua insignia: um machado com asas. Côres: branca e vermelho. Oxôsse é deus da caça, representado nos terreiros pela imagem de São Jorge. Sua festa decorre no dia de Corpus Cristi. Vaidoso no vestir, usa peças azul, verde e vermelho vivos, um manto longo nos ombros e às vêzes chapéu de couro. Ogum, deus da guerra, identificado também como Santo Antônio, que na Bahia é capitão do Exército Nacional, sempre aparece com uma espada, duelando enquanto dança. Patrono das artes manuais, veste-se de azul escuro. Omòlu é o deus da bexiga e médico dos pretos, popularissimo entre os crentes. Com festa a 16 de agôsto, quando desce à terra obriga a uns a usar um longo capuz de palha até os ombros. Irôko, „a gameleira branca“, embora seja bastante difícil de aparecer, é logo reconhecido pelo modo de dançar: de joelhos e coberto de palha; identificado (nem sempre) com S. Francisco de Assis. Oxunmarê, „o arco-iris“ é S. Bartolomeu para os negros, com festa a 24 de agôsto. Criado de Xangô, assume para os crentes a forma de uma serpente. Sua roupa é branca com conchas amarelas e bugios carregando um tridente na mão.

      Os orixás femininos são conhecidos como viabás. Nanã, a Senhora de Santana, é mais velha das mães dágua e dança sempre como se tivesse uma criança nos braços, com roupa azul-celeste e branca; festeja a 26 de julho. Yemanjá, a mais popular, nela concorrem cultos africanos, europeus e ameindios. Usa roupas azul e vermelho com enfeites de contas dágua, espada e leque (abébé) com uma sereia recortada no centro. Yansã é mulher de Xangô, irrequieta, empreendedora, adorada pelas mulheres. Seus símbolos: uma espada de cobre e um rabo de boi; festa a 4 de dezembro. Oxúm, deusa adolescente, assemelha-se a Senhora das Candeias, chupa cana e seu assento está sempre cheio de brinquedos. Tem festa a 2 de fevereiro (já deu samba) e surge também como Oxún-Apará, com leque e espada, sendo então considerada uma Oxun que vive na estrada em companhia de Ogún. Veste-se em qualquer dos casos de amarelo-ouro. Ossãe, a dona das fôlhas, foi nacionalizada e fundiu-se com a Caipora brasileira. Sua roupa é de chitão nas côres rosa e verde, fuma, bebe mel e cachaça. Obá, guerreira, tem uma longínqua semelhança com Joana d’Arc. Não possui uma das orelhas, que cozinhou para conquistar o amor de Xangô. Não se sabe se deu resultado. Carrega espada e escudo e costuma esconder aí a orelha esquerda decepada.

      rum, rumpi, lê com a palavra

      Quando os iaôs voltam ao terreiro, vestindo os trajes e agitando os símbolos dos orixás, tudo volta a ser como antes. Os deuses dançam entre o povo, alguns cumprimentam os presentes. Um alcança com os olhos uma criança encolhida no colo da mãe. Estende as mãos, apanha-a. Olha firme para o rostinho que não tem medo. Levanta-a alto, pronuncia palavras indecifráveis. Devolve-a à mãe, que agradece, aliviada. Há quem sorria, com a condescendência dos santos. E há quem pule do seu banco para cair na dança. Como uma mocinha que está sentada perto de nós. Atira-se na tempestade, no grande ruído, aos gritos, os olhos revirados. Iguaizinhos aos das iaôs. Depois abate-se no chão. Delirando. O povo não se assusta. Redobram as palmas.

      O ritmo vai-se abrandando. Quase sem que a gente perceba. Cantigas mais arrastadas. Estilos de palmas mais espaçadas. O terreiro serena-se. Volta a ser barracão. As filhas de santo recompõem-se, exaustas, pingando suor. É como se acordassem. Os atabaques gaguejam, morrem as vozes nas gargantas roucas. Os orixás estão permitindo que o candomblé termine. E termina. O povo vai embora. Alguns ainda ficam em volta da babalorixá e são convidados a participar da refeição condimentada com o sangue dos animais sacrificados, vatapá, caruru, galinha de xinxim. Ou têm acesso ao peji, santuário do candomblé, para rezar aos pés das estátuas dos deuses. A babalorixá fuma o seu charuto. Os olhos na fumaça. No fim, fica sòzinha. Todos se retiram e nós também, numa enfiada pela noite quente.

