• Cícero Navarro
     Mestre Onça Preta 
    1909 - 2006

    O ABC

    1909 - Nasceu em Salvador Cícero Navarro.

    1937 - Em 14 de janeiro participou na roda do II Congresso Afro-Brasileiro em Ribeira, Salvador.

    1938 - Em 18 de setembro (domingo) participou numa roda em Itapagipe, Salvador, junto com M Samuel Querido de Deus. Veja as fotos de Ruth Landes abaixo.

    1941 - De acordo com os manuscritos de M Pastinha em 23 de fevereiro em Gengibirra Onça Preta fez parte dos que fundaram a CECA. Um dos fundadores também é M Aberrê e em sua vez não aparece M Samuel Querido de Deus.

    1942 - No 13 de janeiro nasceu em Salvador uma das suas filhas (com Julia Batista dos Santos) - Iraci dos Santos Navarro.

    1948 - Em 10 de janeiro em O Cruzeiro lemos que: Aluno de Aberrê foi Onça Preta, que possui destacadas „rodas de mandinga“, no Pau Miúdo e no Alto das Pombas, lugares onde proliferam os candomblés.

    1959 - Mudou para Rio de Janeiro.

    1960 - No 21 de julho foi fundado o grupo Filhos de Angola em Rio pelos mestres Mucungê, Dois de Ouro, Baleado, Onça Preta, Imagem do Cão e Roque.

    196? - Aparece numa foto com Alberto Latorre de Faria, quem trabalhou no Departamento de Ataque e Defesa da Universidade do Brasil até 1964/8 (veja abaixo!).

    1962 - Tem notícia sobre M Onça Preta como integrante do grupo de Capoeira Angola de M Joel Lourenço do Espírito Santo.

    1968 - W. Rego menciona ele em livro dele.

    1972 - Em 10/11 de setembro O Dia publicou um artigo sobre ele e M Roque (leia abaixo!). Nesse tempo trabalhou como servente no Hospital de Puericultura.

    1982 - Do 4 até o 7 de março participou no Projeto Capoeira Dança em Circo Voador (Rio) junto com Baleado, Leopoldina e o Grupo Senzala (M Camisa).

    1985 - Mudou para São Paulo (não ensinou mais capoeira lá).

    1989 - Em entrevista dele M Waldemar comenta: «Onça Preta - esse tá no Rio, velho, mas tá vivo».

    2006 - Faleceu com 97 anos de idade em São Paulo.

    Agradecemos Marcio Duarte, bisneto de M Onça Preta, por compartilhar seu acervo de fotos e as datas do ABC.

    M Onça Preta velho

    • Alberto Latorre de Faria e M Onça Preta
      196?, Rio de Janeiro
      Acervo de Nilo Pedro Nava Yauvana

    • M Onça Preta e suas filhas
      Anos 70, Rio de Janeiro
      Acervo de Marcio Duarte (bisneto do mestre)

    • M Onça Preta e suas filhas
      Anos 70, Rio de Janeiro
      Acervo de Marcio Duarte

    • M Onça Preta
      Anos 90, São Paulo
      Acervo de Marcio Duarte

    • M Onça Preta
      Anos 90, São Paulo
      Acervo de Marcio Duarte

    • M Onça Preta
      Anos 90, São Paulo
      Acervo de Marcio Duarte

    • M Onça Preta e seu bisneto
      Anos 90, São Paulo
      Acervo de Marcio Duarte

    • M Onça Preta e seus bisnetos
      Anos 90, São Paulo
      Acervo de Marcio Duarte

    • Registro Geral da uma filha do mestre
      Acervo de Marcio Duarte

    M Onça Preta velho


    Galeria de fotos de 1938

    As fotos abaixo feitas por Ruth Landes no dia 18 de setembro de 1938 em Itapagipe, Salvador, fazem parte do acervo da Instituição Smithsonian nos EUA*. Landes escreve em seu livro A Cidade das Mulheres (1947), que participou numa festa em Cabaceiras da Ponte em Itapagipe (veja o mapa abaixo!). E continua descrever uma roda de capoeira que assistiu lá:

    «Chegáramos ao lugar onde os homens se prepraravam para a capoeira. Os espectadores se apinhavam à volta de um largo círculo e não havia nem mulher nem sacerdote entre êles. Num ponto do interior do círculo estavam três negros altos, cada qual segurando um berimbau, com uma das extremidades apoiada no chão. Logos surgiram outros instrumentistas - um com um chocalho, outro com um pandeiro. Edison e os outros me ajudaram a chegar à frente e ficamos contentes por mudar de assunto.

