• Rio de Janeiro
     APRESENTAÇÃO NO HOTEL GLÓRIA
    14 de abril 1959

    • 15 de Abril, 1959
      Correio da Manhã, RJ
      Terraço do Hotel Glória. 14 de Abril, 1959

    • 15 de Abril, 1959
      Diário de Notícias, RJ

      Leia abaixo

    • 15 de Abril, 1959
      Diário de Notícias, RJ

      Mestre Pastinha (de costas, com uma das mãos no chão e a outra levantada), é o mais conhecido capoeirista da Bahia. Com seus 70 anos de idade e 60 de capoeira, mostra que ainda está em forma.

      Terraço do Hotel Glória. 14 de Abril, 1959

    • 15 de Abril, 1959
      Jornal do Brasil, RJ

      Terraço do Hotel Glória. 14 de Abril, 1959

      Leia abaixo

    • 15 de Abril, 1959
      Jornal do Brasil, RJ

      Leia abaixo

    • [continuação]

      15 de Abril, 1959
      Jornal do Brasil, RJ

      Leia abaixo

    • 15 de Abril, 1959
      Jornal do Brasil, RJ

      RABO-DE-ARRAIA

      Os capoeiristas (capoeira também é esporte na Bahia) baianos, mostraram ontem no Hotel Glória como é perigosa ter um desafeto „capoeira“: um rabo-de-arraia bem dado pode até matar

      Terraço do Hotel Glória. 14 de Abril, 1959

    • 25 de Setembro, 1959
      Diário de Noticias, BA

      Terraço do Hotel Glória. 14 de Abril, 1959

    • Terraço do Hotel Glória
      14 de Abril, 1959

    • Terraço do Hotel Glória
      Ano?

    M Pastinha, 1959


    Hotel Glória, RJ (aberto em 1922, fechado em 2009)

    Hotel Glória, Rio de Janeiro


    Texto

    • página 1

      -

      DEMONSTRAÇÃO DE CAPOEIRAGEM
      15 de abril, 1959
      Correio da Manhã, RJ

      – Uma exibição de capoeiragem foi proporcionada ontem à imprensa carioca, pelo Departamento de Turismo de Salvador de pelo Lóide Aéreo. Seis capoeiristas do Centro Esportivo Capoeira Angola dirigidos pelos mestre Pastinha, se exibiram no terraço do Hotel Glória, mostrando todos os „jogos“ da tradicional capoeira angola. Êste grupo, que se encontra de passagem pelo Rio, estêve há dias em Pôrto Alegre, onde se exibiu. A apresentação que está sendo usada como meio de propaganda do turismo para Bahia, foi realizada pelo jornalista Vasconcellos Maia, diretor do Departamento de Turismo de Salvador.

    • +

      página 2

      Na Capoeira o Segrêdo do Ataque Está na „Dança“
      15 de abril, 1959
      Diário de Notícias, RJ

      „MUITA gente diz que a capoeira não é luta, é apenas uma dança. Mas é nesta „dança“, que está o verdadeiro segrêdo do ataque e da defesa, ainda não igualados em outros tipos de luta“. Quem nos diz isto é Vicente Pastinha, o mais respeitado capoeirista da Bahia, não obstante os seus 70 anos.

      Juntamente com os capoeiristas „Canjiquinha“, „João Mais Alto“, „Bigodinho“, „João Segundo“, Almiro e „Vivaldo“, mestre Pastinha fêz, ontem, uma exibição à imprensa de sua „arte“, no terraço do Hotel Glória. O grupo acaba de regressar de Pôrto Alegre, numa excurção promovida pelo Lóide Aéreo Brasileiro, em combinação com o Departamento de Turismo de Salvador. Além dessa parte folclórica, seis lindas morenas encarregam-se de reafirmar em outras plagas o prestígio da beleza da mulher baiana.

