• Rio de Janeiro
     Exibição na festa do folklore baiano em Porto Alegre
    10 de abril 1959

    • 21 de agosto, 1959
      Folha da Tarde, SP
      Leia abaixo

    • 21 de agosto, 1959
      Folha da Tarde, SP
      Integrantes do grupo de show:
      M Pastinha
      Bigodinho (Gigante)
      João Pequeno
      Almiro?
      Canjiquinha

    • 21 de agosto, 1959
      Folha da Tarde, SP
      Integrantes do grupo de show:
      M Pastinha
      Bigodinho (Gigante)
      João Pequeno
      Almiro?
      Canjiquinha

    • Diário da Noite, 16-4-1959

      Leia abaixo

    M Pastinha, 1959


    Texto

    • página 1

      -

      QUALQUER PESSOA PODE PRATICAR A CAPOEIRA
      Folha da Tarde, SP
      21 de agosto, 1959

      Afirma ainda o velho mestre de capoeira baiano Vicente Ferreira Pastinha: „Só quem sofre de tontura ou tem coração fraco fica excluido e, se a pessoa tiver reumatismo, acaba pondo-o para fora“ – No tempo dos escravos foi proibido o jogo da capoeira – Da mesma maneira que os negros camuflavam a sua religião com a dos senhores, camuflavam a luta da capoeira com pantomimas e danças – Uma tradição que veio até os nossos dias – O berimbau de barriga – Os golpes

      Qualquer pessoa (e de qualquer idade) pode jogar a capoeira, no dizer do velho mestre de capoeira baiano Vicente Ferreira Pastinha. Não somente o diz como o prova. Apesar dos seus setenta anos, luta ainda e faz constantes demonstrações, como se fosse jovem, e facil foi para o reporter que o foi ouvir em sua escola, na ladeira do Pelourinho, situada na parte antiga de Salvador, perceber que os proprios alunos o temem e respeitam. Ante a insistente afirmação de mestre Pastinha de que a capoeira é o mais eficiente meio de defesa pessoal e de que todos deviam conhecê-lo, «até crianças, para que possam defender-se em caso de ataque às suas pessoas ou aos seus», indagamos se qualquer pessoa poderia aprender a capoeira e a resposta foi aquela.

      Acrescentou:

      - «Salvo se a pessoa sofrer de tontura ou tiver corção fraco. Fora desses casos, todos podem aprender capoeira, usando os proprios recursos que a natureza lhes deu. Se a pessoa tiver reumatismo, custa um pouco mais, mas acaba pondo o reumatismo para fora, a não ser que se trate de reumatismo cronico e incuravel».

      Mestre Pastinha procura ilustrar suas palavras com um exemplo, recordando que, recentemente, em companhia do diretor de Turismo de Salvador, sr. Vasconcelos Maia, grande incentivador do folclore baiano, levou o seu Centro Esportivo de Capoeira Angola ao Rio Grande do Sul, onde fez varias demonstrações com os seus discipulos. Afirma que o interesse despertado foi enorme e que, numa das demonstrações, um garotinho aproximou-se muito dos capoeiristas e ficou espiando com interesse.

      Terminada a luta folclorica, Pastinha chamou o garoto e, ao som dos berimbaus, foi-lhe mostrando e ensinando aos poucos alguns movimentos, inclusive saltos com as mãos apoiadas no chão. Sob o olhar atento dos espectadores (conta ele ao reporter) minutos depois os dois estavam jogando a capoeira e o menininho, embora sem desenvoltura, já evitava os golpes ensaiados do Pastinha...

      EX-MARINHEIRO

      Vicente Ferreira Pastinha, ex-marinheiro, nasceu em Salvador e ali vive até hoje. Informa que em 5 de abril, completou 70 anos. Gosta da capoeira – que considera o melhor esporte e a melhor defesa pessoal – desde a meninice. Recorda que, quando aluno da Escola de Aprendizes de Marinheiro, jogou esgrima, espada, navalha. Não conhece, porem, defesa mais eficiente do que a capoeira. A capoeira que ele cultiva, conforme se depreende de suas palavras, é a capoeira primitiva, manhosa, utilizada pelos escravos no Brasil. Diversos tipos de capoeira são ensinados hoje na Bahia. Mestre Bimba é outro professor de capoeira, procurado pela elite baiana e principalmente pelos universitarios. A capoeira do mestre Bimba é a luta antiga dos africanos com inovações. Nela entram, por exemplo, golpes de judo, o que não acontece com a luta ensinada por mestre Pastinha. Na primeira parte desta reportagem (FOLHA ILUSTRADA de 15 do corrente) já mostramos que Pastinha não toma conhecimento das outras lutas. «Todas são boas, mas eu prefiro a minha».

