• Jornal do Brasil, Rio de Janeiro
     CAPOEIRA: JOGADOR DE CATEGORIA NÃO SUJA DE BARRO A ROUPA BRANCA
    Mestre Pastinha revela alguns segredos da luta famosa
    5 de março de 1961

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    M Pastinha, 1961

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      «CAPOEIRA: Jogador de Categoria Não Suja de Barro a Roupa Branca»
      Mestre Pastinha revela alguns segredos da luta famosa

      Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 5 de março de 1961

      Irênio Simões
      Desenhos de Carybé

      DOS DICINÁRIOS

      CAPOEIRA: - Gaiola grande ou casinha onde se criam ou alojam aves domésticas; espécie de cêsto para resguardo dos cabeças dos defensores de uma fortaleza; escavação guarnecida de esteiros; mato que foi cortado ou destruído; mato fino e talo; ave de família dos odontoforideos; jôgo atlético em que o indivíduo, munido de navalha ou facas, e com maneiros rápidos e caracteristicos, pratica atos criminosos.

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      PARA comêço de conversa, façamos logo a apresentação: Vicente Ferreira Pastinha, mulato, corpo esguio, ágil como um gato. A idade, prestem atenção, 71 anos.

      Mistura de português com dose igual de sangue africano nas veias [..] Pastinha é baiano, gosta de dar uma voltas nos "terreiros", respeita os "santos" e não tem hora para comer um galo de xinxim, não por obrigação, mas em homenagem ao dono da festa, seja êle Oxóssi, Ogum ou Xangô. Crê nos poderes de Iêmanjá e sabe que não se brinca com Exu, nem se deve fazer pouco caso de "seu" Tranca-rua, ou de qualquer outro senhor de encruzilhadas, que não são poucas nesta velha cidade [..], algumas de apelidos ex-travagantes, outra trazendo poesia nos nomes.

      Mestre de capoeira, Pastinha possui um estilo e a define como sendo o instinto de defesa de uma raça perseguida. De Angola, que é a sua, ou qualquer outra na Bahia praticada, a origem é da Africa e não, como [..] pensam, do Recôncavo, dos engenhos e canaviais de Santo Amaro, ou das Casas Grandes que então se espalhavam na imensa área desta cidade ainda menina.

      E naqueles tempos, jogador de capoeira que possuisse categoria, lutava vestido de branco e quando terminava, não havia uma mancha sequer na roupa.

      No Começo Era Rítmo

      A capoeira teria nascido do sofrimento. No comêço era rítmo escondendo mágoas. Depois, ganhou características de esporte, para imediatamente crescer de intensidade, num colorido de malícia e de argúcia que se transformou em defesa pessoal dos negros que não tinham direito a usar armas de qualquer espécie.

      Foi amassando barro, pisoteando sôbre a argamassa, desviando o corpo à passagem do feitor, ou evitando o bater de ombros no companheiro de trabalho, que a capoeira desenvolveu na Bahia. Nesse momentos assim, cortando cana ou

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      Para PASTINHA, a Capoeira Nasceu Simplesmente do Ódio

      enchendo de lenha a bôca acêsa das fornalhas, os escravos foram adquirindo agilidade e movimentos instintivos de defêsa. Era a capoeira que aqui nascia como estranho bailado, traçando na terra batida das senzalas, a aflição e a ânsia de liberdade dos negros que ainda sonhavam. Dos negros que trabalhavam nus da cintura para cima, ou apenas metidos numa tanga, sob o chicote dos cabos de turmas ou dos feitores desalmados. Dos negros castigados no tronco, ou de lombo descoberto, cortado a cipó.

      Três Estilos

      Mestre Pastinha não se conforma que se pinte de poesia a origem da capoeira. Para êle, ela nasceu pura e simplesmente do ódio. E são três, na Bahia, os estilos: a de Angola, a regional que é criação ou estilização de mestre Bimba, e a estilizada do prof. Sena.

      Tôdas, afinal, da linha Gêge, que é arrastada, monotona, preguiçosa. A de Angola é mais ágil e permite defesa, mesmo estando um parceiro sentado.

      Qualquer que seja a posição de um ataque, a capoeira de Angola oferece condições de revide. Quem aprendeu as suas manhas, não receia coisa nenhuma, nem se assombra com a cara feia de cabra metido a valente. Para quem sabe lutar, tamanho não é documento, do mesmo modo como fôrça não mete mêdo. Tudo depende de agilidade, de atenção e sangue frio. Para um indivíduo armado a faca, capoeirista de categoria não perde tempo: um passo adequado, e eis a arma no chão. O simples gesto de sacar uma arma, é condição para o capoeirista cortar, com o pé em direção ao rosto do adversário, uma curva no espaço. Ou então, com a agilidade de um felino,

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      outro golpe com a perna, rasteiro, trancando e arrastando para a frente, com o pé formando uma chave, o do inimigo que se desequilibra e vai de cara ao chão.