      „no creo en brujas, pero...“

      Há sempre uma pergunta: realidade ou mistificação? Roger Bastide, pesquisador seríssimo e grande conhecedor das coisas da Bahia, diz que „o êxtase das filhas-de-santo é, de fato, real. Tudo o que se fêz ou se disse no decorrer da crise é esquecido ao despertar“. O étnologo Vivaldo Costa Lima acrescenta que „no ciclo das festas de Xangô, no terreiro de São Gonçalo, há uma cerimônia impressionante, só ali realizada, em que as filhas de Xangô, possuídas, dançam com um panela que contém matérias em chamas, na cabeça. O fogo não as atinge e nem lhes queima as mãos com que seguram a panela fervente. Depois, dançando ainda, ingerem mechas de algodão embebidas em azeite e acesas. Essas provas evidenciam a todos que o transe que as acomete – portanto o santo que elas têm – não é simulado.

      O leitor que tire as suas conclusões. Nós repetimos o ditado espanhol: „No creo em brujas, pero que las hay, las hay“.

      capoeira foi de briga

      Capoeira foi luta de verdade. Porém, ardilosa e sutil, disfarçou-se de dança e jôgo. Os negros brincavam de Angola, como se dizia, diante dos senhores. Êstes sorriam. Que espetáculo bonito: um balé fora do programa. Também os escravos sorriam, mas era um sorriso diferente, porque o branco não percebia que a brincadeira poderia virar coisa séria.

      E virou. Às vêzes foi defesa de negro contra a prepotência do patrão; mais freqüentemente foi arma de malandro. Até que dava gôsto ver o susto do pessoal – aí já não era tempo de sorrisos – quando surgia um forrobodó e as capoei

      principais candomblés

      [enquadrado] Em Salvador são inúmeros (e muitos dêles desconhecidos) os candomblés. O mais famoso que se conhece é o do Engenho Velho, de certa forma o precursor de todos os outros, sendo o primeiro a funcionar regularmente. Foi fundado mais ou menos em 1830, por três negras escravas e adotou o primitivo nome de Casa de Mãe Nassô. Naquela época o senhor branco não se metia nos candomblés que eram cercados de mistérios, como a morada do diabo ou coisa de prêto feiticeiro. Mas o tempo passou, veio a libertação, vieram outros candomblés e hoje quando um dêles começa a bater é festa na redondeza.

      Abaixo segue uma relação dos principais candomblés de Salvador. Lembre-se, entretanto, que são lugares de respeito e representam para os crentes o mesmo que para você representa a sua igreja. E no caso de você pretender fotografar peça licença antes ao dono do terreiro: muitas vêzes isso é proibido pois perturba os trabalhos. Mais um detalhe: os candomblés não batem em dias certos, geralmente. Portanto, solicite antes informações para sua visita no Departamento de Turismo, no belvedere da Praça da Sé.

      [lista dos candomblés]

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      ras entravam em ação. A polícia passava máus bocados: cada bate-fundo que havia e aconteciam rasteiras, rabos-de-arraia, para liquidar com os soldados. A capoeira chegou a ser proibida severamente. Mas que nada. Camuflou-se mais uma vez. Procurou o apoio da música para dar a entender que não era de nada. Voltou a ser dança e jôgo. Assim sobreviveu e acabou conquistando muito branco, que a praticava como hoje se pratica luta japonesa, por esporte. Adepto de capoeira foi até mesmo o Barão do Rio Branco, que de todos os brancos que aderiam ao jôgo dos negros, foi sem dúvida o mais ilustre.

      Embora recebendo às vêzes cunho regional, inclusive em seu canto e dança, ainda se encontra em Salvador a capoeira autêntica, tal como foi trazida da África pelos escravos. Entre os muitos que tiveram ciência disso (e se convenceram que capoeira é lutador perigoso) estavam os gigantescos soldados norteamericanos que durante a guerra apareceram na Bahia. Fizeram pouco caso dos crioulos subnutridos, de canela fina e acabaram estendidos nas ladeiras de Salvador com a cabeça quebrada. Muitos morreram em ação nas ruas da Bahia e até hoje as famílias dos extintos ignoram (felizmente) o que realmente aconteceu...

