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    Paulo Gomes da Cruz
     Mestre Paulo Gomes 
    25/jan/1941 - 23/set/1998









    📻 Velhos Mestres

    M Paulo Gomes
    < >
    • 01.
      Roda de Capoeira da Ilha de Maré
      53:18

    M Paulo Gomes



    O ABC

    1941 - Nasceu no 25 de janeiro em Itabuna, BA.

    1962 - Começou aprender com Artur Emídio no Rio.

    1963 - No 11 de junho fundou o Centro de Capoeira Ilha de Maré. Também criou o batismo na capoeira.

    1967 - Se estabeleceu em São Paulo na rua Augusta 1351.

    1982 - No 3 de agosto participou da Inauguração da Praça do Capoeira em SP. Publicou o livro chamado Capoeira - A arte marcial brasileira.

    1985 - Criou a Associação do Brasil da Capoeira (ABRACAP). Ajudou a instituir a Lei Estadual nº 4.649, de 7 de agosto, que definiu o dia 03 de agosto como O Dia da Capoeirista no Estado de São Paulo.

    1988 - De 23 a 28 de maio participou do evento de M Suassuna Projeto Roda Capoeira.

    1998 - Faleceu no 23 de setembro assassinado, dentro do escritório de sua academia Ilha de Maré, localizada na Av. Brigadeiro Luis Antonio n. 3940, SP.

    Imagens

    • M Paulo Gomes

    • Instrumentos:
      ? (berimbau),
      M Paulo Gomes (atabaque),
      M Bola Sete (pandeiro)
      Centro de Capoeira Ilha de Maré, SP
      1984

    • M Paulo Gomes e sua esposa Aureny
      Centro de Capoeira Ilha de Maré, SP

    • M Grande (blusa branca com listras azul),
      ?,
      ?,
      M Joel,
      ?,
      M Ananias,
      ?,
      M Paulo Gomes,
      ?,
      Fernando Henrique Cardoso,
      M Gato Preto,
      M Silvestre,
      M Davi
      Agachados: M Besouro Nicomédio,
      M Suassuna,
      M Pinatti
      Inauguração da Praça da Capoeira
      1982
      São Paulo, Brasil
      Acervo: M Meinha

    • M Paulo Gomes
      Acervo: Oreste Typaldo Caritato

    • M Paulo Gomes e Canseira

    • M Paulo Gomes

    • Diversas fotos
      Acervo: M André Luiz Lacé Lopes

    • Em pé:
      M Canjiquinha,
      M Waldemar (cantando),
      M Gaguinho,
      M Paulo Gomes
      Agachado M Brasília?
      São Paulo, 1988
      Acervo: M Adelmo

    • Jogando: ? e M Camisa
      Cantando M Suassuna
      Presentes: M Paulo Gomes, M Tabosa, M Gato etc
      São Paulo, 1988
      Acervo de M Adelmo

    • Livro do mestre

    • M Suassuna,
      M Pinatti,
      M Paulo Gomes
      abril de 1974
      Acervo: M Suassuna


    • M Paulo Gomes e seu filho Paulo Gomes da Cruz Jr
      Acervo: Paulo Gomes da Cruz Jr


    • M Paulo Gomes e seu filho Paulo Gomes da Cruz Jr
      Acervo: Paulo Gomes da Cruz Jr


    • Jogando ? e M Tabosa
      M Paulo Gomes em pé ao lado direito
      Acervo: M Tabosa


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    M Paulo Gomes


    M Paulo Gomes

    M Paulo Gomes


    A CAPOEIRA CHEGOU

    • página 1

      -

      Jornal da Tarde, São Paulo
      27 de novembro de 1967

      Mais de 200 anos depois de ter sido criada pelos negros dos quilombos de Pernambuco, a capoeira chega a São Paulo, melhorada.

    • +

      página 2

      Dois homens estão preparados para lutar. A luta não é boxe, judô ou karaté: é capoeira. O lugar não é um morro do Rio ou uma praia deserta da Bahia: é um tablado de madeira armado em um restaurante típico no número 4815 da avenida do Estado, cheio de pessoas comendo acarajé, vatapá e tomando xixi de anjo e suor de virgem.

      O homem da esquerda, mais alto e mais forte, pele queimada de sol é mestre Paulo. O da direita, Osvaldo, é um moço de cabelos compridos, mais magro e baixo que o mestre.