      Ética de Capoeirista

      Todo capoeirista tem seus costumes e suas manhas. Nenhum, porém, foge ás regras do jôgo. Inclusive, é da bôa ética que, ao ser provocado, o capoeirista não revide imediatamente. Antes, êle deve fingir humilidade, deve até mesmo parecer covarde. E é bom mesmo que tente bater em retirada, provocando, desta maneira, o "apetite" do adversário que, supondo enfrentar parada fácil, na primeira investida vai dar com o focinho nas pedras.

      Com efeito, isto que êles chamam de ética, outra coisa não é senão o jôgo do gato com o rato, contra o qual muito valentão tem perdido a fama.

      Quando a luta é entre capoeiristas que se exibem esportivamente, alguns golpes são dados levemente e o mestre para não ser desmoralizado frente aos discípulos, raramente ensina o seu golpe pessoal, e sômente usado em casos de extrema gravidade, o que excepcionalmente acontece quando um capoeirista se embaraça com outro da mesma classe.

      Condições Para Aprendizagem

      - Todo e qualquer sujeito - diz mestre Pastinha - que não sobra do coração, que não sinta tonturas nem agonia, está preparado para aprender o esporte. Quem sabe capoeira, não tem receio de coisa nenhuma. Um "rabo-de-arraia", dado

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      em qualquer sentido, vale mais do que um revólver nas mão de um "coisa" covarde.

      - Por que covarde?

      - Ora, quem atira mais depressa quem mais fácilmente se torna assassino, é homem covarde. O mêdo perde o indivíduo, êle dá para tromer e lá vai o dedo no gatilho, que estando azeitado é doce, e apertado sem querer, vai cuspindo bala e furando gente. Mas, eu queria dizer que todo brasileiro deve saber lutar capoeira, coisa que se aprende desde menino, ou mesmo com idade avançada. É um jôgo de malícia, manhoso e cheio de surpresas. Diferente do judô que é científico, por isso mesmo de movimentos disciplinados, o que não acontece com a capoeira, que é mais instinto. E só a enfrenta quem com ela tem negócio. É defêsa e é arte ao mesmo tempo e por mais que se aprenda sempre há o que se aprender. Para quem apenas quer evitar uma agressão, não há nada que suplante a capoeira, pois um jogador se defende sem precisar tocar as mãos no adversário. Ademais, um capoeirista não perde a calma, age na hora exata.

      Presidente Wilson Lins

      Pastinha foi discípulo, aos 10 anos de idade, de mestre Benedito, negro africano que residia na rua das Laranjeiras. Ensina desde 1910, no tempo de Álvaro Cova. É diretor do Centro Esportivo de Capoeira de Angola, fundado em 1941 e tem como seu atual presidente, o secretário de Educação Wilson Lins.

      Vicente Pastinha não esclarece se o sr. Wilson Lins foi seu discípulo, o que não nos impede de atribuir a Rubião Braz, com aquele seu andar de barranqueiro de São Francisco, qualidades de bom capoeirista, sempre de ôlho matreiro á espera do assalto dos inimigos.

      Mulheres e Berimbau

      Antigamente, muitas mulheres sabiam lutar capoeira. E eram temidas. Quem por exemplo, há alguns anos andava pelas imediações do Mercado Modêlo, deve ter conhecido Palmeirão, mulher alta e amulatada, bagunceira que não respeitava nem mesmo patrulha da Polícia. Ninguém como ela, depois de prender a sáia na cintura, por entre as pernas, deu cabeçadas e atirou soldados e guardos com os costados na calçada da rampa do Mercado. Quando Palmeirão bebia, dava "show" de capoeira, sem acompanhamento de berimbau e reco-reco, instrumento feito de bambo, cuja finalidade é manter o rítmo da luta, indicando a sequência dos movimentos do jôgo.

      Durante muitos anos, a capoeira foi probida pela Polícia, sob a alegação de que se tratava de luta perigosa. A verdade, no entanto, era bem outra, se atentarmos para o fato de que não ficava bem à Polícia confessar que seus guardas e soldados, de quando em vez eram desmoralizados e surrados por capoeiristas exímios, nos rabos-de-arraia e nas cabeçadas no queixo.

      Hoje, a não ser mestre Bimba com a sua escola e Pastinha com seu Centro no Pelourinho a capoeira está morrendo e dentro em breve será apenas um registro folclórico entre as tradições que a civilização faz desaparecer.


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