• Capoeira e candomblé de exportação no palco do cultura artistica
     Coreografia de Angola sob a garoa de S. Paulo 
    Correio Paulistano, 13/out/1953

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    • O da esquerda tenta apanhar uma nota posta no solo enquanto o capoeira se defende e defende a nota.
      Barracão de M Waldemar?

    • Nos terreiros da Bahia, os defensores da Escola de Angola disputam ao som do berimbau.
      Barracão de M Waldemar?

    • O da esquerda se defende de um rabo de arraia desferido pelo outro capoeira. São capoeiras de Angola.
      Barracão de M Waldemar?

    M Pastinha, 1953


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      Capoeira e candomblé de exportação no palco do cultura artistica
      Coreografia de Angola sob a garoa de S. Paulo
      Reportagem de Ibiapaba Martins
      Correio Paulistano, 13/out/1953

      Tornou-se material de exportação o fato folclorico baiano - Havia um cidadão que tentava transformar os nossos terreiros de Umbanda em Terreiros de Candomblé - Queria mães de santos vestidas como baianas que já não vendem acarajé na nova Bahia - Mestre Pastinha, o defensor da Tradição

      Ha uma febre baiana em São Paulo. Tudo que se refira a coisas da boa terra, encontra ressonancia sob a garoa paulista. Exageros inclusive se verificam a todo o instante e muita gente se aproveita da situação, impondo conceitos e usufruindo lucros. Não faz muito tempo, um dos Terreiros de Umbanda desta capital megulhou numa crise de debates e liturgia porque um dos membros da diretoria, antigo baiano, entendeu de trazer o pai de santo Joãozinha Da Goméia da Bahia.

      Este chegou ao terreiro do alto de Santana ovacionado, coroado de flores e incenso, penetrou na sala chefa de gente e sentou-se no trono que lhe dedicaram. A sessão foi adiante, baixaram os diversos espiritos de Caboclo das Sete Penas, Indio do Araxá e Morena de Indaiá e por fim um dos baianos presentes deu a linha:

      - "Nós, - disse ele, - precisamos transformar este terreno num autentico candomblé. Não obstante (o homem era lido, sabido) a aparencia de candomblé, ainda falta muita coisa para tanto. Os aparelhos que se encontram neste local (referia-se às mediuns) não apresentam a roupagem colorida e rica que aparece nos verdadeiros candomblés, os da Bahia, os da terra do Senhor do Bom Fim.

      E patatí... e patatá... o nosso homem foi por aí adiante, sempre exaltando as coisa de sua terra como as melhores do mundo.

      Evidentemente, ha muito candomblé de exportação por aí, muita gente fazendo dinheiro à custa de tradição baiana, que não se transplanta porque, perdidas as proprias raízes, perde tambem sua razão de ser.

      AS FILHAS DE SANTO DA BAHIA

      Estas linhas vêm a proposito de um grupo baiano que se encontra em São Paulo. Trata-se da Companhia Baiana de Folclore Oxumaré, recem-chegada de Salvador para dar espetaculos no Teatro de Cultura Artistica. Veio a esta capital para uma pequena temporada, como que para realizar uma prévia para o IV Centenario. Pensam voltar com mais experiencia, cartaz e dinheiro a fim de contentar os paulistas. Sob a direção de Sergio Maia, tem, como secretario-geral W. Lima; diretor de cena, Sergio Maia; figurinos D'Crato, coreografia de Sergio Maia. Os primeiros bailarinos são Joãozinho Da Goméia (o mesmo de que falamos linhas acima: pai de santo atacado por outros pais de santo sob a alegação de que desvirtuou o espirito do candomblé, comercializando-o), Sergio Maia, Lajana e Irlanda Meneses. Bailarinas solistas são Katia Francarole, Marly Rios e Cleia Tibiriçá. Cantoras: Neide Furkin e Lolita Consuelo.

      A Companhia Baiana de Folclore Oxumaré trouxe a S. Paulo como artigo de exportação (diriam os maledicentes) seis filhas de santo cheias de rendas, dois jogadores de capoeira, tocadores de berimbau e de atabaque [um deles M Ananias, leia mais aqui - velhosmestres.com]. A estilização, conforme nos disseram os responsaveis pelo espetaculo (lastimando-se até certo ponto porque a sofrivel estilização desperta menos interesse do publico pagante), a estilização é minima.