      Três atabaques, dois berimbaus, um guizo e um pandeiro recebem a reverência: cabeças coladas ao chão, os dois pés para cima, num movimento lento e medido.

      Começa a música, um quase-samba, mais para o candomblé. O primeiro golpe, meia-lua, parte do mestre: perna direita levantada, o pé esquerdo num giro rápido e o direito passando na altura do nariz de Osvaldo. Osvaldo reage, deitado no chão, apóia as duas mãos no tablado e joga as duas pernas na altura do rosto de mestre Paulo.

      Tudo tem um rítmo místico africano e se passa em sequências calculadas de golpes e contragolpes. Dois minutos mais ou menos de luta e a música pára de repente. O mestre e o aluno, juntos, repetem a reverência aos berimbaus, atabaques, guizo e pandeiro. Mestre Paulo volta ao meio do tablado, enquanto Osvaldo vai ao canto perto dos músicos e espera de cócoras o resto do batismo. Chama outro aluno. As lutas se repetem por mais sete vêzes - sete alunos batizados, os primeiros em São Paulo. Todos estão vestidos da mesma maneira: tênis branco, calça branca de brim, com uma listra preta na perna e blusa tôda branca.

      O batismo, na linguagem usada pelos capoeiras, é a estréia do aluno em uma luta com o mestre. Osvaldo e os sete outros treinaram três meses para serem batizados. Treinarão agora mais dez, até serem capoeiras. Sempre respeitarão o juramento que fizeram ontem: "Meu mestre, eu juro aprender a capoeira regional somente para minha defesa pessoal e nunca fazer dela instrumento de agressão, e somente recorrer ao seu uso quando minha vida estiver em jôgo".

      A base de tôda a técnica da capoeira regional está em um verso de "Berimbau", música de Vinícius de Morais: "capoeira que é bom cai bem". O orgulho do capoeira é saber cair. Mesmo depois de ter os dez meses de treino normal e os outros dez de aperfeiçoamento, o capoeira está sempre aprendendo a cair, aperfeiçoando os golpes e tentando dar maior rapidez aos reflexos.

      A capoeira é uma luta de reflexos. Tem 52 sequências de perto de dez golpes cada uma. O capoeira tem de possuir um reflexo bastante rápido para conseguir a sequência certa dos golpes, que em 99 por cento das vêzes são mortais.

      O golpe mais violento é chamada "benção". O capoeira gira totalmente sôbre o corpo e bate com os calcanhares no peito do adversário. A primeira batida no mínimo quebra o osso esterno. A segunda joga o adversário de costas e faz com que êle bata a nuca no chão.

      MESTRE PERDEU MUITAS BRIGAS

      Há quatro anos, no Rio de Janeiro, Paulo Gomes, 21 anos, baiano de Itabuna, tinha muita vontade de aprender capoeira. Com cinco meses de treinamento, uma hora por dia, na academia de Artur Emide [Emídio], em Bonsucesso, Paulo Gomes tirou o segundo lugar em uma competição contra capoeiras que tinham média de oito a dez anos de prática. Um ano depois abria a sua própria academia e virava mestre Paulo.

      Essa vontade de aprender depressa a capoeira custou a Paulo a vista esquerda vazada, todos os dentes da frente trincados, três costelas quebradas e a extração de menisco. - "Achavam que eu não dava pra coisas. Mostrei que dava".

      Dizem que êle é o único sucessor de mestre Bimba no Brasil. Falam também que é a esperança de que a capoeira regional continue a existir, porque muita gente a está misturando á capoeira de Angola. "Capoeira de Angola não é capoeira não. É mesmo quase só dança. É uma vergonha ver por aí essas pessoas que dizem que praticam capoeira mas que não sabem nada de capoeira mesmo".

      Paulo Gomes afirma que veio a São Paulo mostrar a capoeira regional. Diz que o que se vê por aqui é apenas a de Angola. Chegou no comêço dêste ano e abriu sua academia, "Ilha de Maré", em uma sala pequena da rua Augusta 1351. Está com 30 alunos, todos homens. "Mas no Rio, em três anos, formei mais de 30 môças".

    • +

      página 3

      Por causa do perigo dos golpes, os capoeiras têm quatro princípios rígidos de conduta: respeitar a todos; não ensinar sua técnica a nenhum estranho; nunca provocar brigas; bater apenas quando estiver ameaçado, mas assim mesmo bater apenas o essencial para defender-se.