      IMPORTAÇÃO DA CAPOEIRA

      Poucos são hoje os mestres na Bahia, principalmente da capoeira tradicional, que veio do tempo dos escravos. O artista Caribé escreveu a respeito: - «No bojo de pau dos veleiros do seculo XVI chegaram à Bahia os primeiros capoeiristas. Eram negros de Angola, talvez guerreiros, jogadores dessa luta em que os pés e a cabeça têm a maxima importancia e as mãos passam a segundo plano. Luta eficacissima contra os europeus que quase só empregavam as mãos na defesa e no ataque». (Pastinha afirma que na sua capoeira, lutador que encosta a mão no outro é desclassificado. Já numa demonstração de alunos do mestre Bimba a que assistimos era frequente o uso das mãos).

      ORIGEM DA CAPOEIRA FOLCLORICA

      Caribé prossegue, depois de ressaltar que a capoeira era um meio de defesa eficientissimo dos negros escravos: - «Deve ter sido esse o motivo principal da repressão que sofreu a capoeira nos tempos dos senhores de engenho, da policia imperial e da republicana. Mas não demoraram os negros em encontrar uma solução: da mesma maneira que camuflavam sua religião com a de seus senhores, camuflaram a luta da capoeira com pantomimas, mimicas e danças, acompanhadas de musica».

      Essa é a origem da capoeira de hoje, que chamamos por isso de folclorica. Caribé conta ainda que o feitor, os senhores e as sinhás achavam até bonito e aplaudiam. Na verdade, os escravos treinavam a sua luta de defesa, embora fizessem pantomimas, jogando-se no chão, olhando-se de cabeça para baixo, como fazem até hoje, rissem e dançassem uma dança esquisita de gingados e pulos ou rolassem no chão como cobras. Quem mantem viva essa tradição até hoje é mestre Pastinha e seus alunos.

      A CAPOEIRA É PERIGOSA

      - «Esta luta é primitiva» - afirmou ele ao reporter em Salvador. «É pai e mãe de todas as lutas. Digo sempre aos meus alunos que usem a capoeira apenas como defesa pessoal, não como ataque. No ataque ela é perigosissima. É tão perigosa que até brincando se pode matar sem querer. Por isso ensino os meus alunos a poupar o proximo. A capoeira angoleira é facil e só é preciso que a pessoa seja boa observadora».

      Pastinha, por vezes, interrompe a conversa e ilustra as palavras com gestos e saltos que executa com agilidade de um gato. Como foi contado na reportagem «, ele fala muito em manha na capoeira. A certa altura, disse ainda: - «Cada mestre não dá tudo aos discipulos». Indicou um aluno, dos mais adiantados, e acrescentou: - «Não dei tudo ainda a ele. E ele fará o mesmo. Não confiamos, em nada, principalmente em ambiente estranho. É norma dos africanos».

      PROFESSOR DE CAPOEIRA

      Pastinha, apesar das poucas possibilidades de estudo, pinta quadros e compõe versos, sempre a serviço da capoeira angoleira. Eis um dos seus versos, que ele pintou num quadro, ao lado de desenhos de alguns dos golpes basicos que ensina aos alunos:

      Bahia, minha Bahia
      Capital é Salvador.
      Quem não conhece esta capoeira,
      Não lhe dá o seu valor.
      Todos podem aprender.
      General e tambem doutor.
      Quem deseja aprender,
      Venha em Salvador,
      Procure Pastinha professor.

      INSTRUMENTOS MUSICAIS E LUTA

      Ficariam incompletas essa anotações sobre a capoeira sem uma referencia à musica que sempre acompanha essa luta folclorica e cujos instrumentos evoluiram com o tempo. A principio o som era obtido com berimbau de boca e palmas. Depois o berimbau de barriga com corda de aço substituiu o primeiro e veio até nossos dias, assim como o caxixi, o pandeiro e o reco-reco, que completam os instrumentos que acompanham o jogo da capoeira. O berimbau é quem dita o jogo.

      Vamos dar a Caribé as palavras finais: - «Os que vão lutar escutam as cantigas de cocoras, defronte aos berimbaus, talvez rezando suas «rezas fortes» para se livrar de bala, de emboscada ou faca. Chegam ao centro da roda virando o corpo sobre as mãos e começam o gingado, que é ao mesmo tempo uma guarda e um passo da dança. Se o berimbau toca o «São Bento Grande», o jogo é ligeiro, vistoso. Se o toque é «Benguela», é «jogo de dentro», com faca. Se é «Santa Maria», é jogo de baixo, lento, em que os camaradas se enroscam como minhocas ao rés do chão, sem juntas, caindo docemente, como se fossem algodão. Se é «São Bento Pequeno», a luta é quase um samba. Sob pena de serem desclassificados, os jogadores só podem tocar o chão com as mãos e os pés. Os bons mestres jogam com roupa branca, viram no ar sobre um braço só, passam um por dentro do outro num emaranado incrivel de braços e pernas e quando terminam de brincar, não há uma só mancha na alvura do terno domingueiro.» ABRAM JAGLE.