      „Mestre“ Pastinha é um crioulo enxuto, baixinho, irrequieto, dono de uma Academia de Capoeira de Angola. Sua luta não admite regionalismo; é pura, talvez em memória de seus antepassados. O salão fica num dos sobrados do Pelourinho, por êle mesmo decorado com quadros explicando os vários golpes, „desenhando por êsse seu criado, sim senhor“... Como mestre no assunto Pastinha explica:

      – Quem disse que um capoeirista não foge? Foge. Êle é antes de tudo um brigador vivo; quando a coisa encrespa, recua para depois atacar de nôvo. E na corrida (o outro atrás), pára de repente, a mão esticada; na ponta da mão, uma faca. Depois vai dizer ao delegado que não matou ninguém: o outro é que estava correndo muito depressa e se espetou sòzinho...

      – Mestre, conta para nós quantos golpes existem na capoeira.

      Pastinha ginga, dá uma volta, abaixa-se e súbito: – Môço, não é possível dizer, não tem número. Cada golpe que a gente dá, duas defesas já estão preparadas; e para essas duas defesas, mais quatro golpes. A gente improvisa e vai pensando enquanto luta. Quem não pensa no que vai acontecer, acaba no chão. Muitas vêzes quero que o aluno repita o golpe que acabou de dar e êle não sabe mais: foi improvisação do momento...

      – E quando a gente consegue agarrar um capoeirista, como é que é?

      – Me agarre môço, que eu mostro. – Seguramos o mestre com firmeza e êle parece todo mole, escorrega, não oferece ponto de apoio. Num instante está fora do abraço e solta uma rasteira que se não fôsse de mentirinha estariamos bem arranjados...

      – Viu como? – diz numa risada. Não preciso contar o resto.

      [enquadrado] locais de capoeira

      Agora atração turística, a capoeira tem locais próprios de apresentação para você assistir. Geralmente cobra-se uma média de Cr$ 200 por pessôa para um belo espetáculo não se limite apenas a assistir; procure o chefe do grupo, peça explicações que êles se sentirão satisfeitos em ver que você se interessa pelo jôgo.

      Mestre Pastinha – Largo do Pelourinho, 19. Exibições às terças, quintas e sexta-feiras a partir das 19 horas; aos domingos das 15 horas em diante. O mestre prontifica-se ainda a ensinar a qualquer turista os principais golpes do jôgo em aulas de uma hora. Preço Cr$ 2.000 por aula e vale a pena.
      Canjiquinha – Departamento de Turismo, Belvedere da Sé. Exibições às quartas-feiras a partir das 20 horas; domingo, das 15 horas em diante.
      Valdemar – Cortar Braço, bairro da Liberdade. Horário de exibições: quintas, das 19 horas em diante; domingo a partir das 15 horas.
      Mestre Bimba (capoeira regional) – Alto do Nordeste; exibições aos domingos pela manhã.

      berimbau é côro grego

      Os bons capoeiras jogam sempre de branco. Voam pelo ar, rastejam, voltam a elevar-se no espaço, deixando Newton a coçar a cabeça, caem, rodopiam. No fim da exibição, que pode durar horas, estão impecáveis, calças e camisa imaculadas, como quando começaram. A regra é esta: o corpo não toca o solo. Há mais: os jogadores não podem apoiar-se no chão com as mãos e os pés ao mesmo tempo.

      E não falta a música, que é côro grego do espetáculo. Os cantos, via a regra, são versos curtos, de ritmo apressado. Associando o canto ao movimento da luta, o berimbau é parte mais importante, agindo como maestro no comando dos golpes. Assim, se toca o chamado São Bento Grande, jôgo é vistoso, amplo e ligeiro; Banguela chama o jôgo para adestramento a golpes de faca; Santa Maria dá a deixa para o jôgo baixo, rastejante, de avanços e recuos; no São Bento Pequeno está o samba de capoeira; na Ave Maria, o jôgo compassado; Iuna é rasteiro e Amazonas jôgo médio. O berimbau funciona ainda como alarme, relembrando a época em que a polícia proibia a capoeira. Toca então a Cavalaria, denunciando a proximação de estranhos.

