• Revista Manchete
     CIDADE DE SALVADOR - CAPOEIRA
     QUEM NÃO BRIGA, DANÇA

    9 de janeiro 1982

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      Acervo de Reynivaldo Brito

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    Manchete, 9/jan/1982

    O texto

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      Cidade de Salvador - CAPOEIRA Quem não briga, dança
      Revista Manchete
      9 de janeiro 1982

      Texto Reynivaldo Brito * Fotos Tadeu Lubambo

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      Há mais de 20 anos ninguém conseguia reunir numa mesma roda os seis maiores nomes da capoeira na Bahia. Manchete realizou esta façanha

      Entre as artes marciais trazidas pelos escravos da África para o Brasil, a mais bela, e sem dúvida a mais completa, é a capoeira. Expressão corporal do mais alto nível, mistura de luta, dança e esporte, a capoeira foi assimilada pelos brasileiros (principalmente na Bahia, Rio de Janeiro e Pernambuco), que lhe impuseram as inevitáveis transformações resultante de uma cultura diferente. Como todas as artes tradicionais que não têm regras escritas, a capoeira se transmitiu de mestres a discípulos, numa sucessão cuja origem, segundo os pesquisadores, se encontra nas lutas corporais de Angola. Mas, durante muitos anos, a prática da capoeira foi proibida pelos colonizadores brancos que viam nela, como aliás no candomblé, uma perigosa resistência da civilização e cultura negras ao domínio português. Além destas dificuldades de ordem policial, ocorreram ainda rivalidades entre diferentes escolas, ou mais exatamente entre diferentes mestres. Os maiores capoeiristas da Bahia acabavam sempre se indispondo uns com os outros, e esta hostilidade passava aos respectivos discípulos. Há mais de 20 anos ninguém conseguia reunir numa mesma roda os seis maiores nomes da capoeira na Bahia: Waldemar da Paixão (Waldemar), Rafael Alves França (Cobrinha Verde), João Pereira dos Santos (João Grande), José Gabriel Goes (Gato), Canjiquinha e João Oliveira dos Santos (João Pequeno). Manchete realizou esta façanha. E o resultado deste encontro histórico poderá ser um novo estímulo para a prática da capoeira no Brasil.

      Os capoeiristas do grupo Bahia Total procuram explorar principalmente o lado folclórico desta luta tradicional, exibindo de preferência os golpes mais espetaculares e os gestos que demonstram um domínio perfeito do próprio corpo, na defesa como no ataque.
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      Durante toda a vigência da escravatura do Brasil, as autoridades policiais sempre tiveram o cuidado de proibir a prática da capoeira. No fundo, tratava-se de uma técnica de luta (defesa e ataque) em que os negros se mostravam nitidamente superiores. O lutador de capoeira era considerado um marginal perigoso, um delinqüente. O código criminal do Império (1930) previa penas específicas para este tipo de delinqüência, e até mesmo depois da proclamação da República foi baixado um decreto especial contra “os Vadios e Capoeiras” que previa prisão de dois meses para os simples praticantes, e o dobro das penas para os mestres. Na Bahia, o chefe de Polícia, Pedro de Azevedo Gordilho (Pedrito), ficou famoso pelo rigor com que perseguiu o candomblé e a capoeira. Em 1937, um dos maiores capoeiristas de toda a história do Brasil, Manuel dos Reis Machado, o famoso Mestre Bimba, já falecido, conseguiu registrar uma academia de capoeira na Secretaria de Educação do Estado, um dia, o interventor Juracy Magalhães mandou uma intimação a Mestre Bimba para que comparecesse em Palácio. O professor avisou aos discípulos que ficassem atentos: se não voltasse dentro de algum tempo era sinal de que estava preso.Para sua grande surpresa, o interventor convidou-o amavelmente a realizar algumas exibições de capoeira, com seus melhores alunos, diante de altas autoridades que estavam em visita oficial à Bahia. Daí por diante a capoeira saiu da semiclandestinidade em que vivia, ganhou os colégios e as salas de ginástica, e acabou se transformando numa das mais belas manifestações do folclore afro-brasileiro. Uma boa roda de capoeira é um espetáculo que deixa boquiabertos os espectadores estrangeiros. E como forma de luta corporal, a capoeira acabou sendo adotada oficialmente até mesmo entre certas formações de elite, como a dos Fuzileiros Navais. Vale apenas acompanhar as pesquisas dos estudiosos sobre as vicissitudes da capoeira no Brasil.