    Dois capoeiras estavam agachados diante dos músicos. Um era o campeão Querido-de-Deus, cujo nome de batismo era Samuel. Era alto, mulato, de meia idade, musculoso, pescador de profissão. O seu adversário era Onça Preta, mais môço, mais baixo, mais gordo. Estavam ambos descalços, usavam camisas-de-meia listadas, um de brancas, outro de calças escuras, um de chapéu de fêltro, outro com um boné que depois trocou por uma palhêta.»

    Então nas duas fotos vemos jogando um par de homens. M Querido de Deus é supostamente aquele, que usa "camisa-de-meia listada" e o outro pode não ser Onça Preta, porque não tem aquela camisa nem calças escuras nem é descalço. É provávelmente o terceiro capoeira, quem empurrou Onça Preta para trás para entrar no jogo.

    * Ruth Landes tem uma outra série de fotos de 23 de outubro 1938 mostrando uma roda de capoeira, porém não dá descrição dessa roda em seu livro. E não tem sufiecente data no acervo de Instituto Smithsonian para dizer quem são esses capoeiras.

    • ? e M Samuel Querido de Deus?
      Itapagipe, Salvador
      18 de setembro 1938
      Foto de Ruth Landes
      Acervo de Instituto Smithsonian

    • Verso: 1. Itapagipe, Cabaceira de Ponte. Sun. Sept. 18. Capoeira: one [triangle] on head kicking heels in other's fe.
      Itapagipe, Salvador
      18 de setembro 1938
      Foto de Ruth Landes
      Acervo de Instituto Smithsonian


    • M Samuel Querido de Deus? e ?
      Itapagipe, Salvador
      18 de setembro 1938
      Foto de Ruth Landes
      Acervo de Instituto Smithsonian


    • Verso: 2. Capoeira somersaulting in other's fc.
      Itapagipe, Salvador
      18 de setembro 1938
      Foto de Ruth Landes
      Acervo de Instituto Smithsonian

    Cabaceiras da Ponte


    Cabaceiras da Ponte

    Cabaceiras da Ponte


    Jornal O Dia, 1972

    • Leia o artigo abaixo!
      (Na foto não é M Onça Preta)

    • Leia o artigo abaixo!
      M Onça Preta na quadra vermelha (provávelmente)

    • Leia o artigo abaixo!

    • Leia o artigo abaixo!

    • Leia o artigo abaixo!

    • Leia o artigo abaixo!
      M Onça Preta na quadra vermelha (provávelmente)

    M Onça Preta


    O artigo

    Com seus mártires e heróis CAPOEIRA CHEGA A SER RELIGIÃO

    • página 1

      -

      O Dia
      Rio de Janeiro
      10/11 set. 1972
      Beatriz Santacruz

      Mulato baixo, franzino, carapinha coberta de branco, as pernas marcada por cicatrizes profundas, Cícero Navarro, o Onça Preta, o nome que no passado botava a correr valentes e fanfarrões, citado em obras de folclore e em livros de Jorge Amado, mestre nos segredos dos toques de berimbau e na música de capoeira, é hoje um dos muitos personagens notáveis dos subúrbios do Rio de Janeiro, perdido no anonimato da grande cidade.

      Nascido em Salvador, nos idos de 1909, filho de família pobre, capoeirista de fama, ele relembra com saudades o tempo da velha capoeira, autêntica e perigosa, exclusiva de malandros e marginais, condenada na primeira codificação penal do Brasil, o Código Criminal do Império (1890).