      O berimbau já foi de bôca e hoje é de barriga. Um arco retêso, com uma cabaça pintada, no ponta. Os crioulos vã tangendo a corda bem esticada com uma moeda de cobre, aproximando ou afastando a cabaça da barriga, que funciona como caixa de ressonância. Não falta um contôrno de pandeiros e reco-recos. Às vêzes até uma viola entra na jogada.

      Os golpes são muitos, como diz Pastinha. Quantos, é duro dizer. Raimundo Magalhães Júnior transcreve no seu livro „Deodoro, a espada contra o Império“, pág. de Coelho Neto que vale a pena lembrar. Aí vai: „Os grandes condutores de malta – guiamuns e nagôs – orgulhavam-se de seus golpes rápidos e decisivos e eram êles, na gíria do tempo: a cocada, que desmandibulava o camarada, ou, quando atirada ao estômago, o deixava em síncope, estatelado no meio da rua de bôca aberta e olhos em alvo; o grampeamento, lanço de mão aos olhos com indicador e o anular em forquilha que fazia o mano ver estrelas; o cotovêlo em aríete ao peito ou flanco; a joelhada; o rabo-de-arraia, arisco com que

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      Ciríaco derrotou em dois tempos, deixando-o sem sentido, um famoso campeão japonês de jiu-jitsu; e eram rasteiras, desde a de arranque, ou tesoura, até a baixa, ou baiana; as canelas e os ponta-pés em que alguns eram tão ágeis que chegavam com o bico quadrado das botinas ao queixo do antagonista; e ainda as bolachas; desde o tapa-ôlho que fulminava, até a de beiço arriba, que esbocinhava a bôca ao puaia“.

      ...e nasceu o samba

      Um feiticeiro qualquer (porém genial) misturou o bamboleio da capoeira, o batuque do candomblé, esperou alguns anos de fermentação e nasceu o samba. Claudicante, impreciso, os próprios negros – os inventores – não sabiam direito o que era. Mas o ritmo agradava, as crioulas saracoteavam e certa vez, numa roda de capoeira, os brigadeiros pararam cansados e por acaso alguém que levava um atabaque para um terreiro, parou e espiou. Para animar, desceu a mão no couro esticado; a roda abriu, uma mulata assanhada pulou no centro imitando os capoeiristas e rebolando por conta própria. A turma em volta gostou, lascou palmas aconhando o saracoteio e um outro, tido como inteligente, soltou um versinho que a turma repetiu, a mulata rebolou ainda mais. E pronto. Todo dia era aquilo: depois da capoeira surgia a roda, a mulata, o atabaque, e o ritmo gostoso, que foi vício, foi moda dos pretos, dos brancos, saiu da Bahia e adquiriu outra feição, harmonizou-se, ficou mais gostoso. E quando voltou novamente encontrou a roda ainda em função, com as palmas e pratos que os mais entusiasmados tinham invetado (para dar mais ritmo). Os versinhos, alguns tinham se tornado clássicos: as letras curtas e o côro respondendo a tirada durante muito tempo, assim:

      „Minha vaca Laranjinha,
      Seu bezerro quer mamá – berrou!“
      E o côro responde:
      „Qué mamá – berrou!
      Qué mamá – ô, berrou!“

      Outras ganharam nomes curiosos como partido-alto, partido-baixo, corta-jaca etc. Mas o nôvo samba empolgou e o de roda, coitado, ficou relegado a segunda plano, chamado até de brincadeira e aparecendo sòmente nas festas populares e bailes de família, com todo seu sabor de „puro baiano“.