      Durante a exibição de capoeira, mestre Pastinha, de fora, prestava ao repórter algumas explicações:

      - „Há tantos passos diferentes que um homem só não pode apresentâ-los. Além disso, cada jogador tem sua „manha“ diferente. O golpe principal é o improviso“.

      Em certo momento, os jogadores apertaram as mãos, e o repórter quis saber se aquilo era cumprimento. „É – respondeu-nos – mas isso tudo é falsidade...“ Mestre Pastinha „joga“ capoeira desde os 10 anos, e é fundador do „Centro Esportivo de Capoeira Angola“, de Salvador, do qual fazem parte os componentes do grupo. Quando alguém perguntou se êle não „jogava“, não se fêz de rogado: tirou o paletó e saltou no meio da roda.

      Os capoeiristas „jogam“ no centro de uma roda, formada pelos ritmistas e cantores. Os principais instrumentos são o berimbau e o pandeiro, também conhecidos como „gunga“ e „borgue“. Para percutir o berimbau, que mais se assemelha a um arco indígena, são o reco-reco, a viola, a castanhola e o „agogô“. As letras das cantigas são igualmente pitorescas:

      - „Iê, contaram a minha mulher/ que capoeira me venceu/ ela bateu pé firme/ jurou: isso não aconteceu“. „Quando eu entro você sai/ quando eu saio você entra/ nunca vi mulher danada/ que não fosse ciumenta“. Nesta altura, o cantor virou-se e disse: - „Isso é uma verdade“.

      O „louvar“ é cantada em côro: „Ê viva meu Deus/ e viva meu Mestre/ êle é Mestre meu/ êle é cabeceiro“. Em seguida, o ritmo acelera: „Cala a bôca, molêque/ moleque é tu/ dá, dá, dá no nêgo/ Ô no nêgo você não dá/ êsse nêgo é danado/ êsse nêgo é valente/ êsse nego é o cão“.

      E é nesta altura que os dois „jogadores“, que até então estavam se estudando, abaixados, plantam as mãos no chão e dão início à capoeira prôpriamente dita. A regra principal: só podem atingir o adversário com os pés.

      [continua]

    • +

      página 3

      O cantor norte-americano Nat „King“ Cole e os capoeiras baianos liderados por Mestre Pastinha foram ontem as figuras pincipais, respectivamente, da uma recepção em casa do Sr. Harry Stone, representante do Motion Pictures, no Brasil, e de um „show“ de capoeira de Angola no terraço do Hotel Glória. Nat Cole foi apresentado a artistas nacionais e, por duas vêzes, pegou Grande Otelo no colo. Os capoeiras baianos – que se fazem acompanhar de quatro representantes da beleza da Bahia – distribuiram rabos-de-arraia uns nos outros enquanto Mestre Pastinha declarou: Na capoeira tudo é falsidade. Por isso capoeira é arisco.

      (Reportatem na página 8)

    • +

      página 4

      Capoeiras baianos deram „show“ no Glória sob direção do velho Mestre Pastinha

      Ao som de pandeiro, berimbau, reco-reco e outros instrumentos típicos, seis capoeiras baianos do grupo do famoso mestre Pastinha (setenta anos de idade e mais de meio século de pernadas) ofereceram ontem na varanda do Hotel Glória um autêntico „show“ de rabos-de-arraias, numa verdadeira representação coreográfica de técnica de luta criada pelos negros africanos.

      Mestre Pastinha, que é Diretor e Professor do Centro Esportivo de Capoeira de Angola, em Salvador, e vem de conseguir sucesso no Rio Grande do Sul, afirmou ao JORNAL DO BRASIL, que „na capoeira tudo é falsidade: quando o camarada menos espera está no chão. Por isso todo o capoeira é desconfiado“.

      MOÇAS BONITAS

      Os capoeiras viajam acompanhados de quatro jovens representantes da beleza baiana, entre as quais a Srta. Lígia Sá, neta de „Miss“ Bahia 1929, a candidata ao mesmo título en 1959 pelo Iate Clube Bahia.