      A capoeira começou a ser praticada no Brasil pelos escravos negros trazidos da África pelos portuguêses. Eram tratados como animais e não tinham nenhum meio de defesa. Começaram a criar uma defesa própria, que treinavam durante as danças, para enganar os portugêses.

      Quando um negro fugia, principalmente em Pernambuco, já possuía um treinamento intenso dêsse tipo de defesa. Pouco a pouco os escravos fugidos foram formando os quilombos nas planícies do interior de Pernambuco, onde viviam agrupados. O mato baixo das capoeiras permitia-lhes avistar de longe os portuguêses que os perseguiam. A luta foi sendo chamada por isso de capoeira. Zumbi, um dos chefes dêsses quilombos, foi o primeiro mestre de capoeira no Brasil.

      Lentemente os escravos fugidos começaram a voltar para as cidades. Iam principalmente para o Rio, onde os morros os ocultavam dos soldados. Treinavam capoeira nos morros e desciam à cidade para roubar. Surgiram tantos problemas com os capoeiras no Rio de Janeiro que o imperador dom Pedro II baixou uma lei proibindo a prática da luta no país.

      Os capoeiras começaram então a ser perseguidos e presos. A única maneira de serem reconhecidos era através da roupa: vestiam calças de bôca bem estreita, para que na hora do golpe as pernas não ficassem expostas, e camisas de manga comprida, para não serem expostos os punhos. Geralmente os adversários dos capoeiras, malandros de becos, lutavam com navalhas e punhos e pernas eram as partes mais fáceis de serem acertadas. O chefe da polícia do Rio naquela época, um tal de Sampaio, passou a utilizar-se de um artifício para descobrir os capoeiras: jogava um limão por dentro da cintura da pessoa; se o limão não passasse pela bôca da calça, o homem ia prêso: era um capoeira na certa.

      Por volta de 1930 apareceu no Salvador um homem disposto a fazer evoluir a capoeira. Estudou todos os golpes e criou um estilo próprio. Criou a capoeira regional. Apareceram as rivalidades com a outra, capoeira de Angola. Os da capoeira regional diziam que a de Angola não passava de uma demonstração de dança. Em 1935 êsse homem, mestre Bimba desafiu todos os mestres da capoeira de Angola e venceu-os um a um no estádio do Salvador. Ganhou o título de pai da capoeira regional.

      Mestre Bimba está vivo ainda. É um velho de 67 anos e um metro e noventa e cinco de altura, que mora em um casebre de morro na praia Nordeste de Amaralina, no Salvador. Não dá demonstrações de sua capoeira, a não ser em ocasiões especiais. A última demonstração sua foi para um ex-aluno, Juracy Magalhães, quando foi eleito governador da Bahia.

      MENINO GANHA LUTA DE HOMEM

      Jorge Machado Silva tem 12 anos, 25 quilos e perto de metro e quarenta de altura, mas diz que muito capoeira bom não o enfrenta em uma luta. Em 1966 Jorginho estava assistindo ao desfile das escolas de samba na avenida Presidente Vargas, no Rio. Pisou no pé de um homem e ganhou um tapa da cabeça. O homem foi parar no hospital, com uma costela quebrada. Essa história é êle mesmo quem conta, concluindo com ar severo: "Não gosto que me baguncem".

      Jorginho, filho de pais pobres, começou a gostar de capoeira em Salvador, onde nasceu - "na Cidade Alta", faz questão de dizer. A primeira oportunidade que teve de praticar veio no Rio, onde conheceu Paulo Gomes. Mestre Paulo tinha academia na Cinelandia. "Eu ia na academia com meu irmão, Miguel. Ficava vendo tudo. Depois chegava em casa e treinava sozinho, errado mesmo. Devagar fui aprendendo".

      Isso há três anos, tempo suficiente para um adulto, com um treino de uma hora por dia, ser incluído na lista dos mais respeitados capoeiras.

      Mestre Paulo é quem diz: "êsse guri é a grande esperança de capoeira regional, é bom demais". Os alunos da academia Ilha de Maré garantem que Jorginho enfrente facilmente um homem de metro e oitenta de altura e 90 quilos de pêso, "se não fôr um bom capoeira, é claro".


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