      Saindo da clandestinidade, a capoeira acabou ganhando os colégios e academias de todo o país

      Mestre Waldemar ganha a vida pintando cabaças para a fabricação de berimbaus. Os dois grandes capoeiristas baianos, João Grande e João Pequeno, fazem uma demonstração no Cais da Atracação do Mercado Modelo, em Salvador.
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      Na equipe de mestre Vermelho 27, Jim (primeiro plano) é o destaque. A outra foto registra o encontro histórico dos seis grandes mestres baianos promovido por MANCHETE: Waldemar, Cobrinha Verde, João Grande, Gato, Canjiquinha e João Pequeno, que de agora em diante esquecem suas rivalidades.

      Apesar das diferenças aparentes, os pesquisadores garantem que a capoeira tem uma origem única

      Atualmente, alguns pesquisadores costumam distinguir quatro modalidades principais de capoeira: show folclórico, esporte, regional e de Angola. Enquanto exibição folclórica, a arte da capoeira é uma manifestação de habilidade e destreza corporal, que se manifesta por um rítmo próprio, com música e balé adequados. O grupo Bahia Total, formado por Maurício Vermelho, antigo estudante de economia que se dedicou à capoeira, já se exibiu em diferentes capitais do Brasil, Europa, África e Estados Unidos, sempre com enorme sucesso. E até as famosas escolas de samba do carnaval carioca também organizam seus grupos de capoeiristas de exibição. Como esporte, a prática da capoeira foi,de certa forma, aperfeiçoada pelo professor Aristides, cuja academia recebe principalmente crianças. As duas últimas modalidades são as consideradas fortes. A capoeira regional foi desenvolvida por Mestre Bimba, um velho capoeirista de Angola que procurou integrar à luta tradicional alguns golpes novos de judô, principalmente lances de pé. Há também quem acrescente a utilização de algumas armas específicas, como a navalha. Mestre Cobrinha Verde (Rafael Alves França), por exemplo, é um dos únicos capoeiristas que sabe jogar capoeira com navalha presa entre os dedos do pé. Se o golpe do pé sem navalha já é, na maioria das vezes, decisivo, pode-se imaginar a eficiência que a arma vem acrescentar ao lance. As inovações de Mestre Bimba não foram muito bem recebidas pelos adeptos da escola de Mestre Pastinha (Vicente Ferreira, que faleceu no mês passado aos 92 anos de idade), considerado o maior capoeirista de todos os tempos. Mestre Pastinha continuou defendendo a pureza absoluta da chamada capoeira de Angola, e as discussões acabaram em desavença profunda que durou mais de vinte anos, e à qual esta reportagem de Manchete pode pôr um paradeiro. Apesar destas diferenças menores, os especialistas, entre os quais se destaca o etnólogo folclorista baiano Waldeloir Rego, garantem que a capoeira é uma só, embora seja difícil lhe indicar uma origem bem definida. Na realidade, os elementos fundamentais são permanentes: música de berimbau, golpes de pé, gingas, arte, e principalmente muita manha. A partir daí, os capoeiristas de qualquer escola se dão ao luxo de improvisar. Exatamente como no futebol. Questão de temperamento do lutador. Os chamados golpes cinturados ou ligados, usados na regional, são também explorados pelos praticantes da Angola. Os lutadores iniciam o jogo depois de terminada a ladainha, com todos os capoeiristas agachados na cocorinha, como eles chamam. Depois de se benzerem, os dois adversários trocam um aperto de mão, e ficam gingando de um lado para outro. Um dos lutadores recusa o corpo ao adversário, caindo para trás na negativa, enquanto procura arrastar o pé de apoio do outro, derrubando-o. A partir daí começa os golpes: tesoura, morcego, rasteira, benção, martelo, cabeçada ou rabo-de-arraia. O berimbau vai tocando o São Bento Grande, Banguela, Iúna, Cavalaria, são Bento Pequeno, ou o São Bento Grande de Angola, com floreios vistosos pernadas aparentemente inofensivas, mas de uma violência incrível. Por sua beleza e sua eficácia, a capoeira já faz parte integrante das maiores manifestações do folclore brasileiro.

      Atualmente com 78 anos [74 - velhosmestres.com], Mestre Cobrinha Verde é certamente o capoeirista mais velho em atividade no Brasil.

      Mestre Gato [camisa azul, com berimbau] em exibição diante de seus alunos. Aos 52 anos, é considerado como um dos capoeiristas mais ágeis da Bahia e improvisa, armando golpes inéditos durante o jogo.

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