• Diário de Notícias, Rio de Janeiro
     A CAPOEIRA COMO ARTE
    25 de junho 1961

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    M Pastinha, 1961

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      A CAPOEIRA COMO ARTE
      Diário de Notícias, Rio de Janeiro
      25 de junho de 1961

      Benedito Peixoto

      A GINÁSTICA baseada na capoeira grande diversificação de movimentos, alcançando tôdas as variações de flexões acompanhadas de movimentos acrobáticos, e proporcionando resultados que a ginástica comum não obtem.

      A capoeira é um tipo de luta diferente, original em tudo. Exibe no seu desenrolar a inteligência, as tendências, e o temperamento do homem brasileiro.

      Deve ser classificada mais precisamente como um método de luta de destreza que mesmo um simples luta, visto que possibilita modificações técnicas sempre que fôr necessário à evolução da mesma, assim como tem acontecido com outros tipos de luta, por exemplo, o boxe e o judó.

      Têm todos os esportes de luta as suas características especiais: uns de segurar para derrubar e imobilizar, outros de bater, etc.; a prática da capoeira é de bater e derrubar sem segurar, provocando-se o desquilíbrio. Para golpear emprega-se a cabeça, os punhos, os cotovêlos, os joelhos, os pés e até os ombros, tudo em rápidos movimentos de corpo, velozes deslocamentos das posições.

      O emprêgo da música no jôgo da capoeira, ao mesmo tempo que aumenta o valor de desempenho, dá mais originalidade: dêsse modo a prática se torna mais fácil. A música acrescenta uma amplitude talvez ainda pouco observada, de grande plasticidade esportiva, evidentemente pelo desembaraço de movimentos que proporciona.

      Na luta da capoeira a movimentação é rápida, viva, pronta, num jôgo constante de todo o corpo, com golpes sucedendo-se a golpes, de tal forma que o intervalo entre êles é diminuto, obrigando o homem a pensar rápido para movimentar-se rápido, solicita assim trabalho constante de todos os grupos musculares.

      O que melhor demonstra a excelência da capoeira, é a facilidade, leveza e prontidão de movimentos que o seu executante adquire, podendo com facilidade esquivar-se sucessivamente de posições e das suas colocações, naturalmente pela descontração muscular constante e sentido de equilibrio que ganha com essa prática. Mais que isso, portanto, não é desejável para um esporte de luta de destreza, pois em ação de ataque se tem o que é necessário e em defesa o que é básico.

      Com a facilidade de girar o corpo; levantar e abaixar, parar, avançar, recuar em frações de segundo, fica um homem [..] de alta capacidade de defesa. A facilidade de [..] lhe proporciona desembaraço para desferir dolpes, o que transforma a defesa em ataque. A rapidez, destreza, as ágeis fugas aos ataques e prontas respostas em contra-ataques, são qualidades marcantes da capoeira.

      A prática da capoeira é arrojada, alegre, coreográfica: conseqüência da vibratibilidade, da mecánica, da sensibilidade de ritmo, da capacidade imaginativa do brasileiro. Qualidades que não lhe tornam agradáveis atividades em cámara lenta, sem vivacidade ou colorido artístico, pois que a liberdade de improvisação é uma das características do seu espírito.

      Tem a capoeira sido um vítima de preconceitos. Milita igualmente contra ela a falta de método no seu ensino e de locais adequados à sua prática, embora em Salvador haja alguns arrêmedos de academia. De tôdas destaca-se o Centro de Capoeira Angola, de Mestre Pastinha, bem organizado dentro das limitações existentes. Ao que parece, é êste Centro o único, até o momento, o que conseguiu romper a barreira das discriminações legais e obter registro como sociedade civil.

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      Manuel Vicente Pastinha [correto é Vicente Ferreira Pastinha – velhosmestres.com] é um velhos capoeira, formador de gerações de capoeiras; é um homem pequeno de estatura, com 73 anos de idade, mas com vigor de jovem, pois ainda „brinca“ por longo tempo.

      É um verdadeiro professor e técnico – procura sempre dar uma boa orientação moral aos seus pupilos – dá aulas a domicílio, adaptando o seu ensino, nessas ocasiões, à falta dos instrumentos musicais. O seu Centro, na Ladeira do Pelourinho, é bem cuidado, apresentando ensino equilibrado e metodizado.

      Também na Brigada Militar do Estado é ensinada a capoeira. No Corta Braço e no «nordeste» de Amaralina, encontram-se respectivamente os mestres Traíra e Valdemar; e Bimba, êste, com a sua regional, ao que parece a capoeira em fase de deturpação.

      A figura marcante, entretanto, é o Mestre Pastinha. Êle é carpinteiro de profissão e um artista. Não vive da capoeira, ao contrário. Encheu as paredes da sua academia de quadros com séries de desenhos mostrando seqüências de golpes com a finalidade de orientação do treinamento.

      O seu grande ideal, é a disseminação da capoeira em escola nacional. Para isso conseguir achava necessário a realização de duas coisas: levar a sua equipe de capoeira a viajar pelo sul do país e publicar um livro de ensino dessa luta.

      A primeira realizou há uns dois anos, indo até o Rio Grande, onde fizeram demonstrações, ficando os seus capoeiras hospedados numa unidade do Exército.

      De passagem pelo Rio, Pastinha exibiu-se na Escola Nacional de Educação Física, onde empolgou pela maestria, e assombrou com a sua energia e vivacidade. Pequenos documentários cinematográficos foram feitos nessa oportunidade.

      A falta de um método seguro no ensino da capoeira é o que mais dificulta a sua difusão. Falta essa, entretanto, perfeitamente sanável desde que haja meios para o estudo sistematizado dessa luta.

      Outra dificuldade que se apresenta à competição é a da alta capacidade da capoeira para contundir. A solução para isso também pode ser encontrada. Depende, igualmente, da alguna observação e estudo. Tal coisa não constituiria nenhuma criação ou originalidade. O folclorista e etnógrafo Edison Carneiro, no seu livro «Negros Bantus», já oferecia exemplo de uma regulamentação da luta por êle assistida, havendo ilustrado, inclusive, o livro com o método adotado pelos julgadores, a que chama de sinais cabalisticos. Tais sinais, entretanto, se nos afiguram mais desenhos da posição dos lutadores na ocasião do golpe, parecendo querer determinar com isso, os julgadores, a colocação de um sob o outro em certos momentos, como a cabeçada em contra-golpe a um aú, ou a execução de um balão; a anulação do ataque do adversário, em outros, a boa colocação de um golpe, em mais outro, o que aparece como muito inteligente, embora de difícil execução e sujeito a falhas por necessitar de muita habilidade.

      Na Bahia, os capoeiras resolvem a situação, adaptando a prática dêsse violento esporte de luta a uma condição que o torna o mais inofensivo que se possa imaginar. Outra das excelências da capoeira.


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