      Aí apareceu Dorival Caymmi – mas ao certo o sobrenome deveria ser Caimi, porque Dorival tem bisavô italiano – e o samba teve o seu arremate, um toque final e perfeito, requintado e simples ao mesmo tempo. A Bahia começou a coisa e de certa forma terminou também, porque é meio dificil imaginar algo melhor que o Caymmi. E a êle a cidade do Salvador deve muito da sua popularidade, porque o homem saiu por aí contando coisas da sua terra, e contou tão bem que hoje há gente que ama a Bahia sem nunca ter estado por lá. Dorival costumava andar pelas madrugadas, subindo e descendo as ladeiras, cheirando a maresia, escutando o ranger dos mastos dos saveiros. Tudo inspirava uma canção, para quem tivesse fôlego. Êle tinha. Então perguntou: Você já foi à Bahia, nega? Não? Então vá... Quanta coisa a nega vai encontrar... Desde 365 igrejas até a lagoa do Abaeté, „arrodeada de areia branca“. Saindo da água parada, Caymmi caiu em cheio no mar de Itapoã, diante dos coqueiros que dão saudade, agitados pelo vento que joga flôres no colo das morenas. E reparou que há jangadas que voltam sós, mas que afinal é doce morrer no mar, apesar das lamentações de Rosinha. E que, se há jangada que volta só, outra há que sai para o mar, para trazer de volta um peixe bom. Caymmi é um poeta e é também um jornalista, autor de uma insuperável reportagem musical. Com Dorival Caymmi, a Bahia dá as cartas do samba. Mas não fica por aí, entra nos domínios sofisticados da bossa-nova e sai-se com um João Gilberto que é um mestre da nova batida, baiano da gema. Por outro lado, quem não é baiano, sente mágoa, procura fazer-se perdoar e acaba cantando a Bahia, como Arí Barroso. É dêle um dos sambas mais acertados e famosos, Na Baixa do Sapateiro, que entrou numa fita de Walt Disney, foi interpretado até por Bing Crosby, deu a volta ao mundo – e deixou muita gente, lá fora, a sonhar com „morenas frajolas“.

      o carnaval chegou

      E o final de tôda essa história acaba no carnaval baiano, onde os ritmos se fundem, o samba passa para marcha e até os candomblés saem às ruas em cordões entusiásticos: a Bahia se transforma e rivaliza em animação com o Rio de Janeiro. A coisa começa com a grande festa do Rio Vermelho, o grito de carnaval da Bahia. Nessa ocasião já aparecem os cordões e as primeiras fantasias. Depois esquenta mesmo. E no sábado, às 9 horas da manhã parte o primeiro defile de cordões, batucadas, afoxés (blocos dos terreiros de umbanda), préstitos de grandes e pequenos clubes, escolas de samba e trios elétricos, na disputa do prêmio instituído pela Prefeitura. Na Praça da Sé (onde tem lugar o julgamento) a batucada toma conta do povo. Há quem caia na dança, misturando-se aos passistas. Outros providenciam suas cadeiras que trazem de casa e deixam nas ruas onde ninguém mexe. Até a madrugada de quarta-feira de cinza.

      O primeiro trio elétrico surgiu há muitos anos. Aconteceu que no meio da folia geral, apareceu um caminhão com três pessoas, uma delas tocando doidamente num violão elétrico um sambadinha comercial. O povo espiou, gostou, a música era contagiante e lá se juntou um grupo, requebrando ao som estridente do violão. Nos outros dias, repetiu-se a dose. Foi um sucesso. No carnaval seguinte vários caminhões sairam à rua com o mesmo número de músicos e o indefectível violão elétrico. O povo em massa acolheu a inovação que a partir dai ganhou o nome de „trio-elétrico“ (alusão ao violão). Hoje o sucesso continua, muito embora não se tratem mais de trios e sim de conjuntos completos em caminhões abarrotados e enfeitados que aumentam em muitos gráus a alegria popular. E no finzinho da folia, quando o sol de quarta-feira começa a raiar, os trios despedem-se do povo. Entram pela rua Chile com centenas de foliões atrás pulando, berrando o sambinha famoso e agarrando pelas pernas o carnaval que está fugindo, até que na virada de uma esquina o caminhão segue e o povo fica danda adeus, nisso surge um segundo caminhão que também vai recolher e o pessoal cai no samba rasgado novamente. Essa repetição cada vez mais alegre prossegue até que todos os trios tenham desaparecido e as beatas surjam, aos pulinhos, nas ruas salpicadas de confeti, a caminho da primeira missa de cinzas.

      [a legenda da foto] Carnaval baiano rivaliza com carioca


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