• Folha da Manha, São Paulo
     DITADO PELO SOM DOS BERIMBAUS O JOGO DA CAPOEIRA DE ANGOLA
    28 de maio 1958

    • Leia abaixo

    • Foto 1: A idade não impede que Vicente Pastinha continue-se a lutar como um garoto

      Foto 2: Berimbau, caxixi e pandeiro acompanham a capoeira

      Foto 3: Na capoeira só vale pernada e cabeçada

    M Pastinha, 1958

    O texto

    • página

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      Ditado pelo som dos berimbaus o jogo da capoeira de Angola
      Folha da Manha, São Paulo
      28 de maio 1958

      Reportagem de
      Vitor ANTONIO GOUVEIA
      Fotos de Antonio PIROZELLI

      Os toques do primitivo instrumento servem até para indicar a presença de estranhos… - Modalidade de luta tradicional, em que o uso dos pés e da cabeça supera de longe o das mãos – „Capoeiras“ famosos, dos quais [..] dizia „terem o corpo fechado“

      SALVADOR, 14 (via VARIG) – Reide „Brasil Norte-Sul", da reportagem das FOLHAS no jipe nacional DKW-VEMAG –

      „Sinhazinha, que vende aí?
      Vendo arroz do Maranhão
      Meu sinhô mandô vendê
      Na terra do Salomão,
      Aruandê“

      Mestre Pastinha tirava as chulas de fundamento, de cocoras, ao lado de seu „adversário“, defronte dos berimbaus, enquanto o coro responde:

      „Ê, ê, aruandê camarado,
      Galo cantô
      Ê, ê, galo cantô, camarado…“

      Os lutadores, de cocoras, saltitam, talves rezando suas „rezas fortes“, para livrar de bala, emboscada ou faca; chegam, depois, ao centro da roda, virando o corpo sobre as mãos e começam o gingado, que é ao mesmo tempo uma guarda e um passo de dança, e a luta princípial.

      OS TOQUES DO BERIMBAU

      O berimbau é que dita o jogo. Se toca „São Bento Grande“, o jogo é ligeiro, se toca „São Bento Pequeno“ o jogo é „samba da capoeira“. Tocando „Banguela“, é „jogo de dentro“, com faca, enquanto no „Santa Maria“ o jogo é lento. „Ave Maria“ é toque para o „hino da capoeira“, e no toque de „Amazonas“ o jogo é medio. Para o „jogo de baixo“ o toque é „Iuna“ e os berimbaus tocam „Cavalaria“, como toque de aviso, quando se aproxima alguem não ligado à roda.

      O berimbau é o principal instrumento da luta da capoeira. Antigamente era usado o „berimbau de boca“, uma corda de cipó timbó num arco, no qual a boca era a caixa de ressonancia e a percussão se fazia com uma faca sobre a corda. Hoje, é usado o „berimbau de barriga“, constituindo por uma vara de pau „pombo“, que mantem em tensão um arame de aço. A caixa de ressonancia é uma pequena cabaça unida ao arame por um barbante. A vareta produz o som, conseguinho-se as modulações com uma moeda de vintem, e com maior ou menor aproximação da boca da cabaça à barriga.

      A mão direita, que segura a vareta entre o polegar e o indicador, segura tambem o caxixi, com os dedos medio e anular. Dessa forma, cada pancada da vareta sobre a corda é acompanhada pelo som seco do caxixi. Este instumento é uma pequena cesta de bambu, contendo sementes de Tuquim, e fechada, na base, com a casca da cabaça.

      O reco-reco, um grande gomo de bambu com incisões transversais, sobre as quais se passa um pedaço de madeira, e o conhecido pandeiro, completam a „orquestra“ para o acompanhamento da capoeira.

      O JOGO DA CAPOEIRA

      A capoeira foi trazida para o Brasil (e vingou em toda a região do Reconcavo Baiano) pelos negros vindos de Angola, possívelmente guerreiros. Na capoeira, os pés e a cabeça têm a maior importancia, passando as mãos para um plano secundario, tornando-se uma luta eficiente contra os europeus, habituados a empregar quase exclusivamente as mãos em suas lutas de defesa e de ataque. Terá sido esse, aliás, o principal motivo da repressão policial que a capoeira sofreu, nos tempos dos senhores de engenho.

      Os negros, entretanto, não demoraram a encontrar uma solução: da mesma maneira como souberam camuflar a sua religião com a de seus senhores, fantasiaram tambem a capoeira, introduzindo pantomimas, mímicas e danças, acompanhadas de música. Formavam rodas em que os lutadores se exercitavam, ao som dos berimbaus de boca e de palmas e os senhores e as sinhás gostavam de apreciá-los.

      E assim, brincando, vingou essa bela modalidade de luta pela Bahia, introduzindo-se, para brilho de sua parte musical, o pandeiro, o caxixi e o reco-reco, substituindo-se pelo „berimbau de barriga“, o primitivo „berimbau de boca“. E os capoeiristas, na Bahia, acabaram por formas, inclusive, lendas sobre os lutadores de corpo fechado às balas e às armas brancas, que tinham tratos com mandinga, patuás poderosos, que viravam „pé de mato“ nas horas de aperto, e que desafiavam pelotões inteiros de policiais, desafazendo qualquer cilada ou cerco a golpes de arraia, rasteiras e cabeçadas. Nomes que ficaram gravados na história valente de capoeira.

      Ainda hoje vivem na Bahia e lutam capoeira e preparam novos „angoleiros“, mestres famosos como Vicente Pastinha, que homenageou a reportagem das FOLHAS, com um excelente demonstração, Valdemar e Mestre Bimba, entre outros. O último é considerado como um „reformista“, já que introduziu na autentica „capoeira de angola“ passos novos e exoticos extraidos de outras lutas e danças, como o judô japonês e a luta livre. E mantem sua „academia“ na ladeira do Pelourinho [na verdade quem manteve a academia lá era M Pastinha – velhosmestres.com].

      Os capoeiristas da velha guarda, entretando, conservam ainda, como Mestre Pastinha, a autenticidade original do jogo, [..] a base de agilidade e esperteza.



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