    • +

      página 2

      É ele quem fala da beleza das exibições espontâneas, geralmente aos domingos, às portas dos botequins; do combate implacável dado aos lutadores por Pedrito, o Chefe de Polícia da Bahia, que assumiu o cargo em 1920, resultando no massacre dos grandes mestres; da luta de morte de capoeiristas pelo amor de uma mulher e de muitas outras histórias que ouviu ou presenciou em sua mocidade. E é ele, ainda, quem lamenta o rumo que a capoeira tomou em nossos dias, sofisticando-se, para se transformar em esporte de ricos, ou, como ele diz: - Virando mercadoria, que se vende aos filhos de gente endinheirada.

      Os mestres do passado

      Quando Onça Preta era menino, o nome de Samuel Querido de Deus, capoeira e pescador, já andava de boca em boca pelas ruas de Salvador. A seu lado, Vicente Pastinha, mulato pequeno de assombrosa agilidade, Zé Doú, Sessenta, Vitor Agaú [também H. U. - velhosmestres.com] e muitos outros. Fácil era encontrá-los. Em geral, aos domingos, às portas dos botequins, quando, entre uma roda e outra, para animar o jogo, os mestres ativavam os músculos com um trago de cachaça.

      - Era bonito de ver. As mulheres, atraídas pelo som do berimbau, das cantigas e das palmas, vinham juntar-se à roda, as saias coloridas, os cabelos amarrados, sorrindo para os que pulavam, cuidando dos que caíam.

      - As grandes rodas formavam-se Luzia. Periperi na Boca do Mato e Luzia. Peri-Peri, na Boca do Mato e no cais do Porto. Começavam bem cedinho, quando um capoeirista chegava com seu berimbau e tirava os primeiros acordes. Horas depois, era impossível assistir de perto, tal a multidão que os cercava. Os moleques - como eu - para não perder o espetáculo, ficavam entre as pernas dos adultos.

      - Foi assim que aprendi a «brincar». Não tive um mestre, mas vários. Garoto ainda, «pulei» com Samuel, com Pastinha, Besourinho, Vitor Agaú, Gasolina, Aberrê (preto forte que só lutava de terno branco e lenço vermelho no pescoço) e muitos outros, hoje mortos. Poucos de morte natural. A maioria, assassinada.

      - Lembro bem da morte de Aberrê. Foi numa roda animada, na Cidade Baixa. Bem no centro, onde fica a Estrela de Salomão. Aberrê dominava o adversário. De repente, sem ninguém esperar, caiu. O outro esperava que ele se erguesse, pois em briga de capoeirista de verdade, não se bate em homem arriado. Mas nada de Aberrê se levantar. Só então percebemos: estava morto. Era um ataque de coração. Durante semanas, ninguém brincou na Bahia. Todo mundo entendeu que havíamos perdido um grande mestre, um excelente amigo.

      - Outra perda muito comentada foi de Zé Barroada. Morreu numa roda com Manoel de Andreza, em Cachoeira, no interior da Bahia, pelo amor de uma mulher, mulata bonita, arrumada, que com sua faceirice botou a perder dois homens. Foi luta de navalha, como em todo jogo sério. Zé Barroada descuidou e caiu. Manoel foi recolhido à prisão. Mais uma vez a Bahia ficou de luto.

      Um jogo proíbido

      Apesar da antiguidade e da constante prática através dos tempos, a capoeira já era proibida na época da escravidão. Sua ascensão se dá em 1937, com a oficialização da primeira Academia, a de Mestre Bimba, pela Secretaría de Educação da Bahia. Segundo consta a concessão foi obtida após uma apresentação no Palácio do Estado, a pedido do então Interventor Federal Juracy Montenegro Magalhães.

      A primeira proibição oficial vai aparecer no Código Criminal do Império, de 1830, em seu capítulo IV, artigo 29b, sem que a ela se referisse diretamente, enquadrando-a entre vadiagem e mendicância. Somente no Código Penal da República, instituído em 11 de outubro de 1890, no capítulo XIII, intitulado «Dos vadios e capoeira», o veto aparece claramente, com pena de dois a seis meses aos infratores. Maior repressão vem no Código de 1893, que autoriza o Governo a construir uma colônia de correção em Fazenda da Boa Vista (Paraíba do Sul), ou onde melhor lhe parecer, destinada a vadios e capoeiristas, lei que vem a ser confirmada pela Consolidação das Leis Penais, em seu artigo 46.