      Dito isto, vamos entrar no terreno que nos interessa.

      A CAPOEIRA

      Faz algum tempo escreviamos que, hoje, a capoeira é um mito fora da Bahia. Talvez possamos encontrar em qualquer lugar do país capadocios capazes de arrumar com os dois pés no rosto do adversario mas somente em Salvador ve-la-emos confundir-se com a coreografia, a musica, a religião, a defesa pessoal. Somente na Bahia poderemos encontrar netas e bisnetas de antigos proprietarios de escravos apreciando o jogo nos terreiros e sendo, tambem elas, capazes de traçar passos dificeis, desenhar uma "chibata", descrever um "aú" e projetar o corpo num "faz que vai e não vai". Não é atoa que a praça localizada defronte à Faculdade de Medicina da Bahia se chama "Terreiro". Teve esse nome porque desde seus primordios a capoeira foi uma de suas mais caras tradições: aí os estudantes "baianos" (na realidade eram cearenses, pernambucanos, sergipanos) exercitavem-se no dificil e belissimo jogo.

      Pouca gente sabe no entanto, fora de Salvador, que a capoeira se encontra mais ou menos em decadencia depois que um dos melhores praticantes, Mestre Bimba, decidiu torna-la mais eficiente, cruzando-a com o box e o jiu-jitsu. Poucos sabem ainda que isto foi o bastante para torna-lo o criador de uma nova modalidade de capoeira que nada tem de regional embora se chame Regional, contraposta à Escola de Angola, de que mestre Bimba é um dos mais destacados cultores. Muito poucos sabem, temos de acrescentar, que ainda restam alguns cultores de outra velha modalidade: a chamada Capoeira de São Bento, cultivada pelos antigos negros de São Bento das Lages. Os capoeiristas de São Bento, ao contrario dos de Angola, empregam frequentemente as mãos.

      DEFENSORES DA TRADIÇÃO

      Quem defende a tradição no entanto são os capoeiristas de Angola. Segundo nos disseram em Salvador, costumam lutar vestidos de branco nos momentos solenes, num terreiro cheio de lama. E o bonito em tudo isso é que o jogo só será bem feito se não se sujarem durante a pugna, cuidando de si proprios e do adversario. Os golpes são simulados: um pé que alcança o peito do adversario sem toca-lo, uma cabeçada que somente encosta no queixo do outro, um rabo de arraia que simplesmente descreve o belo arco no ar.

      Iamos-nos esquecendo: a capoeira é praticada ao som do pandeiro, do berimbau, do reco-reco. Inicia-se com as chulas de fundamente tiradas pelo mestre:

      Sinhazinha que vende aí?
      Vendo arroz do Maranhão
      Meu sinhô mandô vendê
      Na terra de Salomão
      Arruandê...

      Os que formam a roda, os que empunham reco-reco e berimbaus, fazem éco:

      Ê, ê
      Arruandê
      Camarado
      Galo cantô
      Camarado

      CAMARADO

      Os cantos são improvisados. Segundo a tradição, jogo de capoeira, praticado de preferencia pelos negros escravos, era proibido. Assim mesmo se praticava, às escondidas. Formam-se a roda, os berimbaus soavam, o reco-reco gemia e... quando o Senhor ia fiscalizar os escravos estes já não estavam lutando, treinando para futuras lutas: estavam apenas cantando e dansando. Mais tarde, o mesmo ardil era posto em pratica com relação à policia.

      MESTRE PASTINHA, O DEFENSOR DA TRADIÇÃO

      Esta reportagem não ficaria completa se não fizessemos uma referencia à Mestre Pastinha, baiano da gema, que nunca fez comercio da arte e deve nesta altura ter atingido seus sessenta e cinco anos. Tem folego de gato e agilidade de tigre, luta com moços de vinte e cinco e... vence-os com relativa facilidade. Olha com desdenhosa soberbia os praticantes da "Regional". Os rapazes que se encontram em nossa capital, no grupo folclorico oxumaré, representam a sua escola, a Escola de Angola, pura, coreografica.


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