• Revista O Cruzeiro
     PASTINHA, O MESTRE DA CAPOEIRA
    4 de maio 1963

    João Oliveira dos Santos (João Grande), Raimundo da Virgem Natividade, Manuel de Carvalho, Albertino da Hora e Mestre Pastinha numa reportagem famosa sobre Capoeira Angola em 1963!


    Imagens

    • PASTINHA, O MESTRE DA CAPOEIRA

      Nas duas fotos em pé:
      João Grande
      Raimundo da Virgem Natividade
      Manuel de Carvalho
      Jogando: M Pastinha e Albertino da Hora

    • Leia o texto abaixo

    • Na foto à esquerda em pé:
      Raimundo da Virgem Natividade
      Manuel de Carvalho
      Jogando: Albertino da Hora e M Pastinha

      Na foto à direita em pé:
      Raimundo da Virgem Natividade
      Manuel de Carvalho
      Albertino da Hora
      Jogando: M Pastinha e João Grande (encoberto)

      Leia o texto abaixo

    • Da esquerda para direita:
      João Oliveira dos Santos (João Grande)
      Manuel de Carvalho
      Albertino da Hora
      Raimundo da Virgem Natividade
      Mestre Pastinha
      Igreja de S. Bárbara, Salvador

    O Cruzeiro, 4 de maio 1963

    Texto

    • página 2

      -

      Texto de ACCOLY NETTO

      Fotos de JEAN SOLARI

      No bôjo de pau dos navios negreiros do século XVI, chegaram à Bahia os primeiros capoeiristas. Vinham de Angola, eram guerreiros, que usavam os pés e a cabeça, em vez das mãos, como o europeu, numa luta agilíssima, de efeitos mortíferos surpreendentes. Em princípio sofreram preseguições e repressões, por parte dos senhores de engenho, da polícia imperial e depois da republicana; mas os negros, em sua malícia ilimitada, encontraram nas pantominas e nos ritos religiosos, acompanhados de música, uma eficaz camuflagem para a capoeira.

      Ao som de berimbaus-de-bôca e de palmas, os lutadores se exercitavam, numa movimentada e fascinante coreografia feita de gingas, saltos, bamboleios e incríveis acrobacias. Estavam brincando de Angola, enquanto cantavam nos terreiros: "Quebra milho como gente/Macaco/Macaco quebra dendê/Macacos". E salvou-se, assim, essa belíssima modalidade de luta, com seus heróis de corpo fechado às balas e às armas brancas, no Recôncavo, em Cachoeira ou Santo Amaro. A parte instrumental da música foi enriquecida com o pandeiro, o reco-reco, o caxixi substituindo as palmas. O berimbau-de-barriga, com voz grave em sua corda única, permaneceu como símbolo sonoro de uma época...

      FISIONOMIA severa, pele curtida do sol nordestina, Mestre Pastinha, 73 janeiros bem vividos, transfigura-se num demônio de agilidade, saído das negras florestas africanas, quando vibra a voz cava do berimbau-de-barriga, nas lutas de morte contra o homem branco, terrível inimigo.

      continua

    • +

      página 3

      As velhas ruas de Salvador vivem o "ballet" da capoeira - arte de Mestre Pastinha.

      MESTRE PASTINHA é nome-apelido que Vicente Ferreira tinha, nascido a 5 de abril de 1889. Aprendeu capoeira aos dez anos de idade com africanos, para se defender. (Conta êle que brigava sempre com um sujeito mais forte, muito mais, e sempre perdia. Enquanto golpe vai, golpe vem, no aceso da luta, um mestre capoeirista observa e convida-o a visitá-lo quando tiver tempo, em vez de perder tempo empinando papagaios. Assim foi que tomou gôsto e aprendeu de verdade, vindo a derrotar o inimigo. Isso tudo nos idos de 1910 [1899-1902!] mais ou menos.) Em 23 de fevereiro de 1941 fundou a academia Centro Esportivo de Capoeira Angola. Desde então pratica diàriamente. (Recomeçou a ensinar a arte dos angolas em 41, pois já a lecionara e praticara algum tempo, até 1912.) Sua profissão: pintor, mas a cegueira de um dos olhos obrigou-o a abandonar o pincel em 1923. Estado civil: casado + 6 filhos adotivos. Em 1922 [1902!] sentou praça na escola de aprendizes de marinheiros, na Bahia, onde foi músico (virtuose de trompa), e em cuja escola regimental acabou por instruir-se. Ao mesmo tempo ensinava capoeira aos colegas. Deu baixa e continuou na capoeira dias-santos, feriados e domingos, enquanto os dias úteis eram dedicados ao ofício de pintor. Abêré, em 1941, entregou-lhe a capoeira, apoiado por muitos mestres, no fim do bairro Liberdade. Tem a capoeira por brincadeira, não a trocando por nada, porém. Por fim, conselho e conclusão de Mestre Pastinha, sua experiência e amor à arte: O bom capoeirista deve tocar, cantar, improvisar, escrever e desenhar a capoeira e ter muita fôrça de vontade. Só não aprende quem não quer, homem, mulher, meninos e crianças.

      ASSISTIDO pelos músicos e comparsas, João Oliveira dos Santos, Raimundo da Virgem Natividade, Manuel de Carvalho e Albertino da Hora, Mestre Pastinha revive nas ruas empedradas de Salvador as proezas incríveis dos capoeiristas africanos. Descendo (à direita) as escadarias da Igreja de S. Bárbara, reverenciam a deusa Iansã.

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