      No entanto, a fase de grande repressão, que não ficou só nos papéis, embora neles baseada, data de 1920, quando assumiu a Chefia da Polícia da Bahia Pedro de Azevedo Gordilho, o lendário Pedrito. Mantendo sob suas ordens o famoso Esquadrão de Cavalaria, empreendeu verdadeiro massacre entre os velhos mestres do jogo, não em combate aberto, corpo a corpo. Em geral os assassinava após a captura, aparecendo o corpo dias depois, atirado ao mato, as costas abertas de facadas. Dentre os que assim tombaram, Onça Preta recorda-se:

      - Besourinho, Doze Homens, Mãozinha, Antônio Galindéu, Geraldo Chapeleiro, Finado Manteiga, Nagé, Paulo César de Moura, Gasolinha, Juvelino e muitos outros.

      Com a morte desses homens, termina uma etapa da história da capoeira na Bahia. A custa de muito sangue, ascende uma nova geração, que até então se mantinha apagada. Chega a época de Onça Preta, Mestre Bimba, Dois de Ouro, Juvenal, Valdemar, Valdemiro (que até hoje pula de sapato e terno branco, a exemplo de Aberrê), etc.

      - Mas como eu - ressalta Onça Preta - todos beirando mais de sessenta anos. Todos pulando bem, mas já na hora de dar lugar aos mais novos.

    • +

      página 3

      O quinhão de Onça Preta

      Ao lado de Onça Preta, Mestre Roque. Homem pequeno, magro, de cor indefinida, entre mulato e caboclo, 39 [34, porque nasceu em 1938] anos, sujeito tranqüilo, ponderado. Envaidece-se com os elogios de Onça Preta, que conheceu ainda garoto pela fama. E pessoalmente já rapaz. Lembra pouco dos tempos de Pedrito [quem fugiu da Bahia em 1930]. Só as histórias contadas pelo pai, também capoeirista, conhecido como Bernardino [Chico Preto, de uma outra entrevista], assassinado em 1956, em briga com parceiros de pesca.

      - Oito homens para matar o velho...

      Lembra também de detalhes, que por falha na memória ou esqeucimento voluntário, Onça Preta deixou omitidos:

      - Também Onça Preta recebeu sua parte da perseguição de Pedrito. Foi numa roda do Julião, lá na Cidade Baixa de Salvador. Era costume então, mais afastado, um capoeira ficar de alerta, vigiando se a polícia aparecia. Em caso afirmativo, ele puxava no berimbau o «toque de cavalaria». Todos o conheciam. Um ritmo ligeiro, imitando tropel de cavalos. Naquela tarde o vigia descuidou. Quando os jogadores viram, os soldados estavam no meio da roda.

      - Onça Preta se atrapalhou. Não deu tempo de correr e caiu entre os cavalos. Teve as pernas massacradas, abertas em chagas profundas. Levou quinze anos para tratar. Não foi a medicos, com medo de perdê-las. Curou com ervas, rezas e mandingas. Hoje estão cicatrizadas, e ele, sou testemunha, ainda pula muito bem. O bastante pra me derrubar.

      O velho mestre abaixa a cabeça, balança-a de um lado para o outro, murmura algo baixinho, um lamento indecifrável. Em seus olhos nada de revolta ou de raiva. Da recordação, apenas, e muita tristeza.

      A capoeira

      - Segundo aprendi - prossegue mestre Roque em sua narrativa - a capoeira chegou à Bahia com os escravos de Angola, no século XVI, sendo usada principalmente quando um escravo em fuga pretendia desvencilhar-se de seu perseguidor: o capitão-do-mato.

      - Hoje existem duas capoeiras: a regional, criada por Mestre Bimba, em 1918, na qual entram golpes de judó, luta-livre, catch e outra, a angolana, que a maioria dos mestres seguem, basicamente de ataque e defesa, em que os pés e a cabeça têm a máxima importância, ficando as mãos em segundo plano.