      As belas baianas são as Srtas. Lígia Sá, Lirinha Fraga, Agneda Fraga e Sra. Antonieta Nunes.

      Os capoeiras são Mestre Pastinha, Canjiquinha, João I, João II, Bigodinho e Almiro.

      PULO DA ONÇA, NÃO

      Mestre Pastinha não bebe álcool e luta capoeira desde pequenino. Diz êle que ninguém queria ensinar capoeira (seus alunos dizem que êle nunca ensina o pulo da onça), mas afinal êle conseguiu fundar a sua escola que hoje tem muitos alunos e cobra 150 cruzeiros por mês (três aulas por semana). Sabe mais de 100 golpes e afirma categórico todos êles são tão perigosos (ou até mais) do que o rabo de arraia ou a cabeçada.

      SETENTA ANOS JINGANDO

      A demonstração de ontem no Hotel Glória durou mais de duas horas. Começa com musica: quatro capoeiristas, empunhando os instrumentos típicos, vão marcando o ritmo da batucada que vai num crescendo até contagiar inteiramente os dois outros capoeiristas que, agachados junto ao grupo, se preparam para a luta. Quando a música atinge o seu clímax, já êles estão de pé em evoluções miranholantes, em que só as mãos se fixam no solo, enquanto todo o corpo baila cadenciado no ar.

      [continua]

    • +

      página 5

      Desenvolvem-se então os mais ariscados passos de capoeira, em câmera lenta para todos observarem bem. As demonstrações são sempre de dois. Quando um capoeirista se considera vencido, assume o lugar de outro da „orquestra“ que vem para a arena. Esta orquestra, além de não parar com o batuque, entoa canções folclóricas ou improvisa outras. Eis algumas delas:

      „O Brasil disse que sim
      O Japão disse que não
      duas esquadras poderosas
      vai brigar com o alemão
      O Brasil tem dois mil homens
      pra pegar no pau furado
      eu não sou palha de cana
      pra morrer as fixiado.“

      „Dá, dá, dá no nêgo
      Ô, no nêgo você não dá
      (repito três vêzes)

      Êsse nêgo é valente
      êsse nêgo é danado
      êsse nêgo é o cão“.

      Em dado momento Mestre Pastinha (que não estava vestido a caráter) resolve entrar na dança e luta com todos os seis capoeiristas, derrotando-os um a um. Todos êles respeitam o Mestre, apesar de seus 70 anos, a conforme disseram ao repórter, nenhum se atreva a brigar de verdade com êle.

      ENGANAR SENHOR DE ENGENHO

      O Sr. Vasconcelos Maia, Diretor de Turismo da Cidade do Salvador e promotor da excursão dos capoeiristas, fêz um breve histórico para JORNAL DO BRASIL de capoeira.

      Segundo êle, a capoeira foi uma invenção dos negros africanos que vieram para a Bahia ainda nos tempos da colonização. A principio, os capoeiristas, indivídios temíveis, brigavam sem nenhum objeto na mão e as brigas não tinham nenhum enfeite. Como no entanto fosse se tornar muito perigoso, os senhores de engenho resolveram proibi-la:

      - Mas ao contrário de que muita gente pensa, negro é um bicho sabido e metreiro. Para burlar os feitores, resolveram transformar em dança a capoeira. Inventaram batuques, músicas e letras, a passaram a fazer „shows“ para agradar os senhores. Foi assim que nasceu essa capoeira, que na Bahia se chama de „Capoeira de Angola“, e que é um misto de música, folclore, esporte e meio de defesa (ou ataque).

      Diz o Sr. Vasconcelos que diante do sucesso que o conjunto vem obtendo, êle o exibirá próximamente em outras Capitais do Brasil, „para mostrar em toda sua pureza, as tradições e as riquezas da Bahia“.


Flickr Fotos

    Atualizações do blog direto a seu inbox

    Back to Top