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      página 2

      Embaixadores da Beleza Vieram Explicar Folclore da Boa Terra
      Diário da Noite
      16 de abril 1959

      [legenda da foto: TRÊS BELDADES - Livia, Guelda e Lirinha, são as três jovens que viajam com a missão de divulgar o folclore da Bahia. Além de bonitas conhecem todos os segredos do candomblé.]

      Muita gente no Rio está interessada em saber quem são as moças que acabam de se hospedar no Hotel Glória. Elas passaram tôda a tarde de ontem na piscina. Não são artistas de Hollywood, mas, em compensação, estão sendo alvo de grande curiosidade. Isso porque são muito bonitas e têm as linhas do corpo que em nada ficam a dever a qualquer estrêla de cinema. Quando elas cairam nágua, e deram algumas braçadas na piscina iluminada, já era quase noite. Os homens que bebiam uisque vieram se assentar nas mesas mais próximas. Uma senhora, que se encontrava nas proximidades, não resistiu e perguntou ao fotógrafo quem eram. O chefe da recepção apenas sabia informar que "são jovens da sociedade baiana". Na verdade, elas não estão a passeio no Rio. Acabam de chegar do Rio Grande do Sul, onde cumpriram importante missão: divulgar o folclore da Bahia. A convite dos "Diários e Rádios Associados" do Rio Grande do Sul elas mostraram aos gaúchos o que é o candomblé.

      AS JOVENS

      Com um copo de laranjada na mão e uma felpuda toalha sôbre o corpo ainda úmido, Livia Sá, uma das jovens, explicou ao repórter:

      - "Acabamos de regressar do Rio Grande do Sul em companhia de um grupo folclórico, integrado por sete pessoas, e que é dirigido por "Mestre Pastinha". Tudo se refere ao incremento do turismo e à divulgação do nosso folclore" - disse com clareza a moça que estuda dança moderna e que, por incrivel que pareça, estuda também contabilidade...

      - "Não basta ser mulher bonita - esclarece Livia muito tranquilamente - Sempre é bom conhecer alguma ciência, pelo menos essa maravilha que se chama candomblés da Bahia".

      O FOLCLORE

      Quem fala agora é Guelda Fraga que tem ao seu lado sua irmã, Lirinha. Tôdas as duas são extremamente bonitas e intelligentes. Diz Guelda:

      - "O "Grupo Capoeira" apresenta um quadro denominado "Festa da Bahia", que é uma verdadeira lição de folclore. Enquanto dançam, passam rasteiras, num autêntico "jiu-jitsu" que impressionou muito aos gaúchos, que também estiveram em Salvador, apresentando o seu folclore típico. Essa nossa visita - esclarece a jovem que é estudante de direito - é uma retribução. Em Pôrto Alegre fomos maravilhosamente recebidas. Estivemos hospedadas no Hotel Umbu, durante quatro dias. Fomos até a "boites"... mas acompanhadas pelo chefe da delegação, o escritor Wasconcelos Maia e sua espôsa. Provamos tôdas as espécies de churrascos e deixamos, também, algumas receitas da genuina cozinha baiana".

      Quanto à Exposição, que possivelmente será apresentada no Rio, consta de gravuras de aspectos baianos; ceramica popular utilitária e decorativa; roupagem de vaqueiro da Bahia; apetrechos de candomblé; ex-votos, que consistem em caras esculpidas em madeira; instrumental de capoeiras; ? do candomblé; "carrancas" do São Francisco"; e muitos outros apetrechos caracteristicos da Boa Terra.

      - "O povo vê a exposição, assiste ao espetaculo de danças, e nós explicamos "a teoria" do folclore" - disse Livinha Fraga.

      As senhoritas Antonieta Nunes e Licia Margarida Maceda de Aguiar, também representam a mulher baiana, nesta "tournée" patrocinada pelos "Diários e Rádios Associados" do RGS, "Mundialtur", "Lóide Aéreo" e o Departamento de Turismo de São Salvador.

      Antonieta Nunes disse ao repórter que conhece todos os segredos da Bahia. Acaba de terminar o primeiro lugar num concurso de "guia-intérprete". Trabalha no aeroporto de Salvador e vende passagens para uma companhia de aviação. A sua beleza é alguma coisa de fazer inveja a qualquer setor de turismo. O departamento de Turismo e Certames do Distrito Federal - disse um hóspede do Hotel Glória - poderá adotar medida semelhante ou, pelo menos, contratar êsse "palminho de rosto" para ajudar o turismo carioca...


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