      Onça Preta faz um aparte para um comentário sobre a Regional de Mestre Bimba:

      - Onde já se viu capoeira em que se segura o adversário e os homens se grudam? Bimba que me desculpe... Mas capoeira de verdade, pra mim, só a de Angola.

      Mestre Roque sorri, acena a cabeça num sinal de aprovação e prossegue:

      - A capoeira se joga em roda. Quem pular fora ou cair, perde. Ali os homens, sempre gingando, ao som de música e de palmas, vão tentando os seus golpes: rabo-de-arraia, cabeçada, rasteira, meia-lua, aú, armada, pulo do macaco, jogo de dentro, cocorinha e outros, um total de 21, com variações de capoeirista para capoeirista. Depende do balanço de cada um.

      - Ao redor os companheiros aguardam a vez, tocando berimbau, reco-reco, pandeiro e atabaque, puxando um dos toques conhecidos. Se o jogo é ligeiro, toque de São Bento Grande; samba de capoeira, São Bento Pequeno; jogo de dentro com faca, Banguela; jogo lento, Santa Maria; jogo médio, Amazonas; jogo baixo, Iúna, e assim por diante. Vários toques existem, sempre puxados pelo berimbau.

      - E para cada toque há as cantigas, que vão sendo entoadas pelos que formam a roda. Antes de se entrar nela. «Ai, ai Aidé/Brinca bonito que eu quero aprender». Então dois capoeiras vão vem primeiro a canção. É como um desafio. Por exemplo: começa a cantoria: para o centro da roda e tem início o jogo.

      - Onça Preta foi um dos pioneiros no «samba de capoeira». Teve uma composição que foi cantada na Rádio Cultural da Bahia, pelo conjunto vocal «Cancioneiros do Norte». Era formado por cinco sujeitos, tocando violão, trintlim, tantã, pandeiro e cabaça. Começava com uma quadra de capoeira e tinha solo de berimbau*.

      *Samba-Capoeira

      Menino quem foi seu mestre
      Meu mestre foi Salomão
      Me ensinou a capoeira
      Com a palmatória na mão

    • +

      página 4

      Enfim, um mestre

      Mestre Roque hoje mantém uma academia na Praça Tiradentes, 69, 2o andar, com 16 alunos, sendo a única condição para nela ingressar ter mais de 7 anos. Não interessa o sexo. Esta é a sua única fonte de renda, mas para consegui-la suou um bocado, como ele próprio conta:

      - Vim para cá em 1951 [1956, de outras entrevistas], prestando serviço militar na Marinha. Nada então me faltava. Dinheiro, comida, casa e roupa lavada. Três anos depois dei baixa. Foi aí que senti que tinha de me virar para viver, para conseguir um lugar na cidade grande.

      - Fui camelô durante seis anos, vendendo o que podia comprar. A mais variada sorte de quinquilharias. Durante esse tempo, eu queria achar capoeira, queria brincar um pouquinho, mas não encontrava ninguém. Sentia falta. Afinal, aprendi a jogar aos sete anos, com Mestre Paizinho, à custa de muito esforço. Escondido de minha mãe, tinha que arranjar dinheiro andando a pé ou de carona no bonde, economizando a mesada.

      - Fui crescendo e participando de grandes rodas. Pulei com Pastinha, Caiçara, Vitor Agaú, Onça Preta e muitos outros mestre da minha época. Só não joguei com Bimba, que não perdia tempo com crianças.

      - Um dia, aqui no Rio, cansado do isolamento, improvisei um berimbau com cabo de vassoura e fui para Copacabana. Foi só entoar o «bichinho», que apareceram adversários. Mas pra minha sorte, hoje reconheço, um soldado me prendeu. Levou-me para a Fortaleza de São João. Pensei que «estava frito». Ainda mais quando o coronel mandou me chamar. Era um homem sizudo, com cara de mau. Foi logo perguntando: «Você é bom mesmo na capoeira, ou é só fanfarrão?» Respondi que só pulando para ver. Ele então mandou vir o Capitão Abelardo, professor de Educação Física, sujeito grande e parrudo, mestre de várias lutas, inclusive da minha.

      - Pulamos junto e eu me sái bem. Deitei o capitão ao chão. O coronel desatou numa risada, mandou que me dessem comida - e olha que eu estava com uma fome danada - e me deixou ir embora. E minha sorte não terminou ai. O capitão me contratou para ensinar capoeira aos seus filhos, em troca de um bom dinheirinho. Eu me tornei um mestre.

      O comércio

      - Foi assim que de aulas em casa, passei pra academia. A primeira foi na Praça Mauá. Depois, em 1962, passei para a Rua Sacadura Cabral, 62. Em seguida para um Clube da Petrobrás, à Rua da Conceição. Até que me aborreci e parei com a capoeira. Voltei à vida de camelô, sendo mais tarde ajudante de eletricista.

      - Meses passados, voltou a solidão. Senti falta da brincadeia e tornei a abrir academia. Dessa vez no Morro do Pavãozinho, tenho participado, com minha equipe, do Berimbau de Ouro da Feira da Providência. Mas lá só me davam o segundo lugar, alegando que faltava alguma coisa. O pessoal da comissão nada entendia do assunto. Queria enfeitar muito a coisa, criando um jogo sofisticado que, se bonito, longe estava de ser capoeira.

      - Com isso fui ganhando fama e nome. Participei de «shows» de TV, peças e fitas de cinema. Trabalhei com Jéce Valadão, Leonardo Villar e Nélson Rodrigues. Fui o primeiro capoeirista baiano a fazer um espetáculo de capoeira e maculelé no Rio.

      - Era na General Caldas, onde levava «Noites na Bahia». Aos domingos, as rodas eram da pesada. Entrava carioca ou baiano. Mas se não fosse bom, se machucava, como cansou de acontecer. A gente trocava. Dizia que era o «Esquadrão da Morte». Estava na moda, naquela época.

    • +

      página 5

      - Com aquele «show» ganhei do Instituto Belas-Artes um frango empalhado. Coloquei o bichinho na porta e, como teve gente que ali deixou esmola, houve dias em que, só de moedas, juntei perto de Cr$ 130,00.

      - Há quatro meses estou na Praça Tiradentes. Daqui só saio para uma academia minha mesmo, sem ser de prédio alugado. Nesse dia, então, levo Onça Preta comigo. Ele deixa de ser servente lá no Hospital de Puericultura e vem trabalhar comigo. Com o nome que tem, vamos arranjar mais aluno que colégio do Estado...

      Onça Preta, calado há algum tempo, ouvindo as histórias do aluno, volta a se manifestar. Uma fala convicta, e semblante séria, uma pontinha de indignação:

      - Mas só se for academia de capoeira autêntica. Nada de inventar roupa colorida, parecendo fantasia. Nada de criar passos, só pra coisa ficar difícil. Nada de querer impressionar com muita coreografia e pouca eficiência. Essa história de deturpar a capoeira pra fazer comércio não é comigo não. Pra mim, ela é religião. Tem de haver respeito e amor. Acho que muita gente não a entendeu direito. Quando aqui cheguei, há 13 anos, poucas academias havia. Umas duas ou três, como a sua, a de Artur Emídio e a de Mário Santos, e autênticas.

      - Hoje tem mais de 30. Cada uma com novidades que não existem. Pra comerciar, enfeitam a mercadoria. É como um sujeito que abre um candomblé e passa a cobrar consulta, como se caridade tivesse preço.

      Mestre Roque concorda em tudo. Afinal ele sabe que capoeira faz parte da tradição do povo, do folclore. Se um dia foi perseguida como arma da malandragem, hoje é ensinada como educação física nas escolas e Forças Armadas. Está presente no cinema, na música, artes plásticas, literatura e palcos teatrais. Faz parte do Brasil. Suas cantigas fornecem elementos para o estudo da vida brasileira, narrando toda a epopéia de nossos ancestrais a partir da escravidão.

      - E com tanta participação na História, não pode ser maculada. Qualquer coisa que se faça que não seja uma tentativa de reproduzi-la em toda sua autenticidade, é a mesmo coisa que destruir, por livre e espontânea vontade, uma valiosa obra de arte - ressalta um estudioso do folclore.

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